Do preconceito à quadra: Tifanny lidera Osasco e transforma o vôlei com inclusão e garra

Tifanny Abreu

Tifanny Abreu - Foto: Instagram

A Superliga Feminina de Vôlei 2024/25 chega à sua fase decisiva com confrontos eletrizantes, e o Osasco Voleibol Clube, pentacampeão da competição, está entre os favoritos ao título. Com um elenco estrelado, que inclui a campeã olímpica Natália Zilio e a oposta Polina Rahimova, o time paulista aposta na experiência e na união para superar os desafios das semifinais. No centro dessa campanha está Tifanny Abreu, a primeira mulher trans a competir profissionalmente no vôlei feminino brasileiro, cuja trajetória combina talento nas quadras com uma luta incansável por inclusão e representatividade. Em entrevista recente, a ponteira destacou a força coletiva da equipe e refletiu sobre o impacto de sua presença no esporte, inspirando novas gerações e promovendo um ambiente mais diverso.

Tifanny, aos 40 anos, é um símbolo de resistência. Sua carreira, marcada por superações, começou em Paraíso do Tocantins, onde enfrentou dificuldades na infância, incluindo momentos de escassez. Anos depois, já na Europa, viveu o processo de transição de gênero, enfrentando preconceitos e desafios emocionais. Ao retornar ao Brasil em 2017, pelo Sesi Vôlei Bauru, tornou-se a primeira atleta trans a disputar a Superliga, enfrentando críticas, mas também conquistando apoio. Hoje, no Osasco, ela vive o auge de sua carreira, sendo uma das principais pontuadoras da equipe e um exemplo de determinação.

O Osasco, terceiro colocado na fase inicial da Superliga 2024/25, enfrenta agora o Minas Tênis Clube nas semifinais, em uma série melhor de três jogos. A competição, que reúne 12 equipes e é disputada em 22 rodadas, exige consistência e preparo físico, especialmente na reta final. Tifanny, com sua experiência internacional e habilidade em ataques decisivos, é peça-chave no esquema tático do técnico Luizomar de Moura. A jogadora enfatiza que a união do grupo é o maior trunfo do time, especialmente em momentos de pressão.

  • Foco na união: Tifanny destacou que o entrosamento das jogadoras é essencial para o sucesso nas semifinais.
  • Experiência em jogo: A presença de atletas como Natália e Fabíola traz equilíbrio ao time em partidas decisivas.
  • Torcida apaixonada: O apoio dos fãs no Ginásio José Liberatti é um diferencial para o Osasco.

Uma jornada de luta e conquistas

Tifanny começou a jogar vôlei ainda na infância, em Tocantins, mas foi na Europa que sua carreira ganhou forma. Antes da transição, ela competiu em ligas masculinas, mas a incompatibilidade com sua identidade de gênero a levou a abandonar temporariamente o esporte. Em 2012, iniciou o processo de transição, enfrentando não apenas barreiras pessoais, mas também profissionais. Na Bélgica e na Itália, ela retomou a carreira no vôlei feminino, adaptando-se às exigências hormonais da Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Sua estreia na Superliga, em 2017, marcou um momento histórico, mas também trouxe debates acalorados sobre a participação de atletas trans no esporte.

No Brasil, Tifanny enfrentou resistência inicial de algumas jogadoras e técnicos, mas sua dedicação e talento conquistaram espaço. Em 2021, ao assinar com o Osasco, ela encontrou um ambiente acolhedor, com apoio da torcida e da comissão técnica. O clube, conhecido por sua tradição e por ser o único campeão mundial brasileiro, ofereceu a Tifanny a oportunidade de brilhar. Na temporada 2021/22, ela foi a maior pontuadora da primeira fase da Superliga, com 225 pontos, consolidando sua importância no time.

O impacto da representatividade

A presença de Tifanny no vôlei vai além das estatísticas. Como a primeira mulher trans a competir na elite do esporte brasileiro, ela abriu portas para discussões sobre inclusão e diversidade. Sua trajetória inspirou outras atletas trans, como Mabelly Gonçalo de Souza, que em 2022 aguardava liberação para estrear na Superliga pelo Curitiba. Tifanny acredita que a visibilidade de atletas trans é essencial para normalizar sua participação e combater preconceitos. Ela destaca que o esporte deve ser um espaço de igualdade, onde o talento e a dedicação prevalecem sobre barreiras sociais.

  • Quebra de barreiras: Tifanny enfrentou preconceito, mas também conquistou apoio de colegas e torcedores.
  • Inspiração para jovens: Sua história motiva novas gerações de atletas trans a perseguirem seus sonhos.
  • Mudança cultural: A visibilidade de Tifanny contribui para um esporte mais inclusivo e diverso.

Osasco na Superliga: uma campanha sólida

A temporada 2024/25 da Superliga Feminina começou em outubro de 2024, com o Osasco estreando com uma vitória convincente contra o Maringá por 3 sets a 0. O time, que conquistou o 18º título paulista antes do início da competição, mostrou força desde o início. Com jogadoras como Camila Brait, líbero e capitã, e Fabíola, levantadora experiente, o Osasco terminou a primeira fase com a terceira colocação, atrás de Praia Clube e Minas. A campanha foi marcada por atuações consistentes, com Tifanny brilhando em jogos equilibrados, como a vitória por 3 a 2 contra o Fluminense, onde marcou 37 pontos.

O confronto contra o Minas, nas semifinais, promete ser um dos mais disputados. O time mineiro, atual campeão, venceu o Osasco no jogo de ida, mas a equipe paulista confia em sua torcida e no entrosamento para reverter o resultado. A série, que começou em 15 de abril de 2025, terá jogos decisivos nos dias 18 e, se necessário, 22 de abril. A final está marcada para 1º de maio, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.

A força do coletivo

A preparação do Osasco para as semifinais envolve não apenas aspectos técnicos, mas também emocionais. Tifanny destaca que o time trabalha a resiliência para lidar com a pressão dos playoffs. O técnico Luizomar de Moura, conhecido por sua habilidade em extrair o melhor de suas jogadoras, aposta em uma estratégia que combina ataques potentes com uma defesa sólida. A experiência de Natália Zilio, que retornou ao clube em 2024, é um diferencial, assim como a liderança de Camila Brait, que comanda a defesa com maestria.

Tifanny, por sua vez, é uma arma ofensiva crucial. Sua capacidade de pontuar em momentos decisivos, aliada à sua versatilidade em quadra, faz dela uma das jogadoras mais temidas da Superliga. Em entrevista, ela afirmou que o time está focado em manter a calma e a concentração, sabendo que cada ponto é crucial. A união do grupo, segundo ela, é o que permite ao Osasco enfrentar adversários tão fortes quanto o Minas.

Desafios superados e lições aprendidas

A carreira de Tifanny é uma história de superação. Antes de chegar ao Osasco, ela enfrentou momentos difíceis, incluindo tentativas de abandonar o vôlei e períodos de instabilidade emocional. Na Europa, enquanto jogava em ligas masculinas, ela sentia que não pertencia àquele ambiente. A transição de gênero, iniciada em 2012, foi um marco, mas também trouxe desafios, como a necessidade de se adaptar a novas regras hormonais e enfrentar preconceitos. No Brasil, sua estreia pelo Sesi Vôlei Bauru, em 2017, foi alvo de polêmicas, com algumas jogadoras questionando sua participação.

Com o tempo, no entanto, Tifanny conquistou respeito. Jogadoras como Tandara, que inicialmente criticaram sua presença, mudaram de opinião e passaram a apoiá-la. Em 2021, Tandara revelou ter influenciado a transferência de Tifanny para o Osasco, a pedido de Luizomar. Hoje, Tifanny é vista não apenas como uma atleta talentosa, mas como uma líder que inspira mudanças no esporte. Sua história mostra que é possível vencer barreiras com trabalho duro e autenticidade.

O papel do Osasco na história do vôlei

Fundado em 1993, o Osasco Voleibol Clube é uma das equipes mais tradicionais do Brasil. Com cinco títulos da Superliga (2002/03, 2003/04, 2004/05, 2009/10 e 2011/12) e um campeonato mundial em 2012, o clube tem uma história de conquistas. Sua torcida, conhecida por lotar o Ginásio José Liberatti, é um dos pilares do sucesso da equipe. Em 2024, o Osasco celebrou 25 anos na elite do vôlei, estreando na Superliga com um uniforme que incluía a bandeira arco-íris, em homenagem à diversidade.

Tifanny, que se juntou ao clube em 2021, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas dessa história. Sua chegada coincidiu com um momento de renovação, com a contratação de jogadoras como Fabíola e Michelle. Desde então, ela tem sido peça fundamental, contribuindo não apenas com pontos, mas também com liderança e carisma. Sua conexão com a torcida é evidente, especialmente quando o público grita seu nome, algo que ela descreve como “um arrepio único”.

Visibilidade e inclusão no esporte

A representatividade de Tifanny tem um impacto profundo no vôlei e no esporte em geral. Ao competir na Superliga, ela desafia estereótipos e mostra que atletas trans podem alcançar a elite. Sua presença estimula debates sobre inclusão, levando federações e clubes a revisarem políticas. Em 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI) atualizou suas regras, exigindo apenas um ano de tratamento hormonal para atletas trans, em vez de cirurgia de redesignação sexual. Essa mudança permitiu que Tifanny e outras jogadoras competissem em igualdade de condições.

No Brasil, a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) segue as diretrizes da FIVB, garantindo que Tifanny possa atuar com base em exames hormonais regulares. Apesar das conquistas, ela ainda enfrenta críticas de grupos que questionam a participação de atletas trans. Tifanny responde com serenidade, afirmando que seu nível de testosterona é compatível com o de mulheres cisgênero, conforme exigido pelas regras. Sua luta, segundo ela, é por um esporte onde todos sejam julgados pelo talento, não pela identidade.

  • Regras claras: A CBV exige que atletas trans mantenham níveis de testosterona abaixo de 5 nmol/litro.
  • Apoio crescente: Jogadoras como Fabiana Claudino, inicialmente contrárias, hoje defendem Tifanny.
  • Mudança gradual: A presença de Tifanny incentiva clubes a adotarem políticas mais inclusivas.

Calendário das semifinais da Superliga

A Superliga Feminina 2024/25 está em sua fase mais emocionante, com as semifinais definindo os finalistas. O Osasco enfrenta o Minas, enquanto Praia Clube e Sesi-Bauru disputam a outra vaga. Abaixo, o cronograma dos jogos decisivos:

  • 15 de abril: Minas x Osasco, em Belo Horizonte, às 21h.
  • 18 de abril: Osasco x Minas, em Osasco, às 18h.
  • 22 de abril (se necessário): Minas x Osasco, em Belo Horizonte, às 21h.
  • 1º de maio: Final, no Ginásio do Ibirapuera, às 15h45.

O legado de Tifanny

A história de Tifanny é um marco para o esporte brasileiro. Sua trajetória, que começou em uma pequena cidade de Tocantins e a levou às maiores quadras do mundo, é um testemunho de coragem e resiliência. Ela não apenas conquistou espaço como atleta, mas também transformou o vôlei ao mostrar que a inclusão é possível. Para Tifanny, o maior impacto de sua carreira é inspirar jovens atletas trans a acreditarem em seus sonhos, independentemente das barreiras que enfrentem.

No Osasco, ela encontrou um lar. O clube, com sua tradição e torcida apaixonada, ofereceu o palco perfeito para que Tifanny brilhasse. Sua conexão com os fãs é visceral, e ela descreve o apoio da torcida como uma força que a impulsiona em cada jogo. Fora das quadras, Tifanny sonha com um futuro tranquilo, ao lado de seu marido, adotando filhos e vivendo em uma chácara. Mas, enquanto estiver em quadra, ela promete continuar lutando, tanto pelo título da Superliga quanto por um esporte mais justo e inclusivo.

A Superliga 2024/25 é mais do que uma competição para Tifanny. É uma oportunidade de provar, mais uma vez, que talento e determinação superam qualquer obstáculo. Enquanto o Osasco se prepara para os desafios das semifinais, Tifanny segue marcando pontos dentro e fora da quadra, deixando um legado que transcende o esporte. Sua história é um convite à reflexão sobre o poder do esporte como ferramenta de transformação social, mostrando que a inclusão não é apenas possível, mas essencial para um futuro mais igualitário.

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