Beyond Good & Evil 2, o game grande demais para desaparecer

Beyond Good & Evil 2,

Beyond Good & Evil 2 - Divulgação

“Beyond Good & Evil 2” representa um dos capítulos mais longos e complexos na história do desenvolvimento de jogos eletrônicos, estendendo-se por quase duas décadas desde seu anúncio inicial. Enquanto a Ubisoft atravessa um período de intensa reestruturação, marcado por cortes de pessoal e cancelamento de diversos projetos, a continuação da aventura de Jade e Pey’j permanece inesperadamente intocada. Muitos especularam que o título seria um dos primeiros a ser descontinuado, dada sua notória trajetória atribulada e o longo período em pré-produção. No entanto, a desenvolvedora francesa assegura que o projeto é uma “prioridade”, levantando questões sobre os verdadeiros motivos por trás de sua resiliência em meio ao turbilhão. A complexidade e o volume de investimento já alocado transformaram o game em um ativo de valor inestimável para a companhia, tornando seu cancelamento uma manobra financeiramente inviável e possivelmente catastrófica.

A longevidade do projeto, que já superou o recorde de “Duke Nukem Forever”, é um sintoma das ambições grandiosas e das dificuldades enfrentadas pela equipe. Desde a concepção inicial, o jogo passou por múltiplas transformações, diretores criativos e visões, contribuindo para a sua indefinição.

A saga de um desenvolvimento conturbado

A trajetória de “Beyond Good & Evil 2” é um espelho de sua própria grandiosidade prometida, marcada por reviravoltas e desafios contínuos. Informações preliminares sobre o início de sua produção remontam a 2007, com a confirmação oficial da Ubisoft um ano depois. Inicialmente concebido para a sétima geração de consoles, o projeto viu um trailer-conceito de sua engine e um teaser de jogabilidade vazarem em 2009.

O silêncio radiofônico que se seguiu perdurou por quase uma década, até a E3 2017, quando a Ubisoft revelou um novo trailer cinematográfico e uma estética completamente renovada. Neste ponto, a equipe havia descartado o protótipo original e recomeçado os trabalhos do zero, transformando o jogo de uma sequência direta para uma prequela da história original.

Promessas ambiciosas e desafios de produção

A E3 2018 trouxe mais novidades, incluindo uma nova CGi e demonstrações da jogabilidade que destacavam um personagem customizável. O sistema de pilotagem de naves e o escopo do mundo aberto eram verdadeiramente vastos, prometendo uma experiência sem precedentes aos jogadores.

A promessa de um universo que simulava viagens intergalácticas com precisão, mundos colossais, mecânicas de combate inovadoras e uma narrativa épica, embora instigante, revelou-se um dos principais entraves. O público, já cético com promessas exageradas, observava com desconfiança as declarações da empresa.

Exemplos como “No Man’s Sky” e “Cyberpunk 2077” mostraram o risco de prometer o mundo e entregar pouco, embora ambos tenham se recuperado posteriormente. A própria Ubisoft não ajudava a mitigar essa desconfiança com as constantes mudanças de direção e a saída de figuras-chave do projeto.

Mudanças na liderança e o hiato criativo

Em 2020, Michel Ancel, o criador da série e um dos diretores do projeto, deixou a empresa, admitindo posteriormente que havia divergências criativas significativas sobre a direção do game. Seu substituto, Emile Morel, faleceu tragicamente em julho de 2023, aos 40 anos, deixando a equipe novamente em um limbo criativo por um longo período. O cargo de diretor criativo permaneceu vago por impressionantes quinze meses, sendo preenchido apenas em outubro de 2024 por Fawzi Mesmar. Mesmar, por sua vez, tem mantido uma postura discreta, limitando-se a afirmar que “Beyond Good & Evil 2” segue em desenvolvimento, enquanto relatos internos sugerem que ele ainda não ultrapassou a fase de pré-produção, quase dezenove anos após seu anúncio, evidenciando a persistência dos desafios.

O custo de ser inviável para cancelar

A decisão de manter “Beyond Good & Evil 2” em produção, apesar da intensa reestruturação da Ubisoft, levanta uma questão central: o jogo se tornou financeiramente grande demais para ser cancelado. Enquanto outros títulos, incluindo o aguardado remake de “Prince of Persia: The Sands of Time”, foram descartados em meio a um “inferno de desenvolvimento” particular, a aventura espacial de Jade e Pey’j foi poupada, não por um respeito nostálgico aos fãs, mas por uma fria e dura realidade econômica que a impedia de ser descartada.

Estimativas sugerem que o projeto já consumiu mais de US$ 0,5 bilhão em seu longo e tortuoso percurso de desenvolvimento, sem sequer considerar os custos de marketing adicionais. Esse montante o posiciona como um dos jogos mais caros da história, mesmo estando ainda em uma fase de pré-alpha. Comparativamente, até mesmo o orçamento colossal de “Grand Theft Auto VI”, projetado para ficar entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões (incluindo marketing), pode ser superado caso “Beyond Good & Evil 2” chegue a ser concluído e lançado no mercado.

Implicações financeiras do cancelamento

O cancelamento do game neste estágio resultaria em uma baixa contábil massiva, um “write-off” que traria enormes prejuízos à Ubisoft em seus balanços financeiros. Tal impacto financeiro poderia abalar seriamente a saúde econômica da empresa, comprometendo sua estabilidade geral e a confiança dos acionistas no futuro imediato.

Dessa forma, a conclusão e o eventual lançamento de “Beyond Good & Evil 2” tornaram-se uma necessidade estratégica crucial. Ele é um ativo que precisa ser capitalizado para mitigar os investimentos já realizados e, idealmente, gerar algum retorno significativo para a empresa.

Mesmo que o retorno não seja suficiente para cobrir todo o montante gasto, qualquer receita é preferível à declaração de perda total do investimento em termos contábeis. A manutenção do projeto ativo demonstra uma tentativa de reaver parte do capital injetado.

Portanto, “Beyond Good & Evil 2” se mantém como um item crucial nos relatórios financeiros da empresa, uma promessa futura para os acionistas. Isso acontece independentemente dos desafios produtivos que ainda enfrenta no presente momento e da sua longa jornada de desenvolvimento.

A reestruturação da Ubisoft

A Ubisoft implementou uma profunda reestruturação que incluiu o cancelamento de seis jogos, o adiamento de outros sete e o fechamento de estúdios, resultando em demissões em massa. A empresa também estabeleceu cinco “casas criativas”, cada uma focada em um gênero específico ou em uma franquia icônica, buscando otimizar sua produção e focar em propriedades intelectuais mais rentáveis.

Uma dessas “casas”, a Vantage Studios, que conta com participação da gigante chinesa Tencent, será responsável por séries de peso como “Assassin’s Creed”, “Far Cry” e “Rainbow Six”. Outras unidades se dedicarão a IPs como “Splinter Cell”, “Prince of Persia”, “For Honor”, “Rayman”, “Just Dance” e, notavelmente, “Beyond Good & Evil”, confirmando sua sobrevivência em meio aos cortes.

Polêmicas e o cenário atual da empresa

O cenário atual da Ubisoft é complexo, com os ânimos do público em baixa devido a uma série de fatores que abalam a confiança dos jogadores. Entre eles, destacam-se:
– O cancelamento de títulos esperados;
– As recentes demissões de desenvolvedores em várias equipes;
– A controversa adoção da Inteligência Artificial em seus processos de criação.
Essas decisões geraram críticas significativas e levantaram debates sobre a direção futura da companhia e seus valores éticos na indústria dos jogos.

Adicionalmente, a postura da empresa sobre a propriedade dos jogos, afirmando que os jogadores não são “donos” de seus games e não têm direito a reclamar sobre o desligamento de servidores, contribui para a insatisfação geral. Para “Beyond Good & Evil 2”, essa polêmica é ampliada pela exigência de conexão constante à internet, devido às suas prometidas mecânicas de co-op multiplayer, um ponto que pode gerar ainda mais fricção com a comunidade de jogadores e impactar sua recepção futura.

Expectativas para o futuro do jogo

A questão mais premente para os fãs e para a própria indústria é: quando “Beyond Good & Evil 2” finalmente verá a luz do dia e se tornará um produto disponível no mercado consumidor após tantos anos de desenvolvimento?

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