Presidente do Flamengo rejeita rompimento com Libra e prevê convivência até 2029

BAP Flamengo

BAP Flamengo - Foto: Delmiro Junior / Shutterstock.com

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, descartou qualquer possibilidade de rompimento com a Liga do Futebol Brasileiro, a Libra, durante reunião do Conselho Deliberativo realizada na noite de terça-feira, 7 de outubro de 2025, na sede da Gávea, no Rio de Janeiro. O encontro serviu para que a diretoria apresentasse aos conselheiros os detalhes da disputa envolvendo a divisão de receitas dos direitos de transmissão televisiva. Bap enfatizou que o contrato vigente até 31 de dezembro de 2029 obriga a permanência do clube no bloco, apesar das divergências com os demais membros.

A apresentação incluiu slides preparados por Marcelo Campos Pinto, representante do Flamengo na Libra, que destacou os argumentos do clube contra o modelo atual de rateio. O presidente interveio para reforçar que o Flamengo não pretende sair da entidade, mas cobra ajustes nos critérios de distribuição. A medida ocorre em meio a uma liminar obtida pelo clube no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que bloqueou o repasse de R$ 77 milhões referentes à segunda parcela do critério de audiência.

Composição e histórico da Libra

A Libra foi criada em 2024 para negociar coletivamente os direitos de transmissão de clubes do Campeonato Brasileiro, com foco na Série A. O bloco reúne nove times na elite: Atlético-MG, Bahia, Flamengo, Grêmio, Palmeiras, Red Bull Bragantino, Santos, São Paulo e Vitória, além de equipes de divisões inferiores como Remo, Paysandu, Volta Redonda, ABC, Guarani, Sampaio Corrêa e Brusque. O contrato com a Globo, assinado no mesmo ano sob a gestão anterior de Rodolfo Landim, garante R$ 1,17 bilhão anuais fixos de 2025 a 2029, mais 40% da receita de pay-per-view, projetada em R$ 500 milhões.

Essa estrutura visa equilibrar as negociações em um mercado fragmentado, mas gerou tensões desde o início. O Flamengo, único clube a alegar prejuízo com o acordo, questiona a aplicação de regras aprovadas sem consenso unânime. A entidade distribui 3% dos valores para clubes da Série B filiados, totalizando cerca de R$ 41 milhões por ano, o que reforça o caráter coletivo da iniciativa.

Flamengo – Foto: Instagram

A formação do bloco surgiu como alternativa a outros grupos, como a Liga Forte União, para fortalecer o poder de barganha. No entanto, divergências internas, especialmente sobre audiência, expuseram fragilidades na governança.

Modelo de divisão das receitas

O rateio das receitas segue três critérios principais, aprovados em assembleias da Libra.

  • Igualitário: 40% distribuídos de forma equânime entre os nove clubes da Série A, independentemente de desempenho ou audiência.
  • Performance: 30% alocados conforme a classificação final no Brasileirão de 2025, com o líder recebendo 9,5% e os rebaixados 1,25%.
  • Audiência: 30% baseados na medição de visualizações, mas sem fórmula detalhada no estatuto inicial, o que gerou o impasse atual.

Essa divisão foi estabelecida em setembro de 2024, mas o Flamengo argumenta que o critério de audiência exige aprovação unânime para complementação, conforme o estatuto. Seis cenários foram propostos ao longo de 2025, sem acordo. A primeira parcela, paga em julho, usou o cenário 1 da Libra, enquanto o clube votou contra na assembleia de agosto.

O bloqueio judicial afeta todos os membros, depositando os valores em juízo até resolução. A Libra recorreu, alegando que o modelo foi aprovado legalmente.

Críticas entre os clubes emergem

Os demais membros da Libra emitiram notas de repúdio à ação judicial do Flamengo, chamando-a de violação ao fair play financeiro. O Palmeiras, por meio da presidente Leila Pereira, comparou a postura rubro-negra a posturas negacionistas, enquanto São Paulo e Santos destacaram o impacto em clubes menores. A entidade acusa o Flamengo de disseminar desinformação e evitar o diálogo, apesar de assembleias em maio e agosto.

Bap rebateu indiretamente, questionando operações financeiras de rivais, como o empréstimo de R$ 80 milhões da Crefisa ao Vasco, garantido por 10% das ações da SAF do clube carioca. O acordo prevê carência de 12 meses e pagamentos em até 36 meses, com risco de perda das ações em caso de inadimplência. Essa intervenção gerou reações, mas não alterou a posição do Flamengo sobre o contrato.

A troca de acusações escalou na última semana, com comunicados oficiais de ambos os lados. O Flamengo insiste em omissões estatutárias, enquanto a Libra defende a legalidade das decisões majoritárias.

Negociações travadas e perspectivas judiciais

Desde janeiro de 2025, o Flamengo e a Libra negociaram cenários alternativos para o critério de audiência, incluindo pesos de 60% para TV aberta, 5% para fechada e 35% para pay-per-view. O clube propôs estender o modelo de cadastros no PPV, onde detém 22% do mercado nacional e 37% no bloco, mas as propostas foram rejeitadas. Em julho, o pagamento inicial seguiu o cenário da entidade, levando o rubro-negro a pedir gravações da assembleia.

A liminar, concedida pela desembargadora Lúcia Helena do Passo, suspende repasses até análise do mérito na Corte Arbitral, como previsto no contrato. Se mantida até o fim de 2025, pode reter até R$ 230 milhões. O Flamengo calcula que, sob regras de transição, receberia R$ 321 milhões garantidos este ano, contra perdas estimadas no modelo atual.

Aspectos contratuais em debate

O estatuto da Libra prevê veto unânime para alterações em rateios, mas não detalha percentuais internos da audiência nos 30% alocados. Essa lacuna levou à ação judicial, com o Flamengo contratando consultorias para mapear prejuízos. O consultor Matos Projects elaborou cinco cenários, aos quais o clube adicionou um sexto, sem consenso.

A Globo depositará valores contestados em juízo, mantendo obrigações contratuais. Dirigentes da Libra avaliam o estatuto para possíveis exclusões, mas enfrentam entraves legais até 2029. O Flamengo reitera busca por diálogo, propondo cenário alternativo para 2025 e discussões para 2026-2029.

Uma trégua foi oferecida em agosto, adiando mudanças para o próximo ano, mas o pedido de liminar veio na véspera do pagamento. Essa sequência intensificou o racha, com o bloco unido em recurso.

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