A menos de 100 dias da COP30, conferência climática da ONU marcada para 10 a 21 de novembro em Belém, no Pará, a cidade enfrenta uma crise de hospedagem que preocupa delegações internacionais e organizações. A plataforma oficial de acomodações, lançada pelo governo federal em 1º de agosto, oferece 2.700 quartos, mas os preços, a partir de R$ 1,1 mil por diária, e opções como motéis adaptados e leitos compartilhados geraram críticas. Delegações de países em desenvolvimento, especialmente da África e de pequenos estados insulares, reclamam que os custos inviabilizam a participação. A Secretaria Executiva da COP30 (Secop) defende a plataforma como a melhor alternativa para preços acessíveis, mas a oferta insuficiente e a especulação imobiliária desafiam a promessa de uma conferência inclusiva. O governo brasileiro busca soluções, como navios de cruzeiro e escolas adaptadas, enquanto a ONU pressiona por respostas.
A escolha de Belém para sediar a COP30, a primeira na Amazônia, reflete o compromisso do Brasil em destacar a importância da floresta no combate às mudanças climáticas. No entanto, a infraestrutura limitada da cidade, com apenas 18 mil leitos hoteleiros na região metropolitana, tem gerado dificuldades logísticas. A expectativa é receber cerca de 50 mil visitantes, número próximo ao da COP29, em Baku, que contou com 60 mil participantes.
- Principais desafios apontados:
- Preços elevados, com diárias mínimas de US$ 200 (R$ 1,1 mil).
- Acomodações improvisadas, como motéis e casas com camas compartilhadas.
- Exigência de estadias mínimas de até 15 dias.
- Distância de algumas hospedagens do Parque da Cidade, local do evento.
O governo brasileiro, ciente das críticas, promete aumentar a oferta de leitos e negociar preços mais acessíveis até novembro.
Críticas internacionais e pressão sobre o Brasil
A plataforma oficial, acessível em cop30.bnetwork.com, foi lançada com 2.700 quartos, mas a oferta não atendeu às expectativas. No início de julho, 2.500 quartos foram disponibilizados exclusivamente para delegações de países signatários da UNFCCC, com tarifas entre US$ 100 e US$ 600. Mesmo assim, representantes de nações africanas e de pequenos estados insulares, como Ilana Seid, do grupo AOSIS, expressaram preocupação com os custos elevados, que ultrapassam o subsídio diário de US$ 149 oferecido pela ONU.
A insatisfação culminou em uma reunião de emergência do bureau da ONU em 30 de julho, convocada após 25 países questionarem a viabilidade de participar da COP30. Richard Muyungi, presidente do Grupo Africano de Negociadores, destacou que os preços “astronômicos” podem comprometer a presença de nações vulneráveis ao clima. Um diplomata europeu, sob anonimato, relatou que países como a Holanda planejam reduzir suas delegações devido à falta de acomodações acessíveis.
O governo brasileiro respondeu com promessas de ajustes. Em 5 de agosto, a plataforma contava com cerca de 700 acomodações disponíveis, uma queda em relação aos 850 registrados na semana anterior. A Secop afirmou que novos imóveis são adicionados diariamente, após verificação de condições e segurança, mas o ritmo lento preocupa organizações.
Acomodações improvisadas geram controvérsia
A oferta de hospedagens na plataforma oficial inclui opções inusitadas, como motéis adaptados com treliches e casas familiares com leitos compartilhados. Dos 53 mil leitos mapeados pelo governo, 32 mil são residências de temporada, representando 60% da oferta total. Essa dependência de imóveis privados reflete a limitada capacidade hoteleira de Belém, que possui apenas 14.547 quartos em hotéis na capital e região metropolitana.
- Composição dos leitos disponíveis:
- Hotéis: 14.547 leitos.
- Navios de cruzeiro: 6.000 leitos.
- Residências de temporada: 10.004 leitos.
- Plataformas como Airbnb: 22.452 leitos.
Os motéis, com diárias a partir de US$ 410 (R$ 2,2 mil) para estadias mínimas de 15 dias, têm sido alvo de críticas. Márcio Astrini, do Observatório do Clima, afirmou que essas acomodações não atendem às necessidades de delegações, que muitas vezes viajam em grupos profissionais, não em pares. Além disso, a exigência de longos períodos de locação dificulta a participação de representantes que planejam estadias curtas.
Vanessa Robinson, consultora internacional que auxilia delegações, destacou a falta de diálogo com a comunidade local para negociar preços justos. Segundo ela, muitos proprietários desconhecem a relevância da COP30, o que alimenta a especulação imobiliária. Robinson conseguiu algumas diárias de US$ 200 fora da plataforma, mas apenas após intensas negociações.
Esforços do governo para conter a crise
O governo federal, em parceria com o estado do Pará e a prefeitura de Belém, tem implementado medidas para ampliar a capacidade de hospedagem. Além da plataforma oficial, foram contratados dois navios de cruzeiro, que oferecerão 3.900 cabines, totalizando até 6 mil leitos. Outra iniciativa é a adaptação de 90 escolas públicas para funcionar como hostels, com capacidade para 5 mil pessoas.
- Medidas do governo:
- Contratação de navios de cruzeiro para 6 mil leitos.
- Adaptação de escolas para hospedar 5 mil participantes.
- Investimento de R$ 172 milhões em reformas de hotéis.
- Construção da Vila COP30, com 405 suítes para delegações.
O governo também destinou R$ 5 bilhões em linhas de crédito pelo BNDES para melhorias na infraestrutura de Belém, incluindo a construção de uma ponte para facilitar o acesso ao Porto de Outeiro, onde os navios estarão ancorados. A Secop assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o setor hoteleiro em abril, buscando conter preços abusivos, mas a medida não evitou a escalada de valores em plataformas privadas, onde diárias chegam a R$ 2 milhões para o período do evento.
Reações da sociedade civil e impacto local
A especulação imobiliária tem afetado não apenas as delegações, mas também os moradores de Belém. Relatos apontam que proprietários estão encerrando contratos de aluguel para disponibilizar imóveis para a COP30, reduzindo a oferta de moradias para a população local. ONGs alertam que a conferência pode se tornar uma das mais caras da última década, dificultando a participação de ativistas e representantes de países menos desenvolvidos.
Raquel, uma moradora de Belém citada em reportagens, destacou o lado hospitaleiro da cidade, mas criticou a falta de apoio público para evitar a especulação. Segundo ela, iniciativas como cursos de capacitação para o setor turístico são insuficientes. A ausência de políticas habitacionais pós-evento também preocupa, já que os 10 mil leitos temporários, como os de navios, não deixarão legados permanentes.
- Impactos na população local:
- Encerramento de contratos de aluguel para lucrar com a COP30.
- Aumento no déficit habitacional, estimado em 84 mil moradias.
- Baixa cobertura de saneamento, com apenas 2,7% da cidade atendida.
A prefeitura de Belém estima que a cidade precisa dobrar sua capacidade hoteleira para atender a demanda. A construção da Vila COP30, que abrigará chefes de estado, é uma das apostas, mas sua capacidade limitada não resolve o problema geral.
Soluções em andamento e expectativas futuras
O governo brasileiro mantém o compromisso de realizar a COP30 em Belém, rejeitando sugestões de transferir o evento para cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro. Valter Correia, secretário extraordinário da COP30, afirmou que a cidade está preparada para receber os visitantes, destacando a importância simbólica de realizar a conferência na Amazônia.
A plataforma oficial continua sendo atualizada, com a promessa de incluir mais imóveis a preços acessíveis. A Secop planeja responder às críticas na próxima reunião da ONU, marcada para 11 de agosto, com propostas para aumentar os subsídios e melhorar a oferta de hospedagens. A inclusão de novos hotéis, com quatro empreendimentos de redes internacionais, também está em andamento, mas os prazos apertados geram incertezas.
- Próximos passos do governo:
- Atualização diária da plataforma com novos imóveis.
- Negociações com a ONU para aumento de subsídios.
- Ampliação da oferta hoteleira com novos empreendimentos.
- Capacitação de proprietários para reduzir preços especulativos.
A pressão internacional e as críticas locais colocam a COP30 em um momento crítico. A capacidade do Brasil de garantir uma conferência inclusiva e acessível será testada nos próximos meses, enquanto Belém se prepara para receber o mundo.

