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Cientistas descobrem que arqueias Asgard usavam oxigênio antes de formar vida complexa na Terra

Cientista
Cientista - PanuShot/shutterstock.com

Uma descoberta fundamental sobre a origem da vida na Terra foi publicada recentemente na revista Nature por pesquisadores da Universidade do Texas em Austin. O estudo detalha como micro-organismos ancestrais, conhecidos como arqueias Asgard, já possuíam a capacidade de metabolizar oxigênio muito antes da simbiose que deu origem às células complexas atuais. A revelação altera a compreensão sobre os passos evolutivos que permitiram o surgimento de plantas, animais e fungos.

A análise genética focou em um grupo específico chamado Heimdallarchaeia, considerado o parente microbiano mais próximo de todos os organismos eucariontes. Utilizando inteligência artificial e sequenciamento avançado de DNA recuperado de sedimentos marinhos, a equipe identificou genes responsáveis pela respiração aeróbica nessas linhagens antigas. Os dados indicam que a transição para a vida complexa não foi um evento abrupto, mas sim um processo gradual de adaptação química.

Microscopio, cientista
Microscopio, cientista – NMK-Studio/shutterstock.com

Os resultados solucionam um antigo debate científico sobre como um hospedeiro anaeróbico poderia ter se fundido com uma bactéria dependente de oxigênio. Anteriormente, acreditava-se que essa união seria biologicamente incompatível sem uma preparação prévia. O estudo demonstra que o ancestral comum já explorava o oxigênio disponível no ambiente, facilitando a integração da bactéria que viria a se tornar a mitocôndria.

Essa adaptação metabólica ofereceu vantagens energéticas decisivas. A capacidade de processar oxigênio permitiu a geração de mais energia celular, combustível essencial para sustentar organismos maiores e mais complexos. A pesquisa sugere que essas características evoluíram em resposta direta às mudanças na atmosfera terrestre primitiva.

Mapeamento genético e uso de inteligência artificial

Para chegar a essas conclusões, os cientistas compilaram e analisaram mais de 13 mil novos genomas microbianos coletados em diversas expedições oceânicas ao redor do mundo. O volume de dados processados foi massivo, envolvendo cerca de 15 terabytes de sequenciamento genético bruto para filtrar as informações relevantes sobre a evolução celular e identificar padrões ocultos no código genético.

O uso da ferramenta AlphaFold2 foi decisivo para a validação das descobertas, pois permitiu prever as estruturas tridimensionais das proteínas encontradas nas arqueias Heimdallarchaeia. Ao comparar essas estruturas com as de organismos modernos, ficou evidente a similaridade com as proteínas usadas no metabolismo oxidativo atual, confirmando a conexão evolutiva.

Componentes cruciais, como subunidades do Complexo I e hidrogenases de membrana, apresentaram configurações altamente conservadas. Essas estruturas são fundamentais para a eficiência na geração de força motriz de prótons, um mecanismo vital para a produção de energia em nível celular.

Além disso, a equipe conseguiu recuperar centenas de novos genomas a partir de amostras da coluna d’água e sedimentos, expandindo drasticamente o catálogo genético do grupo Asgardarchaeota. A identificação de 136 genomas adicionais de Heimdallarchaeia quase dobrou o conhecimento disponível sobre essa linhagem específica.

Adaptação ao oxigênio e vantagens evolutivas

A capacidade de utilizar oxigênio na respiração celular gera muito mais ATP — a moeda energética da vida — do que os processos anaeróbicos tradicionais. Essa eficiência extra forneceu o suporte metabólico necessário para o desenvolvimento de estruturas celulares mais complexas e robustas ao longo de milhões de anos, permitindo que a vida deixasse de ser apenas microscópica e simples.

As evidências sugerem que essas arqueias viviam em sedimentos costeiros rasos e na coluna d’água, ambientes onde os níveis de oxigênio variavam, forçando uma adaptação evolutiva direta. Diferente de outras linhagens que permaneceram em zonas profundas e sem oxigênio, as Heimdallarchaeia encontraram nichos onde a respiração aeróbica era possível e vantajosa.

Mecanismos de defesa também foram identificados, como enzimas para a biossíntese de heme e a detoxificação de espécies reativas de oxigênio. Essas ferramentas biológicas eram essenciais para proteger as células contra os danos oxidativos, especialmente durante o período conhecido como Grande Evento de Oxidação, que alterou radicalmente a química do planeta.

Reconfiguração da teoria endossimbiótica

O modelo científico predominante descreve a origem dos eucariotos através da endossimbiose, onde uma arqueia hospedou uma bactéria que eventualmente se tornou a mitocôndria. A nova descoberta refina essa teoria, indicando que o hospedeiro não era um organismo passivo ou estritamente anaeróbico, mas um ser já pré-adaptado ao consumo de oxigênio.

Com os novos dados, entende-se que o hospedeiro Asgard possuía vias aeróbicas parciais que facilitaram a integração e o controle do simbionte bacteriano. Essa compatibilidade metabólica teria sido a chave para o sucesso da fusão, permitindo que a nova célula híbrida prosperasse em um mundo cada vez mais oxigenado.

A coincidência temporal entre o aumento dos níveis de oxigênio na atmosfera, há cerca de 2,4 bilhões de anos, e o surgimento de microfósseis eucarióticos reforça a hipótese. O oxigênio não foi apenas um subproduto ambiental, mas um motor ativo que impulsionou a complexidade biológica através dessas linhagens de arqueias.

  • Heimdallarchaeia possui código genético para biossíntese de heme.
  • Linhagem apresenta mecanismos robustos de defesa contra danos oxidativos.
  • Proteínas identificadas são semelhantes aos complexos III e IV mitocondriais.
  • Organismos ocorrem preferencialmente em nichos com presença de oxigênio.
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