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Estudo revela como o gênero de terror pode fortalecer a mente e diminuir a ansiedade em espectadores

Assistindo filmes de terror e terror na TV
Assistindo filmes de terror e terror na TV - Tero Vesalainen/shutterstock.com

Uma série de pesquisas recentes está desvendando um fenômeno intrigante conhecido como o “paradoxo do terror”, que explica por que tantas pessoas buscam voluntariamente experiências assustadoras, como assistir a filmes do gênero. Contrariando a intuição de que o medo é uma emoção a ser evitada, cientistas descobriram que a exposição controlada a narrativas de horror pode, na verdade, trazer benefícios psicológicos mensuráveis. Os estudos indicam que essa prática funciona como uma espécie de treinamento para o cérebro, aprimorando a capacidade de regular emoções, diminuindo os níveis gerais de ansiedade e aumentando a resiliência para enfrentar adversidades no mundo real, um efeito que se tornou particularmente evidente durante a crise sanitária global.

A investigação sobre o tema ganhou força nos últimos anos, com neurocientistas e psicólogos buscando entender as bases biológicas e comportamentais dessa atração. A chave parece estar na forma como o cérebro processa ameaças em um ambiente que reconhece como seguro.

Isso permite que os espectadores vivenciem a adrenalina e a tensão de uma situação perigosa sem o risco real, ativando e fortalecendo os circuitos neurais responsáveis pela resposta ao estresse e pela tomada de decisões sob pressão.

Assistindo filme na Tv mulher assustada
Assistindo filme na Tv mulher assustada – BaLL LunLa/shutterstock.com

O que diz a neurociência sobre o medo controlado

Do ponto de vista neurológico, assistir a um filme de terror é um exercício complexo para o cérebro. Quando nos deparamos com uma cena assustadora, a amígdala, nosso centro de processamento do medo, é ativada instantaneamente, desencadeando respostas fisiológicas como aumento da frequência cardíaca e da respiração. Contudo, simultaneamente, outras áreas cerebrais, como o córtex pré-frontal, responsável pelo pensamento racional e pela tomada de decisões, enviam sinais de que a ameaça não é real. Essa interação constante entre a resposta instintiva ao medo e a consciência da segurança cria um ambiente de simulação ideal. O cérebro aprende a modular a resposta de pânico, e a liberação de neurotransmissores como adrenalina, endorfinas e dopamina pode gerar uma sensação de euforia e alívio após o susto, o que reforça positivamente a experiência e a transforma em algo prazeroso para muitos. Esse processo, segundo especialistas, refina a capacidade do indivíduo de antecipar perigos e reagir de forma mais calculada e menos impulsiva em situações estressantes da vida cotidiana.

Três perfis distintos de fãs do gênero

Pesquisas lideradas por Coltan Scrivner, da Universidade Estadual do Arizona, conseguiram categorizar os fãs de terror em três grupos principais, cada um com motivações distintas para buscar o medo. O primeiro grupo é o dos “dependentes de adrenalina”, que buscam a intensa resposta física provocada pelo medo, relatando uma sensação de estarem mais vivos e alertas.

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O segundo perfil é o dos “apavorados”, indivíduos que, paradoxalmente, não gostam da sensação de medo em si, mas apreciam o profundo alívio e a sensação de superação que sentem quando o filme acaba. Para eles, o valor está em confrontar e vencer o medo.

Por fim, existem os “negociadores sombrios”, um grupo que utiliza o terror como uma ferramenta para explorar os aspectos mais difíceis da condição humana e testar seus próprios limites emocionais. Eles se interessam por temas complexos e usam as narrativas para refletir sobre a mortalidade e o mal de uma distância segura.

A validação dos estudos em diferentes culturas

A universalidade desses perfis foi confirmada por um estudo replicado na Dinamarca. Pesquisadores analisaram o comportamento de visitantes em uma casa mal-assombrada interativa e de alta intensidade, esperando encontrar variações culturais nas motivações.

Surpreendentemente, os resultados mostraram que os participantes dinamarqueses se encaixavam exatamente nos mesmos três perfis identificados nos Estados Unidos, reforçando a ideia de que a atração pelo terror tem raízes profundas na psicologia humana, transcendendo barreiras culturais e linguísticas.

Resiliência aprimorada em cenários de crise real

Um dos achados mais significativos dos estudos recentes surgiu durante a pandemia de covid-19. Uma pesquisa revelou que os fãs de filmes de terror, especialmente de subgêneros apocalípticos e de sobrevivência, demonstraram uma resiliência psicológica notavelmente maior durante o auge da crise.

Esses indivíduos relataram menores níveis de estresse e ansiedade ao acompanhar o noticiário e se mostraram mais confiantes em sua capacidade de lidar com o isolamento e as incertezas do período.

A teoria é que eles já haviam “praticado” cenários de colapso social e ameaças invisíveis em um ambiente ficcional, o que os preparou mentalmente para uma crise real.

A exposição regular ao medo controlado parece ter fortalecido seus recursos emocionais, tornando-os mais aptos a enfrentar um evento adverso de grande escala com mais tranquilidade e pragmatismo.

Aplicações terapêuticas e o futuro da exposição ao medo

Os benefícios observados levaram pesquisadores a explorar o potencial terapêutico do medo controlado. Na Holanda, por exemplo, foi desenvolvido um videogame chamado MindLight, que funciona como uma casa mal-assombrada virtual projetada para tratar a ansiedade em crianças. Utilizando tecnologia de neurofeedback, o jogo ensina os jovens jogadores a controlarem seu medo e ansiedade em tempo real. Quanto mais calmos eles permanecem diante das situações assustadoras do jogo, mais poder e controle ganham sobre o ambiente virtual, como acender luzes com a mente. Os ensaios clínicos demonstraram que o MindLight foi tão eficaz na redução dos sintomas de ansiedade quanto a terapia cognitivo-comportamental tradicional, abrindo um novo caminho para tratamentos baseados em gamificação.

Essa abordagem se baseia nos princípios da terapia de exposição, uma técnica consolidada para tratar fobias e transtornos de ansiedade, mas a utiliza de uma forma mais lúdica e engajadora. A ideia é que, ao enfrentar medos em um contexto seguro e gerenciável, os pacientes podem recondicionar suas respostas emocionais e aprender que são capazes de lidar com as situações que temem. O sucesso dessas iniciativas sugere que o entretenimento de terror, quando bem aplicado, pode se tornar uma ferramenta complementar valiosa no campo da saúde mental, ajudando pessoas a desenvolverem estratégias de enfrentamento que podem ser transferidas para suas vidas diárias.

Como se expor ao terror de forma segura

Para aqueles que desejam explorar os benefícios do gênero, mas são mais sensíveis, especialistas recomendam uma abordagem gradual. Começar com livros de terror ou suspense pode ser uma boa estratégia, pois permite um maior controle sobre o ritmo e a intensidade da experiência, já que o leitor cria as imagens em sua própria mente. A escolha de subgêneros que se alinhem com interesses pessoais também pode facilitar a adaptação, tornando a experiência mais envolvente e menos avassaladora.

Benefícios além do controle da ansiedade

Além de fortalecer a resiliência e a regulação emocional, o consumo de mídia de terror pode proporcionar outros benefícios. Assistir a esses filmes em grupo, por exemplo, é uma poderosa ferramenta de vínculo social, pois a experiência compartilhada de medo e alívio pode fortalecer laços de amizade e confiança.

O gênero também pode funcionar como uma forma de catarse, permitindo que as pessoas processem emoções reprimidas ou medos existenciais em um contexto seguro. Ao se identificar com os personagens que enfrentam situações extremas, os espectadores podem explorar seus próprios sentimentos sobre vulnerabilidade e sobrevivência, resultando em uma sensação de liberação emocional após o término da história.

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