Bolsa tem forte queda com mercado temendo intervenção em estatais

Mix Vale

SÃO PAULO, SP (UOL – FOLHAPRESS) – Temores de que o governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fará mais intervenções na economia do que as esperadas pelo mercado provocaram nesta segunda-feira (12) uma forte baixa na Bolsa, além de impulsionarem altas do dólar e dos juros.

Notícias de que o governo discute modificar a Lei das Estatais para permitir nomeações políticas estão no centro dessas preocupações. As supostas alterações poderiam facilitar a condução do ex-ministro petista Aloizio Mercadante ao comando do BNDES e o senador Jean Paul Prates (PT) para a Petrobras.

A lei das estatais diz que “é vedada a indicação, para o Conselho de Administração e para a diretoria, da pessoa que atuou, nos últimos 36 meses, como participante de estrutura decisória de partido político ou em trabalho vinculado a organização, estruturação e realização de campanha eleitoral”.

O Ibovespa caiu 2,02%, aos 105.343 pontos. Mais cedo, a Bolsa chegou a tombar mais de 3%, atingindo a pontuação mínima do dia de 103.876.

No mercado de juros futuros, a taxa DI (Depósitos Interbancários) para 2024, que serve de referência para o setor de crédito de curtíssimo prazo, passava de 13,80% para 13,91% ao ano, o que representava a maior elevação desse indicador em uma semana.

No mercado de câmbio, o dólar comercial à vista fechou em alta de 1,27%, cotado a R$ 5,3120 na venda.

As ações preferenciais da estatal petrolífera despencavam 3,08%. O Banco do Brasil, outra empresa com peso na Bolsa e que é controlada pelo governo, tombava 3,20%.

Analistas citaram o descontentamento de investidores com a escolha de nomes de políticos petistas para áreas estratégicas da economia, avaliados pelo mercado como mais favoráveis à expansão dos gastos públicos. Além disso, também mencionaram que os sinais mais recentes do governo levam a crer que Lula quer mais interferências do governo no mercado.

Na sexta-feira (9), Lula já havia confirmado Fernando Haddad como ministro da Fazenda.

“Não é especificamente a escolha do Mercadante que preocupa, mas a maneira como isso é feito”, disse Nicolas Borsoi, economista da Nova Futura.

Mercadante coordenou o programa de governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e hoje comanda os grupos técnicos da equipe de transição.

“O Mercadante é mais voltado à ampliação da participação do governo nas estatais e, sobretudo na Petrobras, não é isso o que o mercado quer”, disse Gabriel Meira, especialista e sócio da Valor Investimentos.

“No caso do BNDES, há a preocupação da retomada de uma prática como era a do governo de Dilma Rousseff, que buscava construir campeões nacionais, ou seja, financiava grandes empresas que não precisariam desse suporte porque têm acesso ao mercado de capitais”, completou Meira.

Durante a campanha, Lula já defendeu um papel mais ativo para o BNDES durante seu novo mandato. Na semana passada, o próprio Mercadante defendeu que o banco precisa voltar a atuar fortemente no processo de reindustrialização.

Mercadante disse nesta segunda que desconhece “qualquer iniciativa” por parte do governo eleito de alteração na Lei das Estatais. Ele também se recusou a responder se será indicado para comandar algum ministério ou estatal no próximo governo, reportou a agência Reuters.

A tramitação da PEC (proposta de emenda à Constituição) da Transição na Câmara e a diplomação do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), nesta segunda-feira, também estão no foco dos investidores.

O mercado busca pistas sobre a definição da equipe do próximo governo e qual será a política fiscal a ser adotada. A expansão dos gastos públicos é um dos pontos mais sensíveis neste momento.

A semana também tende a ser de cautela global antes da reunião de política monetária nos Estados Unidos, quando o Fed (Federal Reserve) irá divulgar a sua última decisão do ano sobre a taxa de juros do país, na quarta-feira (14).

O cenário externo também foi desfavorável aos papéis de empresas brasileiras que exportam matérias-primas para a China, onde o crescimento dos casos de Covid coloca em dúvida a sustentação do afrouxamento das restrições a circulação de pessoas e atividades econômicas.

A Vale, que tem no mercado chinês o principal destino para as suas exportações, tombava 3,01% e exercia a maior influência negativa sobre os Ibovespa.

“Não é só o Mercadante [que está derrubando a Bolsa], mas um conjunto de coisas. A própria incerteza quanto ao presidente da Petrobras e também o exterior negativo”, comentou Rodrigo Marcatti, economista e presidente da Veedha Investimentos.

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