O WhatsApp notificou seus usuários sobre mudanças significativas em sua política de privacidade que entrarão em vigor no dia 8 de fevereiro. A atualização amplia o compartilhamento de dados pessoais com o Facebook, empresa controladora do aplicativo desde 2014, gerando reações negativas e migrações em massa para alternativas como Signal e Telegram. O aplicativo de mensagens reafirma que o conteúdo das conversas permanece criptografado, mas a questão envolve dados pessoais e comportamentais dos usuários.
O que muda na política de privacidade do WhatsApp
A atualização dos termos de serviço e política de privacidade do WhatsApp detalha como a empresa tratará dados dos usuários, especialmente relacionados às contas comerciais. O comunicado oficial menciona atualizações sobre “como as empresas podem usar os serviços de hospedagem do Facebook para armazenar e gerenciar suas conversas no WhatsApp” e “como a parceria com o Facebook possibilita integrações entre os Produtos das Empresas do Facebook”.
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Segundo Mariana Rielli, especialista em segurança de dados e líder de projeto do Data Privacy Brasil, a mudança não representa uma alteração radical nas práticas de compartilhamento. Na verdade, muitos usuários já compartilham dados com empresas do Facebook sem estar conscientes disso. A grande diferença agora é que o WhatsApp explicita essa prática de forma mais transparente, especialmente para o novo serviço de gerenciamento de conversas comerciais que será lançado em breve.
O WhatsApp detalha em sua plataforma quais informações podem ser disponibilizadas ao grupo Facebook: número de telefone, nome, dados do aparelho (marca e modelo), empresa de telefonia móvel, número de IP que indica localização da conexão, além de qualquer pagamento ou transação financeira realizada através do aplicativo.
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A janela de oportunidade perdida em 2016
Em agosto de 2016, o WhatsApp realizou uma atualização global que permitia aos usuários escolher se aceitavam ou não compartilhar dados com o Facebook e outras empresas do grupo, como Instagram. Porém, essa “janela de oportunidade” durou apenas 30 dias. Quem não fez a alteração naquele período ou entrou no aplicativo após 2016 nunca mais teve a opção de se opor ao compartilhamento de dados.
Rielli enfatiza que a principal diferença com a atualização atual é que as pessoas finalmente percebem não ter o direito de se opor ao compartilhamento enquanto usam os serviços do WhatsApp. A assessoria do WhatsApp confirmou que continua respeitando a escolha dos usuários que decidiram não compartilhar dados em 2016, mas não informou quantas pessoas no Brasil optaram por essa restrição.
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- Usuários podem solicitar informações sobre sua escolha em 2016 através das configurações do aplicativo, clicando em “Ajustes”, depois “Conta” e “Solicitar dados da conta”.
- O relatório com os dados é disponibilizado em três dias.
- A assessoria do WhatsApp não divulgou quantos usuários brasileiros optaram por não compartilhar dados em 2016.
Os ganhos do Facebook com as novas regras
O Facebook anunciou em outubro que lançará um serviço pago para empresas gerenciarem conversas com clientes pelo WhatsApp. Embora as mensagens transmitidas em contas comerciais sejam criptografadas, o WhatsApp reconhece que não existe criptografia “de ponta a ponta” nesses casos, pois as empresas podem disponibilizar o conteúdo para terceiros, incluindo o próprio Facebook.
A nova política permite que empresas utilizem serviços de hospedagem do Facebook para gerenciar conversas, responder perguntas e enviar informações como recibos de compra. O conteúdo dessas conversas pode ser visualizado pela empresa e algumas informações podem ser usadas para fins de marketing, inclusive para publicidade no Facebook e Instagram. O WhatsApp informará claramente na conversa se uma empresa optou pelos serviços de hospedagem do Facebook.
A funcionalidade “Loja” também será expandida, permitindo que empresas exibam produtos diretamente no WhatsApp. Se o usuário escolher usar as Lojas, suas atividades de compra poderão personalizar sua experiência e os anúncios vistos no Facebook e Instagram. Outra possibilidade é “descobrir empresas” através de anúncios no Facebook com botão para enviar mensagens diretas via WhatsApp, permitindo ao Facebook usar dados de interação para personalizar anúncios futuros.
Migração para Signal e Telegram cresce exponencialmente
A reação dos usuários foi imediata. De acordo com dados da empresa de análise Sensor Tower, o Signal foi baixado 246 mil vezes na semana anterior ao anúncio da mudança, em 4 de janeiro, e 8,8 milhões de vezes na semana seguinte. O Telegram apresentou crescimento ainda maior, passando de 6,5 milhões de downloads para 11 milhões entre as semanas de 28 de dezembro e a seguinte.
Para Marcos Simplicio, professor de Engenharia de Computação na USP, a escolha entre aplicativos depende dos interesses do usuário. Quem já compartilha sua vida pessoal no Facebook provavelmente não verá diferença significativa. Porém, usuários preocupados com privacidade encontram em Signal a opção mais recomendada pelos especialistas. O aplicativo, criado pelo grupo independente Open Whisper Systems e fundado pelo hacker Moxie Marlinspike, é sustentado por doações e não coleta dados pessoais como lista de contatos, nome, foto do perfil ou localização.
Comparação entre as alternativas de mensageria
O Signal destaca-se pela transparência e código aberto, permitindo que programadores auditem todos os detalhes do software e verifiquem exatamente o que ele faz. Isso contrasta com o WhatsApp, cujos algoritmos não são acessíveis aos usuários. A grande desvantagem do Signal é seu universo reduzido de usuários, enquanto o WhatsApp possui 2 bilhões de inscritos, dificultando encontrar todos os contatos desejados.
O Telegram oferece alcance intermediário entre Signal e WhatsApp, sem custos para Android e iOS. Segundo sua política de privacidade, não usa dados para gerar anúncios e armazena apenas informações necessárias para operação. Porém, sua criptografia é considerada menos segura porque as mensagens não são protegidas de ponta a ponta por padrão. O Telegram armazena automaticamente backup das mensagens no servidor, permitindo recuperação total em caso de perda, mas possibilitando que o próprio Telegram acesse o conteúdo. Simplicio lembra do caso da Vaza Jato, quando autoridades da Operação Lava Jato tiveram mensagens do Telegram expostas após hackeamento do procurador Deltan Dallagnol.