Celso Freitas deixa Record após 21 anos e reacende debate sobre idade

Celso Freitas

Celso Freitas - Foto: Instagram

O telejornalismo brasileiro perdeu um de seus nomes mais emblemáticos em março de 2025, quando Celso Freitas, aos 71 anos, encerrou sua trajetória de 21 anos na Record. A saída do veterano, que comandava o “Jornal da Record” desde 2006, foi anunciada pela emissora em um comunicado oficial no dia 11, destacando sua dedicação e excelência. Substituído por Sergio Aguiar, 16 anos mais jovem, o caso reacende discussões sobre o etarismo no mercado audiovisual, onde profissionais acima dos 60 anos têm enfrentado demissões frequentes. Freitas, que passou 32 anos na Globo antes de migrar para a Record em 2004, trouxe credibilidade e status ao canal de Edir Macedo, mas agora segue para “novos desafios”, como ele mesmo declarou em um vídeo de despedida. Enquanto isso, a pressão por uma imagem jovial continua moldando o destino de jornalistas experientes no Brasil.

Sergio Aguiar, ex-apresentador do “Domingo Espetacular”, assume a bancada ao lado de Christina Lemos, consolidando uma transição que já vinha se desenhando nos últimos meses. A Record, que agradeceu Freitas por sua ética jornalística e contribuição histórica, não detalhou os motivos da saída, mas o contexto sugere um padrão: nomes como Adriana Araújo, demitida em 2020 aos 48 anos, e outros veteranos da Globo, como Chico Pinheiro, dispensado aos 69 anos em 2022, indicam que a idade pesa nas decisões corporativas. O fenômeno não é exclusividade brasileira, mas reflete uma realidade local agravada pela busca por audiência e renovação estética.

A história de Celso Freitas na TV é marcada por coberturas históricas e uma voz inconfundível, desde os tempos de “Jornal Nacional” até os debates eleitorais na Record. Sua saída, no entanto, levanta questões sobre o espaço para profissionais seniores em um setor que valoriza juventude e dinamismo. Enquanto Freitas promete continuar ativo, o caso expõe um paradoxo: o discurso contra o etarismo ganha força, mas a prática nas emissoras segue descartando talentos experientes.

Trajetória de um ícone: de Criciúma ao topo do jornalismo

Celso Freitas começou sua carreira aos 16 anos, na rádio Eldorado de Criciúma, Santa Catarina, interpretando comerciais. Sua voz grave chamou atenção na década de 1970, levando-o à Globo Brasília, onde apresentou blocos locais do “Jornal Nacional”. Em 1983, assumiu a bancada nacional ao lado de Cid Moreira, noticiando eventos como as Diretas Já e o fim da ditadura militar. Após 32 anos na emissora, migrou para a Record em 2004, estreando no “Domingo Espetacular” e, dois anos depois, fixando-se no “Jornal da Record”. Foram 53 anos de carreira, somando passagens por programas como “Fantástico”, “Globo Repórter” e “Repórter Record”.

Durante sua passagem pela Record, Freitas ancorou coberturas marcantes, como a eleição de Barack Obama em 2008, e consolidou o “Jornal da Record” como o segundo telejornal mais visto do país. Formou parcerias memoráveis com Adriana Araújo, Ana Paula Padrão e Christina Lemos, além de apresentar podcasts como o “JR 15 Minutos”. Sua saída, aos 71 anos, encerra um ciclo que muitos associam à solidez do jornalismo tradicional.

A substituição por Sergio Aguiar, de 55 anos, foi oficializada no mesmo dia do anúncio. Aguiar, que passou pela TV Manchete e GloboNews antes de chegar à Record em 2019, já vinha cobrindo férias de Freitas e agora assume o posto de forma definitiva. O movimento reflete uma tendência de renovação que, embora prática comum, reacende o debate sobre o valor da experiência versus a estética jovem na TV.

Etarismo em foco: um padrão nas emissoras brasileiras

O caso de Celso Freitas não é isolado. Nos últimos anos, o telejornalismo brasileiro viu uma onda de demissões de profissionais acima dos 60 anos, evidenciando o etarismo como um fator recorrente. Na Globo, nomes como Chico Pinheiro, demitido aos 69 anos em 2022 após 33 anos de casa, e Glória Maria, que faleceu aos 73 em 2023 após redução de projetos, exemplificam essa tendência. Na Record, Adriana Araújo saiu aos 48 anos em 2020, após 14 anos na bancada do “Jornal da Record”, em um episódio que muitos associaram a pressões editoriais e renovação de elenco. Até William Bonner, aos 61 anos, já sinaliza sua saída do “Jornal Nacional”, sugerindo que a idade pode influenciar sua decisão.

Essa prática contrasta com o discurso de valorização da diversidade etária. A pressão por uma aparência jovial afeta homens e mulheres, com muitos recorrendo a procedimentos estéticos para amenizar os sinais do tempo. Freitas, por exemplo, passou por intervenções faciais, assim como Bonner e outros colegas, em uma tentativa de se adequar às expectativas do mercado. Apesar disso, a substituição por profissionais mais jovens, como Sergio Aguiar, de 55 anos, ou Ana Paula Couto, que assumiu o “Bom Dia SP” aos 43 anos após a saída de Rodrigo Bocardi em 2024, mostra que a experiência nem sempre prevalece.

Dados do mercado reforçam o cenário. Em 2023, a Record demitiu pelo menos 10 jornalistas em uma reestruturação motivada por contenção de despesas, com critérios como salários altos e produtividade afetando veteranos. Na Globo, cortes entre 2020 e 2022 atingiram repórteres experientes, reduzindo a presença de profissionais acima dos 60 anos nas redações. Enquanto isso, o público envelhece: a faixa etária acima de 50 anos representa 34% da audiência da TV aberta, segundo o IBGE, mas as emissoras seguem priorizando rostos mais jovens.

Impacto na credibilidade: o valor dos veteranos

A saída de Celso Freitas da Record levanta questões sobre o impacto na credibilidade dos telejornais. Durante seus 21 anos na emissora, ele trouxe um peso conquistado em décadas na Globo, ajudando a Record a competir com a líder de audiência. Sua postura discreta e ética consolidou o “Jornal da Record” como um produto respeitado, frequentemente entre os mais vistos da TV aberta. Em 2004, quando chegou ao canal, a Record buscava se espelhar na Globo, e Freitas foi peça-chave nessa estratégia, especialmente na estreia do “Domingo Espetacular”, que ganhou o Prêmio Esso em 2005.

A substituição por Sergio Aguiar, embora bem-recebida por sua experiência, não carrega o mesmo simbolismo. Aguiar, que passou por “Fala Brasil” e “Domingo Espetacular”, tem um perfil sólido, mas carece do histórico de coberturas históricas que Freitas acumulou. Na Globo, a saída de veteranos como Pinheiro e a redução de espaço para Bonner também geraram debates sobre a perda de identidade nos telejornais, com novos apresentadores ainda em busca de consolidar sua marca junto ao público.

O etarismo, nesse contexto, pode custar caro às emissoras. Profissionais seniores trazem bagagem e confiança, elementos difíceis de replicar em curto prazo. A Record reconheceu isso ao destacar a “contribuição inabalável” de Freitas, mas a decisão de substituí-lo sugere que fatores como imagem e custos pesaram mais que o legado.

Números e casos: o retrato do etarismo na TV

Os números revelam a extensão do problema. Entre 2020 e 2023, a Globo dispensou cerca de 20 jornalistas veteranos, incluindo nomes como Alberto Gaspar, demitido aos 65 anos, e Francisco José, aos 77 anos. Na Record, além de Freitas, a reestruturação de 2023 atingiu repórteres como Adriana Reid, com 20 anos de casa, e Thalita Oliveira, ex-“Domingo Espetacular”. Na Band, José Paulo de Andrade faleceu aos 78 anos em 2020, mas já havia sido afastado de parte de suas funções antes disso. Esses casos mostram um padrão de redução de espaço para quem ultrapassa os 60 anos.

Casos específicos ilustram o impacto humano. Chico Pinheiro, após deixar a Globo, passou a atuar em projetos independentes, enquanto Adriana Araújo, hoje na Band, revelou em entrevistas a dificuldade de se reinventar após a saída da Record. Celso Freitas, em seu vídeo de despedida, prometeu novos projetos, mas não detalhou planos, deixando aberta a possibilidade de migrar para plataformas digitais, como fez Bonner com podcasts após sinalizar sua saída do “JN”.

A percepção pública também reflete o problema. Postagens em redes sociais lamentaram a saída de Freitas, com muitos apontando o etarismo como motivo. “Um ícone como ele não merece isso”, escreveu um usuário, enquanto outro questionou: “Por que a TV insiste em descartar quem tem experiência?”. A discussão ganhou eco entre profissionais, com figuras como Claudia Ohana, aos 62 anos, protestando contra o etarismo em eventos recentes.

Caminhos após a TV: o que espera os veteranos

Para jornalistas como Celso Freitas, a saída da TV tradicional não significa o fim da carreira. Aos 71 anos, ele destacou estar “ligado em tecnologia” e aberto a aprender, sugerindo interesse em plataformas digitais. Nos últimos anos, veteranos têm encontrado refúgio em podcasts, YouTube e redes sociais. Chico Pinheiro, por exemplo, lançou um canal no YouTube em 2023, enquanto Glória Maria manteve forte presença online antes de seu falecimento. Na Record, Freitas já apresentava o podcast “JR 15 Minutos”, que pode ser um indicativo de seu próximo passo.

Outros exemplos incluem Boris Casoy, que aos 83 anos segue ativo no YouTube após deixar a RedeTV!, e Cid Moreira, que aos 97 anos grava narrações para redes sociais. A migração para o digital oferece flexibilidade e alcance, mas exige adaptação a um público diferente. Para Freitas, cuja voz é um patrimônio do jornalismo, o áudio pode ser um nicho promissor, como o sucesso de podcasts jornalísticos demonstra.

A transição, porém, não é simples. A perda de visibilidade na TV aberta, que ainda atinge 90% dos lares brasileiros segundo o Kantar Ibope, pode limitar o impacto desses profissionais. Ainda assim, a experiência de Freitas, somada à sua reputação, abre portas para projetos que valorizem sua história sem as amarras estéticas da televisão.

Linha do tempo: marcos do etarismo no telejornalismo

O etarismo na TV brasileira tem uma cronologia clara, refletida em saídas marcantes:

  • 2020: Adriana Araújo deixa a Record aos 48 anos, após 14 anos no “Jornal da Record”.
  • 2022: Chico Pinheiro é demitido da Globo aos 69 anos, encerrando 33 anos de carreira.
  • 2023: Record corta 10 veteranos em reestruturação, incluindo Adriana Reid, com 20 anos de casa.
  • 2025: Celso Freitas sai da Record aos 71 anos, após 21 anos na emissora.

Esses eventos mostram como a idade se tornou um critério implícito nas decisões das emissoras, mesmo com o aumento da expectativa de vida e da demanda por representatividade.

Sinais do tempo: como o mercado vê a idade

A pressão estética no telejornalismo é inegável. Procedimentos como botox e preenchimentos faciais são comuns entre apresentadores, refletindo a busca por uma imagem que desafie o envelhecimento. Celso Freitas, assim como William Bonner e Ana Maria Braga, passou por intervenções visíveis ao longo dos anos, uma resposta às expectativas do público e das emissoras. Na Globo, Bonner, aos 61 anos, já admitiu em entrevistas que o peso da aparência influencia sua permanência no “JN”.

O mercado, porém, parece dividido. Enquanto a audiência acima de 50 anos cresce, representando 34% dos espectadores da TV aberta, as emissoras apostam em rostos mais jovens para atrair anunciantes. Sergio Aguiar, aos 55 anos, encaixa-se nesse meio-termo, com experiência suficiente para manter credibilidade, mas sem os sinais de envelhecimento que desafiam o padrão estético. Na Band, Rachel Sheherazade, aos 51 anos, segue na ativa, mas enfrentou barreiras após deixar o SBT em 2020.

A saída de Freitas reforça esse paradoxo. Sua contribuição para a Record foi monumental, mas o fim de seu contrato sugere que a idade, mais que o talento, ditou o desfecho. O debate sobre etarismo, assim, ganha força, mas as ações concretas das emissoras ainda caminham na direção oposta.

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