O mercado financeiro mantém sua visão negativa em relação ao terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atingindo novamente a marca de 90% de desaprovação, segundo dados da pesquisa Genial/Quaest divulgados no início de dezembro de 2024. A pesquisa ouviu economistas de 105 fundos de investimento em São Paulo e no Rio de Janeiro entre os dias 29 de novembro e 3 de dezembro. Apenas 3% dos entrevistados avaliam positivamente o governo, enquanto 7% o consideram regular, evidenciando a profunda desconfiança em relação às recentes políticas econômicas.
A percepção do mercado piorou consideravelmente ao longo do ano, especialmente após o anúncio de um pacote fiscal que, apesar de prometer economias de R$ 71,9 bilhões entre 2025 e 2026, foi amplamente criticado como insuficiente para reverter a deterioração das contas públicas. Além disso, a decisão de isentar do Imposto de Renda os contribuintes que recebem até R$ 5 mil gerou dúvidas sobre o compromisso do governo com o equilíbrio fiscal.
Contexto das medidas econômicas e reação do mercado
Desde o início do mandato, o governo Lula enfrenta dificuldades para conquistar a confiança do mercado financeiro. O melhor momento da gestão foi registrado em julho de 2023, quando medidas como o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária estavam em andamento no Congresso Nacional. Esses projetos eram vistos como fundamentais para simplificar o sistema tributário e promover o crescimento econômico. No entanto, a percepção positiva foi efêmera, rapidamente sendo substituída pela crescente preocupação com o aumento dos gastos públicos.
O pacote fiscal anunciado no final de novembro buscava conter despesas e gerar economias significativas para os próximos anos. Apesar disso, a complexidade das propostas, aliada à inclusão de medidas de desoneração fiscal, foi criticada por especialistas, que apontaram inconsistências e dificuldades na implementação. Essa percepção negativa também impactou indicadores econômicos importantes, como o Ibovespa, que caiu 2,4% no final de novembro, atingindo o menor nível desde junho.
Desempenho do ministro da Fazenda, Fernando Haddad
Apesar das críticas generalizadas ao governo, o trabalho do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é avaliado de forma mais positiva. De acordo com a pesquisa, 41% dos agentes econômicos aprovam sua atuação, enquanto 24% têm uma visão negativa. Haddad tem buscado dialogar com o mercado e sinalizar ajustes nas medidas fiscais, destacando que eventuais revisões podem ocorrer nos próximos meses, caso necessário. Essa abordagem tem sido vista como um esforço para minimizar os danos à credibilidade econômica do país.
Principais pontos do pacote fiscal
O pacote fiscal apresentado pelo governo inclui uma série de medidas destinadas a equilibrar as contas públicas:
- Revisão de subsídios fiscais: redução gradual de incentivos a setores específicos.
- Corte de gastos discricionários: diminuição de despesas não obrigatórias em ministérios e órgãos públicos.
- Limitação de reajustes salariais no funcionalismo: congelamento de aumentos em 2025.
- Alterações na tributação de dividendos: revisão do regime tributário para aumentar a arrecadação.
- Isenção do Imposto de Renda para até R$ 5 mil de renda mensal: medida que gerou dúvidas sobre o impacto fiscal.
Embora o pacote preveja economias substanciais, analistas destacam que os esforços são insuficientes para reduzir de forma significativa a relação dívida/PIB, que continua em trajetória ascendente.
Impacto nos indicadores econômicos
A reação negativa do mercado às medidas fiscais ficou evidente nos principais indicadores econômicos. O Ibovespa, referência para a bolsa de valores brasileira, caiu acentuadamente após o anúncio do pacote, refletindo a insatisfação dos investidores. O dólar também ultrapassou a marca de R$ 6, pressionado por fatores internos e externos. A instabilidade fiscal é vista como um dos principais elementos por trás da desvalorização do real, junto com incertezas no cenário global.
Outro aspecto relevante é a manutenção de taxas de juros elevadas, especialmente as de longo prazo. Segundo o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, essas taxas refletem a falta de confiança do mercado no cumprimento das metas fiscais estabelecidas pelo governo. Ele afirmou que as expectativas inflacionárias permanecem altas devido à percepção de fragilidade nas contas públicas.
Como a percepção do mercado evoluiu ao longo do ano
A avaliação do mercado financeiro em relação ao governo Lula experimentou altos e baixos desde o início de 2024. Em março, a desaprovação já era alta, atingindo os mesmos 90% registrados atualmente. Contudo, entre junho e julho, com os avanços no Congresso das reformas fiscais e tributárias, houve um período de maior otimismo, que se traduziu em melhores índices econômicos. No entanto, a falta de continuidade nas medidas de austeridade e o aumento de despesas públicas minaram a confiança adquirida nesse período.
Comparações com gestões anteriores
A situação atual contrasta com o início dos mandatos anteriores de Lula, que foram marcados por crescimento econômico e aumento da confiança do mercado. Na época, a combinação de políticas fiscais responsáveis e o boom das commodities contribuiu para uma percepção positiva da gestão. Em 2024, porém, o cenário é diferente, com um contexto global mais desafiador e menor margem para políticas expansivas.
Possíveis ajustes nas políticas fiscais
Diante da reação negativa do mercado, o governo sinalizou a possibilidade de revisar as medidas anunciadas. Em declarações recentes, Fernando Haddad ressaltou que o pacote fiscal está aberto a ajustes e que o diálogo com os agentes econômicos será intensificado nos próximos meses. O objetivo é mitigar os impactos das críticas e recuperar parte da confiança perdida.
Fatores externos que agravam o cenário
Além das questões internas, fatores externos têm contribuído para a deterioração do ambiente econômico. A ameaça de novas tarifas sobre produtos brasileiros por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, adicionou uma camada de incerteza ao cenário. Essa combinação de desafios internos e externos tem pressionado ainda mais o governo a encontrar soluções eficazes para equilibrar as contas públicas.
Percepção de especialistas sobre o futuro
Economistas alertam que a recuperação da confiança do mercado dependerá de ações mais contundentes por parte do governo. Entre as medidas sugeridas estão a aceleração de reformas estruturais, maior transparência na gestão fiscal e redução de gastos obrigatórios. O comprometimento com metas claras e alcançáveis também é apontado como fundamental para reverter a atual percepção negativa.
Impacto na população e nas empresas
A instabilidade econômica afeta diretamente a população e o setor privado. A desvalorização do real encarece os produtos importados, enquanto as altas taxas de juros dificultam o acesso ao crédito. Empresas enfrentam um ambiente mais desafiador para investimentos, agravando o cenário de baixo crescimento econômico.
Resumo dos principais desafios enfrentados pelo governo
- Déficit fiscal: dificuldade em equilibrar receitas e despesas públicas.
- Desconfiança do mercado: alto índice de desaprovação entre investidores.
- Impactos nos indicadores econômicos: queda do Ibovespa e alta do dólar.
- Pressão externa: incertezas relacionadas a tarifas e comércio internacional.
Caminhos possíveis para recuperação
Especialistas destacam que a reconstrução da confiança exigirá um esforço coordenado entre Executivo, Legislativo e Banco Central. Medidas como a revisão de subsídios, ajustes em programas sociais e maior controle sobre despesas obrigatórias podem ajudar a melhorar a percepção do mercado.

