Internacional

Taxas de natalidade caem no mundo e ameaçam economias com envelhecimento populacional

Mulher grávida, gestação
Mulher grávida, gestação - Olga Yastremska/ Istockphoto.com

As taxas de natalidade vêm caindo em todo o planeta desde o período de maior crescimento após a Segunda Guerra Mundial. Hoje, esses índices estão abaixo do patamar necessário para a reposição populacional na maior parte dos países, inclusive na Austrália. Em termos simples, as populações não estão se renovando em média.

Desde figuras como Elon Musk até a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o Papa, diferentes vozes se manifestam sobre a redução nas taxas de fertilidade, ou seja, o número médio de filhos por mulher.

Temores de superpopulação e problemas de despovoamento

No livro de 1968 intitulado “A Bomba Populacional”, Paul Ehrlich previu que os anos 1970 trariam uma avalanche de pessoas e um “câncer” de superpopulação, com fome e conflitos generalizados. A extinção da humanidade parecia iminente, segundo os alertas da época.

Essa previsão de extinção ligada à superpopulação não se realizou.

A taxa global de fertilidade total caiu para menos da metade desde 1950. Nos países da OCDE, a média atual fica em 1,46 nascimento por mulher, bem abaixo dos 2,1 necessários para manter a população estável de uma geração para outra.

Projeções indicam um declínio da população mundial a partir de meados da década de 2080. A China vive o quarto ano consecutivo de redução populacional. A Coreia do Sul registra queda desde 2019, com índices de natalidade entre os mais baixos do globo.

Na Alemanha, o número de óbitos supera o de nascimentos desde 1972. Japão, Grécia, Itália, Cuba e Tailândia também enfrentam processos de despovoamento.

Sem a contribuição da imigração, o Reino Unido veria sua população encolher, com mais mortes que nascimentos. A Austrália está a cerca de uma geração de viver situação semelhante. Restrições migratórias já provocaram despovoamento no Canadá.

Taxas de natalidade: uma solução para o “problema” do envelhecimento?

Os grandes progressos nas áreas de saúde e tecnologia médica desde os anos 1950, em especial vacinas e tratamentos avançados, permitiram que as pessoas vivessem mais. Ao mesmo tempo, a redução no número de filhos resultou em uma população mais velha.

O envelhecimento populacional representa um êxito da capacidade humana, mas os modelos econômicos costumam tratar sociedades envelhecidas como um desafio.

Trabalhadores em idade ativa são fundamentais para sustentar uma economia equilibrada. Na Austrália, os contribuintes individuais de imposto de renda formam a base principal da arrecadação federal. Com menos gente em idade produtiva para substituir os aposentados, o bem-estar econômico pode sofrer, obrigando governos a entregar mais serviços com recursos menores.

A taxa de natalidade abaixo do nível de reposição e os reflexos nas contas públicas levaram políticos australianos a incentivar o aumento de filhos. “Tenham um pela mãe, um pelo pai e um pelo país”, declarou o então ministro da Fazenda Peter Costello em uma frase marcante de 2004.

Em 2020, o ex-primeiro-ministro Tony Abbott sugeriu que o perfil errado de mulher estava tendo filhos e defendeu que as da “classe média” tivessem mais. Ao discutir o orçamento de 2024, o tesoureiro Jim Chalmers afirmou que seria “melhor se as taxas de natalidade fossem mais altas”.

Catástrofe humana das baixas taxas de natalidade

Cresce o número de pessoas que atribuem a decisão de ter menos filhos a fatores externos. Em pesquisa global das Nações Unidas, cerca de uma em cada cinco entrevistadas disse que o medo do futuro a levou, ou levaria, a reduzir o número de filhos desejados.

Dificuldades de acesso à moradia, instabilidade econômica, desigualdade de gênero e mudanças climáticas atuam como obstáculos difíceis de superar para quem sonha em formar uma família.

A ausência de condições para ter filhos em regiões com fertilidade abaixo da reposição representa, na visão de muitos, uma catástrofe humana. Como a sociedade se tornou tão adversa que filhos viraram algo impensável para tantos que os querem?

O pacto entre gerações foi seriamente comprometido.

Surge a questão de quem cuidará das pessoas mais velhas agora que há menos crianças.

Será possível evitar uma catástrofe humana?

O peso de constituir família recai principalmente sobre a população em idade ativa, em especial as mulheres.

Um bônus por bebê ou pagamento único dificilmente altera a visão das pessoas e eleva a taxa de fertilidade total; essas medidas apenas adiam o nascimento. Para aumentar de fato a fertilidade, é preciso um pacote amplo de ações políticas.

Medidas que atinjam os quatro grandes eixos — moradia, economia, gênero e clima — incluem pontos como moradia segura e acessível, estabilidade no emprego e renda, creches baratas, igualdade de gênero no trabalho e na sociedade, e iniciativas contra as mudanças climáticas.

As pessoas em idade fértil não tomam decisões de forma hedonista. Elas consideram o mundo futuro e avaliam como ele será para os filhos que virão.

A perda de esperança entre quem está em idade reprodutiva, inclusive o receio de ficar para trás, alimenta inquietações maiores sobre um amanhã incerto.

A catástrofe humana das baixas taxas de natalidade não só espelha preocupações amplas como a insegurança, mas também pode enfraquecer a coesão social.

Em vez de uma bomba-relógio de superpopulação, o mundo encara uma implosão econômica e social pela falta de apoio concreto necessário para criar as crianças que muitos desejam.

Já é mais do que hora de perguntar às pessoas o que elas realmente precisam — e fornecer isso.

To Top