Bastidores da saída: insatisfação com Dorival vem de 2024 e goleada foi estopim

Dorival Junior

Dorival Junior - Foto: Andre_MA/Shutterstock.com

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) oficializou a demissão de Dorival Júnior do comando da seleção brasileira na sexta-feira, 28 de março, encerrando um ciclo de 15 meses marcado por resultados inconsistentes e uma goleada histórica de 4 a 1 para a Argentina. A decisão, anunciada pelo presidente Ednaldo Rodrigues após reunião na sede da entidade, no Rio de Janeiro, reflete uma insatisfação que vinha se acumulando desde 2024. Com a saída do treinador, que acumulou sete vitórias, sete empates e duas derrotas em 16 partidas, a CBF agora concentra esforços na busca por um substituto, com o português Jorge Jesus, atualmente no Al-Hilal, emergindo como favorito para assumir o cargo e guiar o Brasil nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2026.

Dorival assumiu a seleção em janeiro de 2024, sucedendo Fernando Diniz, com a missão de reconstruir uma equipe abalada após a eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022. Inicialmente, o técnico trouxe esperança com vitórias em amistosos contra Inglaterra e Espanha, mas o desempenho nas competições oficiais revelou fragilidades. A campanha na Copa América de 2024 terminou nas quartas de final, com derrota nos pênaltis para o Uruguai após um empate sem gols, mesmo com superioridade numérica em campo por 20 minutos. Nas eliminatórias, o Brasil estacionou na quarta posição, com 21 pontos em 12 rodadas, a 10 pontos da líder Argentina, o que intensificou as críticas ao trabalho do treinador.

O estopim para a demissão veio na terça-feira, 25 de março, no estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires. A seleção brasileira foi dominada taticamente pela Argentina, sofrendo uma derrota por 4 a 1 que expôs falhas defensivas e a falta de um padrão de jogo consistente. Ednaldo Rodrigues, reeleito na véspera do jogo para um mandato até 2030, deixou o local sem falar com a imprensa, mas já sinalizava nos bastidores que o ciclo de Dorival estava perto do fim. A reunião na sexta-feira selou a decisão, encerrando também a passagem de auxiliares como Lucas Silvestre, Pedro Sotero e o preparador físico Celso Rezende.

Pressão crescente desde 2024

A insatisfação com Dorival Júnior não começou com a goleada na Argentina. Desde a Data Fifa de novembro de 2024, a performance da seleção já gerava debates internos na CBF. Naquela ocasião, o Brasil enfrentou dificuldades para superar a Colômbia, vencendo por 2 a 1 em Brasília, mas sem convencer. O jogo foi encarado como um teste para o treinador, e o resultado positivo não dissipou as dúvidas sobre sua capacidade de liderar a equipe em um momento de transição, com jovens jogadores buscando espaço e veteranos como Neymar ausentes por lesão.

O distanciamento de Ednaldo Rodrigues durante essa janela de jogos foi um indicativo claro da falta de respaldo. Enquanto o presidente focava na eleição que garantiria sua permanência no cargo, a comissão técnica lidava com um ambiente de cobrança crescente. A projeção de Dorival e seus auxiliares era conquistar pelo menos quatro pontos nas duas partidas de março – contra Colômbia e Argentina –, mas a derrota acachapante em Buenos Aires transformou o ultimato em ação imediata.

Jorge Jesus na mira da CBF

Com a saída de Dorival confirmada, a CBF já trabalha na escolha do próximo técnico. Jorge Jesus, de 70 anos, surge como o nome mais cotado para assumir o comando da seleção. O português, que deixou uma marca histórica no Flamengo ao conquistar a Libertadores e o Brasileirão em 2019, atualmente dirige o Al-Hilal, da Arábia Saudita, onde acumula títulos como o campeonato nacional e a Supercopa. Sua experiência no futebol brasileiro e o estilo de jogo ofensivo são vistos como trunfos para revitalizar a equipe.

Negociações preliminares com Jesus já foram iniciadas, e o treinador demonstrou interesse em assumir o Brasil, mesmo que isso signifique abrir mão do Mundial de Clubes com o Al-Hilal, previsto para junho e julho. Ele, no entanto, fez um pedido específico: deseja comandar o clube saudita até o fim da Champions League Asiática, que termina em 3 de maio. A CBF enxerga essa condição como viável, já que a próxima Data Fifa está marcada para o início de junho, com jogos contra Equador e Paraguai pelas eliminatórias.

Outros nomes no radar

Embora Jorge Jesus lidere as preferências, outros técnicos estão no radar da CBF. Carlo Ancelotti, do Real Madrid, é o sonho de consumo de Ednaldo Rodrigues desde 2023, quando o italiano foi sondado sem sucesso. Com contrato até 2026, Ancelotti só poderia assumir após o Mundial de Clubes, o que conflita com a urgência da CBF em ter um comandante para os jogos de junho. Apesar disso, o italiano mantém portas abertas para o Brasil, mas sua saída do clube espanhol dependeria de um acordo com o presidente Florentino Pérez.

Filipe Luís, ex-lateral e atual técnico do Flamengo, também aparece como uma opção doméstica. Aos 39 anos, ele conquistou três títulos em cinco meses no comando do rubro-negro – Copa do Brasil, Supercopa e Carioca –, mas sinalizou que não pretende deixar o clube no momento. Abel Ferreira, do Palmeiras, é outro nome especulado, embora seu contrato até o fim de 2025 e o desejo de disputar o Mundial de Clubes dificultem uma negociação imediata.

  • Jorge Jesus: Favorito, com experiência no Brasil e disponibilidade após maio.
  • Carlo Ancelotti: Prioridade de Ednaldo, mas preso ao Real Madrid até julho.
  • Filipe Luís: Jovem promessa, porém focado no Flamengo.
  • Abel Ferreira: Sucesso no Palmeiras, mas com saída improvável agora.

O legado de Dorival na seleção

Dorival Júnior deixa a seleção com um aproveitamento de 58,3%, tendo convocado 58 jogadores e promovido 19 estreias em 15 meses. Apesar dos números razoáveis, a falta de consistência tática e os tropeços em momentos decisivos pesaram contra ele. A eliminação na Copa América, com apenas cinco pontos na fase de grupos, e a irregularidade nas eliminatórias, com 20 gols marcados e 17 sofridos, evidenciaram um trabalho aquém das expectativas para uma seleção pentacampeã mundial.

A passagem do treinador também foi marcada por testes constantes, com mudanças frequentes nas convocações que não resultaram em uma base sólida. A derrota para a Argentina, em especial, destacou a fragilidade do meio-campo e a incapacidade de reagir sob pressão, aspectos que a CBF considerou inadmissíveis para o ciclo rumo à Copa de 2026.

Desafios do novo técnico

Quem assumir a seleção terá pela frente a tarefa de reerguer uma equipe que perdeu protagonismo no cenário sul-americano. A Argentina, atual campeã mundial, abriu uma vantagem de 10 pontos nas eliminatórias, enquanto Colômbia e Uruguai também estão à frente na tabela. Com 12 rodadas restantes, o Brasil precisa de ajustes urgentes para garantir uma das seis vagas diretas ao Mundial nos Estados Unidos, Canadá e México.

Além disso, o novo comandante precisará lidar com a pressão de recuperar a confiança da torcida, abalada por atuações abaixo do esperado. A ausência de Neymar, que deixou o Al-Hilal insatisfeito com Jorge Jesus em janeiro, é outro ponto a ser considerado. O craque manifestou descontentamento com o português após críticas à sua condição física, o que pode exigir esforços diplomáticos caso Jesus seja o escolhido.

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Cronograma dos próximos passos

A CBF trabalha com um calendário apertado para definir o futuro da seleção. Os próximos compromissos oficiais estão marcados para junho, mas o planejamento exige agilidade. Veja as datas-chave:

  • Início de abril: Previsão para o início formal das negociações com Jorge Jesus.
  • 3 de maio: Fim da Champions Asiática, prazo limite de Jesus no Al-Hilal.
  • Junho: Jogos contra Equador (fora) e Paraguai (casa) pelas eliminatórias.
  • Julho: Mundial de Clubes, que pode atrasar a chegada de Ancelotti.
  • 11 de junho a 19 de julho de 2026: Copa do Mundo nos EUA, Canadá e México.

Repercussão imediata da demissão

A saída de Dorival Júnior gerou reações rápidas entre jogadores, dirigentes e torcedores. Após o anúncio, o vestiário da seleção permaneceu em silêncio, com poucos comentários públicos dos atletas. A goleada para a Argentina ainda ecoava, e a decisão da CBF foi vista como uma resposta inevitável ao desempenho em campo. Ednaldo Rodrigues, em pronunciamento breve, agradeceu o trabalho do treinador, mas destacou a necessidade de mudanças para o futuro.

Nas redes sociais, a torcida se dividiu entre alívio e expectativa. Muitos pediram a chegada de Jorge Jesus, lembrando seu sucesso no Flamengo, enquanto outros questionaram a gestão da CBF e a instabilidade no comando técnico – Dorival foi o terceiro treinador desde a saída de Tite, após Ramon Menezes e Fernando Diniz.

A busca por estabilidade

A constante troca de técnicos reflete um momento de incerteza no futebol brasileiro. Desde a Copa de 2022, a seleção passou por quatro comandantes, um cenário raro entre as potências mundiais. A CBF agora aposta em um nome de peso para trazer estabilidade e competitividade, mas o tempo é curto. Com pouco mais de um ano até o Mundial, o próximo treinador terá que implementar mudanças rápidas e eficazes.

A experiência de Jorge Jesus no Brasil, aliada à sua capacidade de montar equipes ofensivas, é vista como um diferencial. No Al-Hilal, ele conquistou o título saudita e a Copa do Rei, além de manter o time na briga pela Champions Asiática. Se confirmado, sua missão será resgatar o futebol vistoso que encantou os torcedores rubro-negros em 2019.

Impacto financeiro da mudança

A demissão de Dorival também terá reflexos nos cofres da CBF. O treinador tinha contrato até a Copa de 2026, com um custo mensal superior a R$ 1 milhão, incluindo salário e direitos de imagem. A rescisão prevê o pagamento integral até o fim do vínculo, além de uma multa, o que pode pressionar o orçamento da entidade em um momento de transição.

Rodrigo Caetano, diretor de seleções, segue no cargo e deve liderar o processo de escolha do novo técnico ao lado de Ednaldo. Sua permanência é vista como um sinal de continuidade administrativa, apesar da turbulência no comando técnico.

Expectativas para junho

Os jogos de junho contra Equador e Paraguai serão o primeiro teste do novo treinador. A CBF planeja evitar a utilização de um interino, o que reforça a pressa em fechar com Jorge Jesus ou outro nome disponível. A torcida, por sua vez, espera ver uma seleção mais competitiva, capaz de enfrentar rivais como a Argentina sem repetir o vexame de Buenos Aires.

A goleada de 4 a 1 ainda está fresca na memória, e o próximo comandante terá que lidar com o peso desse resultado. A CBF aposta que a troca no comando técnico será o ponto de virada para recolocar o Brasil entre os favoritos ao hexa em 2026.

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