Um vírus chamado Lujo causou um surto restrito mas letal em 2008. O patógeno infectou cinco pessoas entre Zâmbia e África do Sul. Quatro delas morreram. O caso único até hoje chama atenção de pesquisadores que estudam febres hemorrágicas virais.
O vírus pertence à família dos arenavírus. Ele recebeu o nome a partir das iniciais de Lusaka, na Zâmbia, e Johannesburgo, na África do Sul. A transmissão inicial ocorreu provavelmente de um hospedeiro animal para o ser humano. Depois houve contágio entre pessoas em ambiente hospitalar.
Surto começou com paciente em Lusaka
A primeira pessoa infectada foi uma agente de viagens de 36 anos. Ela morava nos arredores de Lusaka. Sintomas leves apareceram antes de uma viagem para um casamento na África do Sul. A condição piorou após o retorno à Zâmbia. Médicos trataram inicialmente como gripe ou intoxicação alimentar. A paciente foi transferida de avião para Johannesburgo. Ela morreu 13 dias depois do início dos sintomas.
Um paramédico que atendeu a mulher em Lusaka também adoeceu. Ele foi levado para o mesmo hospital na África do Sul e não resistiu. Uma enfermeira que cuidou da paciente durante e após a transferência faleceu igualmente. A doença não foi reconhecida logo como febre hemorrágica viral. Por isso os protocolos rigorosos de controle de infecção demoraram a ser adotados.
Casos adicionais atingiram profissionais de saúde
Duas outras pessoas contraíram o vírus no hospital. Uma faxineira que trabalhava no local onde a primeira paciente recebeu atendimento ficou doente. Outra enfermeira que cuidou de um paciente secundário também foi infectada. Esta última sobreviveu. Ela recebeu medicamentos antivirais depois que as autoridades identificaram o padrão de febre hemorrágica.
O surto totalizou cinco casos confirmados. Quatro resultaram em morte. A taxa de letalidade chegou a 80%. A transmissão entre humanos ocorreu principalmente por contato com fluidos corporais. Especialmente nos estágios finais da doença. Isso limitou a propagação para além do ambiente hospitalar.
- Paciente zero viajou de Lusaka para a África do Sul com sintomas iniciais
- Paramédico e enfermeira que prestaram atendimento direto morreram
- Faxineira exposta no hospital contraiu a infecção
- Uma enfermeira de caso secundário sobreviveu após antiviral
- Nenhum outro caso foi registrado fora desse grupo

Sintomas progridem de forma rápida
Os primeiros sinais surgem entre sete e 13 dias após a infecção. Febre, dor de cabeça e dor muscular aparecem. Depois vem o agravamento. Erupção cutânea, inchaço no rosto e no pescoço, diarreia e dor de garganta. Os pacientes podem sentir uma breve melhora antes de desenvolver problemas respiratórios, cardíacos e neurológicos.
A morte costuma ocorrer entre dez e 13 dias do início dos sintomas. Sangramento não é o sinal mais comum, diferentemente de outras febres hemorrágicas como a do Ebola. Os centros de controle de doenças destacam que o quadro se assemelha à febre de Lassa, outro arenavírus africano. A aparência do vírus sob microscópio eletrônico lembra grãos de areia, característica da família.
Transmissão envolve roedores e contato humano
Pesquisadores consideram o vírus zoonótico. O salto inicial provavelmente veio de roedores. Arenavírus como o da febre de Lassa se espalham por contato com urina ou fezes de ratos da espécie Mastomys natalensis. No caso do Lujo, o reservatório exato ainda não foi confirmado. Estudos encontraram arenavírus relacionados em populações de roedores próximos a áreas urbanas na região.
A transmissão de pessoa para pessoa acontece por fluidos corporais. O risco aumenta nos últimos dias de vida do paciente. Essa janela menor de contágio ajudou a conter o surto de 2008 em apenas cinco pessoas. Cientistas alertam que um caso em uma clínica lotada poderia mudar o cenário. Fatores como imunodeficiências na população, por exemplo por HIV ou tuberculose, também poderiam facilitar a disseminação.
Estudos recentes buscam alvos para tratamentos
Uma pesquisa de 2024 analisou a estrutura da proteína spike do vírus Lujo e comparou com a do vírus Lassa. Essa proteína permite que o vírus se ligue às células humanas. O Lujo é o único arenavírus conhecido que usa a neuropilina-2 como receptor de entrada nas células. Os autores mapearam como a spike se conecta a essa proteína. O achado pode abrir caminho para medicamentos ou vacinas prontos para uso em um eventual novo surto.
Não existe tratamento específico aprovado contra o vírus Lujo. O manejo é de suporte. Inclui hidratação, controle de sintomas e medidas para manter funções vitais. No único caso de sobrevivência, o antiviral ribavirina foi administrado. Outros suportes incluíram estatina, N-acetilcisteína e fator VII recombinante. A eficácia exata da ribavirina contra o Lujo ainda não está totalmente estabelecida.
Risco de novos surtos permanece em estudo
O surto de 2008 foi o único documentado até o momento. Nenhuma outra infecção humana por Lujo foi confirmada desde então. Autoridades de saúde mantêm vigilância sobre febres hemorrágicas na África austral. O conhecimento acumulado serve para preparar respostas rápidas caso o patógeno reapareça.
Laboratórios sequenciaram o genoma completo do vírus logo após o surto. Isso permitiu classificá-lo como um novo membro dos arenavírus do Velho Mundo. A aparência granulosa e o material genético de RNA confirmam o parentesco com outros vírus da família. Pesquisas continuam para entender melhor hospedeiros animais e mecanismos de entrada celular.