Dólar em alta e clima instável disparam preços dos alimentos no Brasil em 2025

Preço dos alimentos, Supermercado

Preço dos alimentos, Supermercado - Foto: ORION PRODUCTION/shutterstock.com

A inflação dos alimentos no Brasil segue pressionando o bolso da população em 2025, com um acumulado de 7% nos últimos 12 meses até fevereiro, conforme dados recentes do IBGE. Itens essenciais como café, ovos e carne bovina registram altas expressivas, enquanto famílias de diferentes classes sociais adaptam seus hábitos para driblar os custos crescentes. Especialistas apontam uma combinação de fatores por trás desse cenário: a valorização do dólar, que atingiu R$ 6,10 no fim do ano passado, e os impactos das mudanças climáticas, agravados pelo El Niño, formam o que alguns chamam de “tempestade perfeita” no mercado alimentício.

Por trás dos números, estão os desafios enfrentados por produtores e consumidores. O café, por exemplo, subiu 66% em um ano, afetado por secas severas em regiões agrícolas. Já os ovos, alternativa à carne para muitos, tiveram alta de 10,5%, enquanto cortes bovinos acumulam 22% de aumento. Esses valores refletem tanto a pressão do câmbio quanto os eventos climáticos extremos que comprometeram safras em 2024. Enquanto isso, o governo aposta em medidas como corte de impostos e na expectativa de uma safra mais robusta para aliviar a situação.

A valorização do dólar no final de 2024, que saltou de R$ 4,91 para R$ 6,10 em poucos meses, é um dos pilares dessa alta. Esse movimento, desencadeado por incertezas fiscais e um ajuste proposto pelo Ministério da Fazenda, elevou os custos de produtos importados e de commodities negociadas no mercado global. Alimentos como óleo de soja, com aumento de 23,3%, e azeite de oliva, com 14%, exemplificam como o câmbio impacta diretamente a mesa brasileira, mesmo em itens parcialmente produzidos localmente.

Dólar – RHJPhtotos/www.shutterstock.com

Impactos do câmbio na economia alimentar

Samuel Pessoa, economista da Julius Baer Family Office, explica que o preço dos alimentos no Brasil está intrinsecamente ligado ao mercado internacional. Com o dólar mais caro, commodities agrícolas, como soja e milho, tornam-se mais atrativas para exportação, reduzindo a oferta interna. Isso pressiona os preços domésticos, especialmente de itens que dependem de insumos importados ou que competem com o mercado externo. Em 2024, a moeda americana alcançou picos históricos desde o Plano Real, reflexo da percepção de instabilidade na gestão da dívida pública, que chegou a 75% do PIB em janeiro.

A escalada cambial começou a ganhar força em novembro do ano passado, após o governo anunciar um pacote fiscal visando economizar R$ 70 bilhões até 2026. A proposta, liderada por Fernando Haddad, foi mal recebida pelo mercado financeiro, que reagiu com vendas em massa de reais. Dias de dezembro registraram taxas de câmbio recordes, afetando diretamente os custos de produção e os preços nas gôndolas. Produtos como açúcar e carnes, que tiveram impostos reduzidos recentemente, ainda sofrem com essa dinâmica.

Outro ponto levantado por Pessoa é a dificuldade do governo em estabilizar as contas públicas. A falta de confiança dos investidores mantém o real desvalorizado, o que amplifica a inflação. Para os brasileiros, isso significa pagar mais por itens básicos, enquanto o poder de compra é corroído. A alta do dólar não apenas encarece importações, mas também incentiva os produtores a priorizarem o mercado externo, desabastecendo o consumo interno.

Efeitos das mudanças climáticas na produção

Além do câmbio, as mudanças climáticas emergem como fator decisivo no encarecimento dos alimentos. O El Niño, fenômeno que aquece as águas do Pacífico, alterou os padrões de chuva no Brasil em 2024, com impactos diretos nas safras. Regiões como o Sul enfrentaram chuvas excessivas, enquanto o Norte e o Nordeste sofreram com estiagens prolongadas. O Rio Grande do Sul, por exemplo, registrou inundações entre abril e maio do ano passado, prejudicando plantações de arroz e frutas.

André Braz, da Fundação Getúlio Vargas, destaca que o clima adverso não é novidade, mas sua frequência aumentou. Antes esporádicos, eventos como El Niño e La Niña agora ocorrem com intervalos menores, potencializados pelo aquecimento global. Em 2024, a consultoria LCA estimou que 2,25 pontos percentuais da inflação alimentar de 8,22% foram diretamente ligados ao El Niño, um salto em relação aos 1,55 pontos de 2023. Frutas como tangerina (59%) e abacate (28,4%) estão entre os itens mais afetados.

A produção de café ilustra bem essa realidade. Denise Bittencourt, bióloga que gerencia um sistema agroflorestal em São Paulo, relata que a seca entre abril e outubro de 2024 reduziu a colheita a apenas 10% do esperado em algumas áreas. A falta de chuvas comprometeu a florada e o desenvolvimento dos grãos, elevando os preços no mercado. Já a tangerina sofre com o oposto: tempest Atualizaçãoades no Sul e Sudeste causam perdas por amadurecimento precoce e queda de frutos.

  • Seca no Pará afetou 55% do território brasileiro em 2024, segundo a Ufal.
  • Chuvas no Rio Grande do Sul entre abril e maio comprometeram safras de arroz.
  • Café teve colheita reduzida em até 90% em algumas regiões de São Paulo.

Cadeia de eventos e “tempestade perfeita”

Braz vai além e lista uma sequência de crises que culminaram no cenário atual. A pandemia de 2020 elevou os custos globais de alimentos, seguida pela crise hídrica de 2021, que encareceu a energia. Em 2022, a guerra na Ucrânia desestabilizou cadeias de suprimento, e, em 2023, o El Niño começou a mostrar força no Brasil. Esses eventos, somados à valorização do dólar e ao aumento da demanda interna em 2024, formaram o que ele chama de “tempestade perfeita”.

A queda do desemprego para 6,2% no fim do ano passado, a menor desde 2012, também entra na equação. Com a renda média subindo 4,3%, para R$ 3,3 mil mensais, o consumo de alimentos cresceu, pressionando ainda mais os preços. Itens como ovos, que subiram 15% em apenas um mês, refletem essa dinâmica de oferta e procura em um mercado já fragilizado por questões externas.

O governo, por sua vez, tenta reagir. Geraldo Alckmin, vice-presidente, aposta em uma safra 10,6% maior em 2025, puxada por soja e arroz, para equilibrar os preços. A redução de impostos sobre milho, açúcar e carnes é outra medida recente, mas os efeitos ainda são incertos diante de um contexto global e climático volátil.

Adaptação das famílias brasileiras

Diante dos preços altos, as estratégias de consumo mudaram. Famílias de baixa renda recorrem a alternativas como carcaças de frango, vendidas a R$ 7 o quilo, ou suã de porco, a R$ 10. Esses cortes, antes menos valorizados, ganharam espaço como fontes acessíveis de proteína. Já nas classes mais altas, a troca de marcas de sucos e iogurtes virou prática comum para evitar gastos excessivos.

O ovo, tradicional substituto da carne, também pesa no orçamento. Com alta de 10,5% em 12 meses e picos de 15% em um único mês, ele deixa de ser uma opção barata. Consumidores relatam dificuldades em manter a dieta básica, enquanto produtores enfrentam custos elevados com ração e energia, impactados tanto pelo dólar quanto pelo clima.

A disparada do café, por sua vez, afeta um hábito cultural brasileiro. Com preços 66% mais altos, muitas famílias reduziram o consumo ou buscaram marcas mais baratas. A combinação de seca e exportações recordes, incentivadas pelo câmbio, limitou a oferta interna, mantendo o produto como um dos vilões da inflação.

Perspectivas para o mercado agrícola

O IBGE prevê um aumento de 10,6% na produção de grãos em 2025, com destaque para soja e arroz. Esse crescimento pode aliviar os preços de alguns itens, mas analistas alertam que o milho, essencial para ração animal, segue como risco inflacionário. Chuvas irregulares e a demanda externa mantêm sua cotação instável, o que pode impactar carnes e ovos nos próximos meses.

Franciele Cardoso, da Unisinos, aponta que a sazonalidade também complica o cenário. Frutas como tangerina, colhidas entre maio e agosto, sofrem com chuvas ou calor excessivo, reduzindo a oferta e elevando os preços fora de época. O desperdício causado por perdas nas lavouras agrava o problema, enquanto a produção tenta se adaptar a um clima cada vez mais imprevisível.

A cronologia dos eventos climáticos oferece um panorama claro:

  • 2020: Pandemia eleva custos globais de alimentos.
  • 2021: Crise hídrica encarece energia e produção.
  • 2022: Guerra na Ucrânia afeta cadeias de suprimento.
  • 2023-2024: El Niño intensifica secas e chuvas no Brasil.
  • Fim de 2024: Dólar sobe e demanda interna cresce.

Desafios estruturais e alimentares

A instabilidade climática não é o único obstáculo. A dependência de insumos importados, como fertilizantes, expõe o Brasil às oscilações do dólar. Em 2024, a guerra na Ucrânia ainda reverberava, encarecendo esses produtos e elevando os custos agrícolas. Produtores de milho e soja, por exemplo, enfrentaram margens menores, repassando parte do aumento ao consumidor.

Enquanto isso, legumes como abobrinha (28,7%) e frutas como limão (25,3%) seguem caros, refletindo os impactos regionais do clima. No Pará, a estiagem afetou bacias hídricas, comprometendo a irrigação. Em São Paulo, a seca reduziu a produtividade de café e citrus, como o abacate, que subiu 28,4% em um ano.

O governo mantém otimismo com a safra de 2025, mas os desafios persistem. A combinação de câmbio elevado, clima adverso e demanda crescente exige medidas além de cortes tributários. Para os brasileiros, o custo da comida segue como um teste diário de adaptação e resistência.

Veja Também