A morte de Mary Terezinha, aos 79 anos, na segunda-feira, 30 de junho de 2025, em Porto Alegre, trouxe à tona a memória de Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, seu parceiro musical e um dos maiores ícones da música gaúcha. Conhecido como “Rei do Disco”, Teixeirinha marcou a cultura brasileira com mais de 50 álbuns, 1.200 composições e 12 filmes, muitos ao lado de Mary. O falecimento da acordeonista, anunciado pela família, reacendeu o interesse pela trajetória do cantor, que faleceu em 1985, mas segue como símbolo do tradicionalismo. Sua história, repleta de sucessos como Coração de Luto e uma vida de superações, continua a inspirar gerações.
Teixeirinha nasceu em Rolante, Rio Grande do Sul, em 1927, e enfrentou uma infância trágica, marcada pela perda dos pais. Sua carreira, iniciada nas rádios do interior, explodiu na década de 1960, quando formou a lendária dupla com Mary Terezinha. Juntos, eles conquistaram o Brasil com trovas, milongas e filmes que lotavam cinemas.
- Sucesso estrondoso: Coração de Luto vendeu 1 milhão de cópias em 1960, um recorde mundial na época.
- Parceria com Mary: A dupla gravou dezenas de LPs e atuou em 12 filmes entre 1967 e 1980.
- Vida pessoal: Teixeirinha teve nove filhos, dois com Mary, em um relacionamento público e polêmico.
A notícia da morte de Mary, que se dedicava à música gospel desde 1997, levou fãs a relembrarem a era de ouro da música gaúcha, quando Teixeirinha reinava absoluto nos palcos e nas telas.
Origens marcadas pela adversidade
Vitor Mateus Teixeira veio ao mundo em 3 de março de 1927, no distrito de Mascarada, em Rolante. Filho de Saturnino, um trabalhador rural, e Ledurina Mateus Teixeira, ele perdeu o pai aos sete anos, vítima de um infarto. Aos nove, uma tragédia ainda maior: sua mãe, que sofria de epilepsia, caiu em uma fogueira durante uma convulsão e morreu dias depois devido às queimaduras. Órfão, Vitor foi criado por parentes, mas a falta de recursos o levou a trabalhar cedo, de entregador de jornais a operador de máquinas no Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER).
Essas experiências moldaram sua música. A dor da perda materna inspirou Coração de Luto, lançada em 1959, que se tornou um fenômeno, vendendo 25 milhões de cópias ao longo das décadas. A canção, com sua narrativa emocional, conectou-se ao público e abriu portas para uma carreira que transcendeu o Rio Grande do Sul. Teixeirinha começou a cantar em rádios locais, como as de Taquara e Santa Cruz do Sul, onde conheceu Zoraida Lima, sua esposa desde 1957, com quem teve quatro filhas.
Aos 18 anos, tentou se alistar no Exército, mas acabou não servindo. Foi no DAER, onde trabalhou por seis anos, que começou a sonhar com a música. Suas apresentações em cidades como Lajeado e Passo Fundo atraíram produtores, e, em 1959, ele gravou seu primeiro disco, com Xote Soledade e Briga no Batizado, já mostrando seu talento para composições humorísticas e regionais.
Ascensão com Mary Terezinha
Em 1961, em Bagé, Teixeirinha conheceu Mary Terezinha, então com 13 anos, apelidada de “Teixeirinha de Saias” por tocar suas canções no acordeom. A jovem, nascida em Tupanciretã, impressionou o cantor, e, em 1964, eles consolidaram a dupla com o álbum ao vivo Teixeirinha Show. A parceria, que durou 22 anos, foi um marco na música gaúcha, com trovas como Desafio P’ra Valer (1965) e sucessos como Gauchinha Fronteirista.
A química entre os dois extrapolou os palcos. Teixeirinha e Mary viveram um relacionamento amoroso público, mesmo com o cantor casado com Zoraida. Dessa união nasceram Alexandre e Liane, e a dupla se tornou um fenômeno cultural, gravando cerca de 49 discos inéditos e participando de filmes como Coração de Luto (1967) e Motorista sem Limites (1969). Esses longas, produzidos pela Teixeirinha Produções Artísticas, fundada em 1970, misturavam drama, humor e música, atraindo milhões de espectadores.
- Projeção nacional: A dupla se apresentou em todos os estados brasileiros e fez turnês em Portugal, Espanha, Estados Unidos e Canadá.
- Filmes populares: Teixeirinha escreveu e estrelou 12 produções, com Mary como co-protagonista em quase todas.
- Críticas da época: Apesar do sucesso, a crítica considerava suas músicas “bregas” e acusava Teixeirinha de explorar a morte da mãe para ganhar fama.
- Recorde de vendas: Até 1983, ele vendeu 18 milhões de discos, recebendo 13 discos de ouro.
A parceria com Mary, porém, enfrentou tensões. Em 1983, disputas financeiras levaram ao fim da dupla, e, em 1984, Mary deixou um bilhete: “Não me farei mais presente ao seu lado”. A separação, amplamente coberta pela imprensa, abalou Teixeirinha, que sofreu um pré-infarto.
Carreira solo e últimos anos
Após a separação, Teixeirinha reinventou sua carreira. Em 1984, lançou Guerra dos Desafios com Nalva Aguiar, mantendo sua popularidade. No entanto, sua saúde deteriorava. Um infarto em janeiro de 1984 e o diagnóstico de linfoma no mesmo ano marcaram seus últimos momentos. Mesmo debilitado, ele gravou três álbuns, o último lançado um dia após sua morte, em 4 de dezembro de 1985, vítima de um ataque cardíaco em Porto Alegre.
O velório, no Estádio Olímpico, reuniu 50 mil pessoas, e o cortejo até o Cemitério da Santa Casa foi marcado por cenas de comoção. Teixeirinha deixou nove filhos, sete filhas e dois filhos, de relacionamentos com Zoraida, Mary e outras parceiras. Sua morte, aos 58 anos, chocou os fãs, que não sabiam da gravidade de sua doença.
Legado na música e no cinema
Teixeirinha é lembrado como o maior fenômeno de popularidade do Rio Grande do Sul. Suas canções, que abordavam desde o gauchismo (Querência Amada) até temas universais como amor e humor (Briga no Batizado), continuam a ser regravadas por artistas como Milionário e José Rico. No cinema, seus filmes, embora criticados por falta de sofisticação, eram adorados pelo público, especialmente nas periferias, onde sessões públicas geravam entusiasmo.
- Composições prolíficas: Das 1.200 canções, 758 foram gravadas, e cerca de 25% permanecem inéditas.
- Influência duradoura: Artistas como Shana Müller e Gaúcho da Fronteira citam Teixeirinha como inspiração.
- Presença no rádio: Programas como Teixeirinha Amanhece Cantando na Rádio Gaúcha atraíam milhares de ouvintes.
- Fundação Teixeirinha: Criada por sua filha Márcia, preserva seu acervo e organiza eventos em sua memória.
A Fundação Vitor Mateus Teixeira, presidida por Elizabeth Teixeira, mantém viva sua obra, com reedições de discos e exibições de filmes. Em 2022, Mary revelou que um álbum com nove canções inéditas da dupla estava em produção, um projeto que agora ganha ainda mais relevância com sua morte.
Vida pessoal e polêmicas
A vida de Teixeirinha foi tão intensa quanto sua carreira. Casado com Zoraida até o fim, ele nunca se separou, apesar do relacionamento com Mary e de outros vínculos que resultaram em nove filhos. A relação com Mary, embora brilhante nos palcos, teve momentos sombrios, com denúncias de agressões relatadas por ela em A Gaita Nua, sua autobiografia de 1992.
Após a separação, Teixeirinha enfrentou disputas judiciais pela guarda dos filhos e críticas públicas. Sua saúde mental também foi afetada, especialmente após a falência de sua produtora de cinema na década de 1980. Mesmo assim, ele manteve a conexão com os fãs, respondendo cartas e participando de programas de rádio até seus últimos dias.
Homenagens póstumas
A morte de Mary Terezinha, que seguiu carreira gospel após 1997, trouxe um novo olhar sobre Teixeirinha. Fãs lotaram redes sociais com homenagens, compartilhando vídeos de Coração de Luto e Velho Casarão. Em Passo Fundo, uma estátua na Avenida Brasil eterniza o cantor, e seu túmulo, no Cemitério da Santa Casa, é um dos mais visitados no feriado de Finados.
A dupla com Mary, descrita como “pintura e moldura” por pesquisadores, permanece como um dos maiores símbolos da música regional brasileira. A trajetória de Teixeirinha, de órfão a ícone, reflete a resiliência e o talento de um artista que transformou adversidades em arte, deixando um legado que ressoa 40 anos após sua morte.

