Fraude no INSS: 2,3 milhões de descontos cancelados e devolução começa em maio

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INSS - Foto: Angela_Macario/Shutterstock.com

Aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) receberam uma notícia aguardada: os descontos indevidos de mensalidades associativas, aplicados sem autorização em seus contracheques, serão devolvidos a partir de maio de 2025. A medida, anunciada em 25 de abril, é parte de uma ação conjunta entre o Ministério da Previdência Social, o INSS, a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Polícia Federal, que culminou na suspensão de todos os Acordos de Cooperação Técnica (ACT) com entidades e associações. A decisão responde a um esquema de fraudes que desviou cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários entre 2019 e 2024, afetando milhões de segurados. A devolução dos valores descontados em abril será automática, sem necessidade de solicitação, e os débitos anteriores serão analisados por um grupo especial da Advocacia-Geral da União (AGU).

A operação, batizada de “Sem Desconto”, revelou a gravidade das irregularidades. Deflagrada em 23 de abril de 2025, a ação envolveu 211 mandados de busca e apreensão, seis prisões temporárias e o sequestro de bens avaliados em mais de R$ 1 bilhão, abrangendo 13 estados e o Distrito Federal. As investigações apontaram que associações, como Contag, Sindnapi e Ambec, cobravam mensalidades de até R$ 81,57 sem consentimento dos beneficiários, muitas vezes sem oferecer os serviços prometidos, como assistência jurídica ou descontos em academias. A suspensão dos contratos e a promessa de reembolso marcaram um avanço significativo na proteção dos direitos dos aposentados, mas também expuseram falhas históricas na fiscalização dos acordos firmados pelo INSS.

Desde 2016, os descontos associativos já somavam R$ 413 milhões, mas foi a partir de 2019 que as irregularidades ganharam escala, atingindo R$ 2,8 bilhões em 2024. A atual gestão, iniciada em 2023, implementou medidas para conter as fraudes, resultando no cancelamento de 2.356.170 mensalidades até abril de 2025. Esse número contrasta com os 115.541 cancelamentos de 2022, evidenciando um esforço crescente para sanar o problema. A reformulação de processos, a introdução de biometria e a facilitação do bloqueio de descontos pelo Meu INSS são exemplos de ações que visam proteger os beneficiários e evitar novas cobranças indevidas.

  • Impactos imediatos da suspensão dos acordos:
    • Devolução automática dos descontos de abril na folha de maio.
    • Suspensão de todos os Acordos de Cooperação Técnica com entidades.
    • Bloqueio de novos descontos associativos em benefícios.
    • Criação de grupo da AGU para avaliar ressarcimentos anteriores.

Operação Sem Desconto: Um marco contra fraudes

A Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal e pela CGU, expôs um esquema sofisticado que lesou cerca de 6 milhões de aposentados e pensionistas. As investigações, iniciadas após denúncias de beneficiários, identificaram que muitas associações operavam sem estrutura operacional, funcionando como “entidades de fachada” para arrecadar mensalidades. Algumas, como a AAPEN (antiga ABSP), foram criadas exclusivamente para o esquema, enquanto outras, como a Contag, firmaram acordos com o INSS desde 1994. A operação resultou no afastamento de seis servidores, incluindo o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, que foi demitido por ordem presidencial.

O impacto financeiro das fraudes é expressivo. Entre 2019 e 2024, as entidades investigadas arrecadaram R$ 6,3 bilhões, com picos em 2024, quando os descontos atingiram R$ 2,8 bilhões. A CGU constatou que 97,6% de 1.273 beneficiários consultados não autorizaram os descontos, evidenciando a extensão do problema. Além da devolução dos valores, a operação apreendeu bens como carros de luxo, joias e dinheiro em espécie, que podem ser usados para indenizar os prejudicados. O grupo da AGU, formado por oito advogados, trabalha para mapear os danos e garantir a reparação, mas a complexidade do caso exige análises detalhadas, sem prazo definido para a conclusão.

Medidas preventivas implementadas desde 2023

A atual gestão do INSS adotou uma série de medidas para combater os descontos indevidos, com resultados significativos. Em janeiro de 2024, o instituto intensificou a divulgação de orientações para que beneficiários bloqueassem descontos não autorizados pelo site, aplicativo Meu INSS ou Central 135. Em março do mesmo ano, a Instrução Normativa PRES/INSS nº 162 estabeleceu regras mais rígidas, exigindo biometria facial, assinatura eletrônica avançada e limite de 1% do teto do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) para novos descontos. Essas mudanças visaram aumentar a segurança e reduzir fraudes.

A implementação de biometria, iniciada em abril de 2024 e consolidada em fevereiro de 2025, foi um marco. Desenvolvido pela Dataprev, o sistema exige validação biométrica para autorizar descontos, dificultando a ação de entidades fraudulentas. Além disso, a reformulação da Diretoria de Benefícios em junho de 2024 reestruturou a gestão de acordos e o relacionamento com os cidadãos, enquanto a introdução de comandos por voz no Meu INSS, em abril de 2025, facilitou o acesso de aposentados com dificuldades tecnológicas. Essas ações resultaram no cancelamento de 1.516.500 mensalidades em 2024, sendo 1.453.694 indevidas, e 355.424 em 2025 até 23 de abril.

Como os beneficiários podem se proteger

A suspensão dos descontos associativos trouxe alívio, mas os beneficiários devem permanecer atentos. O INSS orienta que os segurados verifiquem seus contracheques regularmente no Meu INSS, onde é possível consultar o extrato de pagamentos e identificar débitos não autorizados. Desde setembro de 2024, a plataforma permite consultar termos de adesão para descontos realizados após essa data, com opção de bloqueio imediato. A Central 135 também foi reprogramada para facilitar a checagem e o bloqueio de mensalidades, enquanto o comando por voz no Meu INSS ajuda idosos com pouca familiaridade com tecnologia.

Para casos de descontos anteriores a abril de 2025, os beneficiários devem aguardar a análise da AGU, que definirá os procedimentos de ressarcimento. Denúncias podem ser registradas no Portal Consumidor.gov.br ou na Ouvidoria do INSS, por meio da plataforma Fala BR, para agilizar a identificação de irregularidades. A recomendação é evitar contatos diretos com entidades suspeitas e priorizar os canais oficiais do INSS.

  • Passos para verificar e bloquear descontos:
    • Acesse o Meu INSS com login Gov.br e consulte o extrato de pagamento.
    • Use a Central 135 para checar descontos e solicitar bloqueio.
    • Registre denúncias no Portal Consumidor.gov.br ou Fala BR.
    • Evite compartilhar dados pessoais com associações não confiáveis.
    • Acompanhe atualizações oficiais no site do INSS ou redes sociais.

Cronograma das ações do INSS

As medidas contra os descontos indevidos seguem um calendário estruturado, com ações implementadas desde 2023 e resultados concretos em 2025.

  • Janeiro de 2024: Divulgação de orientações para bloqueio de descontos.
  • Março de 2024: Publicação da Instrução Normativa nº 162 e suspensão de novos ACTs.
  • Abril de 2024: Início da implantação de biometria para validação de descontos.
  • Junho de 2024: Reformulação da Diretoria de Benefícios do INSS.
  • Setembro de 2024: Nova funcionalidade no Meu INSS para consulta de adesões.
  • Fevereiro de 2025: Biometria em pleno funcionamento pela Dataprev.
  • Abril de 2025: Suspensão de todos os ACTs e ativação do comando por voz no Meu INSS.
  • Maio de 2025: Devolução dos descontos de abril na folha de pagamento.

Histórico das fraudes e cancelamentos

Os descontos associativos indevidos não são um problema novo, mas ganharam proporções alarmantes nos últimos anos. Em 2016, o volume de descontos era de R$ 413 milhões, mas em 2023, após um aumento de 300% na arrecadação de entidades, o valor chegou a R$ 1,2 bilhão. A ausência de regulamentação eficaz, especialmente após a derrubada de uma medida provisória em 2022, ampliou as vulnerabilidades. Associações como a Ambec, que assinou acordo em 2017, e a AAPB, de 2021, foram responsáveis por milhares de débitos não autorizados.

Os cancelamentos refletem o esforço para reverter o quadro. Em 2020, apenas 18.690 descontos foram excluídos, número que caiu para 16 em 2021. Em 2022, dos 115.541 cancelamentos, 70.738 eram indevidos. A partir de 2023, com a intensificação das auditorias, os números dispararam: 465.061 exclusões, sendo 420.837 indevidas, e 1.516.500 em 2024, com 1.453.694 irregularidades. Até 23 de abril de 2025, 374.609 mensalidades foram canceladas, 355.424 por falta de autorização. Esses dados mostram um avanço, mas também a extensão do problema acumulado ao longo de anos.

Entidades investigadas e suas origens

As 11 entidades investigadas pela CGU têm históricos variados, com acordos firmados entre 1994 e 2023. A Contag, criada em 1994, é a mais antiga, seguida pelo Sindnapi (2014) e Ambec (2017). Outras, como AAPB, AAPPS Universo e Unaspub, surgiram entre 2021 e 2022, período de maior crescimento dos descontos. A AAPEN, única com acordo em 2023, foi alvo de críticas por operar como sucessora da ABSP, também investigada. Muitas dessas entidades prometiam benefícios como planos de saúde e consultoria jurídica, mas não entregavam os serviços, segundo a PF.

A investigação revelou que algumas associações usavam terceiros para captar associados, muitas vezes sem o conhecimento dos beneficiários. O Sindnapi, por exemplo, enfrentou acusações de movimentações suspeitas com a Ambec entre 2020 e 2023, detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Apesar de negarem irregularidades, as entidades tiveram seus contratos suspensos, e a CGU trabalha para identificar possíveis laranjas e lobistas envolvidos no esquema.

Impacto nos beneficiários e medidas de apoio

Os descontos indevidos afetaram cerca de 6 milhões de segurados, muitos dos quais dependem exclusivamente de seus benefícios para sobreviver. Valores que variavam de R$ 45 a R$ 81,57 por mês representavam perdas significativas, especialmente para aposentados com benefícios próximos ao salário mínimo. A devolução automática dos descontos de abril, prevista para a folha de maio, entre 26 de maio e 6 de junho, é um alívio imediato, mas a recuperação de valores anteriores depende de um processo mais longo, conduzido pela AGU.

O INSS reforçou o suporte aos beneficiários, garantindo que não é necessário comparecer a agências ou solicitar cancelamentos. A Central 135 e o Meu INSS são os principais canais para esclarecimentos, com a opção de comando por voz facilitando o acesso. Além disso, a suspensão dos ACTs impede novas cobranças, e o governo promete critérios mais rígidos para futuros convênios, exigindo autorização expressa e validação biométrica dos segurados.

Avanços na segurança e tecnologia

A introdução de tecnologias como biometria facial e assinatura eletrônica avançada marcou um ponto de inflexão na gestão dos descontos associativos. Desde maio de 2024, os testes com o sistema biométrico da Dataprev mostraram resultados promissores, e sua implementação plena em fevereiro de 2025 trouxe maior segurança. A Instrução Normativa nº 162, de março de 2024, limitou os descontos a 1% do teto do RGPS, cerca de R$ 75 em 2025, e proibiu deduções por procuradores, exceto com ordem judicial.

O comando por voz no Meu INSS, ativado em abril de 2025, foi projetado para atender idosos com dificuldades tecnológicas, permitindo que acessem serviços como consulta de extratos e bloqueio de descontos. A reprogramação da Central 135 também agilizou o atendimento, com opções para verificar contracheques e solicitar exclusões em uma única ligação. Essas inovações refletem o compromisso do INSS em modernizar seus processos e proteger os beneficiários.

  • Tecnologias implementadas pelo INSS:
    • Biometria facial para validação de descontos.
    • Assinatura eletrônica avançada para novos contratos.
    • Comando por voz no Meu INSS para acessibilidade.
    • Reprogramação da Central 135 para bloqueio imediato.
    • Funcionalidade de consulta de adesões no Meu INSS.

Futuro dos acordos e proteção dos segurados

A suspensão dos Acordos de Cooperação Técnica é um passo para reorganizar o sistema de descontos associativos, mas o governo planeja uma reestruturação completa. Após a análise da AGU, entidades confiáveis poderão retomar convênios, desde que cumpram critérios rigorosos de transparência e autorização. O ministro da CGU, Vinicius Carvalho, destacou que nenhum desconto será feito até que o sistema seja “hígido, seguro e íntegro”, priorizando a proteção dos aposentados.

Para os beneficiários, a recomendação é manter a vigilância. Verificar o contracheque mensalmente, usar os canais oficiais do INSS e denunciar irregularidades são medidas essenciais. O Portal Consumidor.gov.br e a plataforma Fala BR são ferramentas eficazes para registrar queixas, enquanto o Meu INSS oferece recursos para bloquear descontos preventivamente. A expectativa é que as ações do governo restaurem a confiança dos segurados e evitem novos prejuízos.

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