Esta história começou há muitos anos, lá pelos idos de 1500, quando nossos “colonizadores” aportaram por aqui. Não que tenham sido os “descobridores” desta terra de natureza ímpar, até porque já estavam aqui há muitos anos seus legítimos e primeiros moradores.
De lá pra cá, “muita água já rolou debaixo desta ponte”! O caminho percorrido não é pequeno, mas, apesar do longo percurso, as aprendizagens foram mal sucedidas… Talvez porque os ensinamentos tenham sido encaminhados de modo equivocado. O fato é que, depois de mais de 500 anos, continuamos manifestando comportamentos importados daqueles que nos deixaram exemplares lições de “como levar vantagem sobre o outro”.
Nosso primeiro “ensinante” nesta seara foi Pero Vaz de Caminha, que em sua carta ao Rei de Portugal já encaixa um “pedidinho” de emprego para um parente próximo… E, daí em diante, muitos e muitos, eu diria milhares de exemplos de oportunismos poderiam ser elencados.
O historiador Leandro Karnal nos lembra que Ruy Barbosa, numa das suas tentativas de ser presidente, dizia que nossa República tinha virado uma (Re)privada e, ainda, que Elis Regina, durante a ditadura, começava uma música maravilhosa dizendo “caía a tarde feito um viaduto…”, fazendo referência a um viaduto envolvido em desvios de verba e problemas de materiais de segunda linha.
Enfim, comecei contando estas histórias para pensarmos um pouco mais sobre um desvio ético que tem sido manchete em toda mídia impressa, falada e televisiva nos últimos meses: a corrupção. Segundo Karnal, a corrupção é histórica, estrutural e não é apenas do governo. Ele afirma que ela pertence a uma interpretação ética bastante difundida na sociedade e que envolve desde andar no acostamento até milionários desvios de verbas públicas. O historiador afirma que nós temos uma diluição da ética que é bastante grave no Brasil e, ainda, que, neste cenário, a corrupção é, como diria o Barão de Itararé, a negociata, o bom negócio para o qual não me convidaram, ou seja, eu sou absolutamente ético e probo quando se trata de atacar o negócio que não me favorece e quando me favorece é um jeito, é uma maneira, é o meu jeitinho clássico… não é corrupção!
E como inverter esta ordem? Como institucionalizar a ética num contraponto a institucionalização da corrupção que nos parece ser hoje uma realidade nacional?
Um dos caminhos mais certeiros seguramente é a educação. As mudanças devem acontecer nas famílias, superando-se o comportamento de pais que admitem que seus filhos “copiem e colem” um trabalho da internet ou desenvolvam comportamentos similares; e, na escola, com a não conivência com a fraude escolar, manifestada, por exemplo, quando se barganha comportamentos com os alunos, ou seja, quando se seduz a criança com elementos de corrupção – “se você fizer isso eu te dou aquilo…”
Precisamos ter claro que a corrupção, com a qual todos nos incomodamos, é um processo estrutural, orgânico e que se corrige ou, pelo menos, se minimiza por meio da educação.
Tomemos como exemplo a Suécia, um dos países menos corrupto do mundo. Para Gunnar Stetler, que chefia o trabalho de promotores especializados em investigar os principais casos de suspeita de corrupção no país, são três os fatores que mantêm a Suécia à margem das listas de países gravemente corruptos: a transparência dos atos do poder, o alto grau de instrução (educação) dos suecos e a igualdade social.
E como estes fatores foram traduzidos em ações concretas? Uma das ações foi a edição da lei de acesso público aos documentos oficiais que evita os abusos do poder. Se os cidadãos ou a mídia quiserem, podem verificar o salário, os gastos e as despesas de viagens a trabalho dos agentes públicos. Os arquivos são abertos ao público. Ao colocar os documentos e registros oficiais das autoridades ao alcance do público, evita-se que os indivíduos que exercem posições de poder pratiquem atos impróprios. Esta é a razão principal. Outra ação muito importante foram os investimentos em educação. Se uma pessoa não tem acesso à educação, ela não tem condições nem de compreender e muito menos de fiscalizar o sistema. Portanto, é preciso oferecer uma boa educação a todas as camadas da sociedade.
Enfim, fica evidente que, embora o caminho seja longo, podemos minimizar este desvio ético que assola nosso país, tendo como fundamento, especialmente, uma política pública educacional que assegure educação de qualidade para todos!

