A Receita Federal deu um passo crucial na modernização da fiscalização de ativos digitais ao promulgar a Instrução Normativa RFB nº 2.291, em 14 de novembro de 2025. Esta iniciativa representa uma atualização da regulamentação vigente desde 2019, estabelecendo um novo padrão para a prestação de informações sobre operações com criptoativos em território nacional. A medida visa intensificar a cooperação com autoridades tributárias de nações que aderem ao padrão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fortalecendo a rede global de combate à evasão fiscal, lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas, que representam um desafio significativo no ambiente financeiro digital.
O foco principal desta nova normativa é elevar a transparência das transações digitais, garantindo que o fluxo de dados seja compatível com as melhores práticas internacionais. Ao se alinhar com as diretrizes da OCDE, o fisco brasileiro busca facilitar o intercâmbio de informações e reforçar a integridade do sistema financeiro. Essa modernização é essencial para acompanhar a rápida evolução do mercado de criptoativos, que apresenta particularidades e desafios únicos para a fiscalização em escala global, exigindo respostas regulatórias ágeis e eficazes.
Nova era na fiscalização de ativos digitais
A criação do DeCripto marca o início de uma nova fase na forma como as operações com moedas digitais são monitoradas pelo órgão federal. Esta evolução regulatória reflete a crescente importância dos criptoativos no cenário econômico e a necessidade de ferramentas mais robustas para garantir a conformidade tributária e prevenir usos indevidos. A Receita Federal demonstra proatividade em adaptar seus mecanismos de controle à complexidade do ambiente de blockchain e transações descentralizadas.
A Instrução Normativa detalha as obrigações para as entidades envolvidas no ecossistema de criptoativos, abrangendo desde exchanges até intermediários que facilitam essas operações. O aprimoramento da coleta de dados é fundamental para que o governo possa ter uma visão clara do volume e da natureza das transações, permitindo uma análise mais precisa e um direcionamento estratégico de suas ações fiscalizadoras. Isso contribui para um ambiente de negócios mais seguro e previsível para todos os participantes do mercado.
Sistema DeCripto e o cronograma de adaptação
A transição para o novo modelo de informações, conhecido como DeCripto, será implementada de forma gradual, com a previsão de que o novo leiaute de dados entre em vigor apenas no segundo semestre de 2026. Este cronograma foi estabelecido para proporcionar um período adequado de adaptação ao mercado e garantir uma transição suave para as novas exigências.
Para assegurar que o setor possa se preparar sem maiores dificuldades, a Receita Federal confirmou a disponibilização de um ambiente de testes. Este ambiente estará acessível até o dia 30 de março deste ano, permitindo que as entidades e empresas do ramo de criptoativos indiquem associados para participar da fase de experimentação, realizando os ajustes operacionais necessários antes que a obrigatoriedade definitiva comece.
Preparação do mercado para a transição
A fase de testes é fundamental para que empresas e exchanges de criptoativos possam validar seus sistemas e processos internos frente às novas especificações do DeCripto. Este período de experimentação não apenas minimiza riscos de erros e inconformidades, mas também permite que as entidades ajustem seus softwares e fluxos de trabalho para atender às novas demandas de envio de dados.
A antecedência na disponibilização do ambiente de testes demonstra a preocupação da Receita Federal em promover uma adoção eficiente da nova regulamentação. O engajamento das empresas nesse processo de validação é vital para o sucesso da implantação do sistema, garantindo que todas as partes interessadas estejam alinhadas e preparadas para as mudanças.
Além disso, a oportunidade de testar o sistema antecipadamente pode identificar possíveis inconsistências ou áreas de melhoria no leiaute, antes que ele se torne mandatório. Isso reforça a colaboração entre o setor público e privado na construção de um arcabouço regulatório que seja ao mesmo tempo eficaz e operacionalmente viável.
As organizações do setor são incentivadas a participar ativamente desse período de testes, utilizando a plataforma para simular o envio de informações e resolver quaisquer dúvidas técnicas que possam surgir. A experiência adquirida nesta etapa será crucial para a conformidade futura e para evitar penalidades por erros no preenchimento dos dados.
Transparência e diálogo com a criptoeconomia
O processo de elaboração da Instrução Normativa foi caracterizado por um extenso diálogo e transparência institucional. Antes da publicação oficial da medida, a autoridade tributária realizou diversas consultas públicas, convidando os principais interessados a apresentarem suas contribuições e perspectivas.
Adicionalmente, foram promovidas rodadas de conversa com as associações e representantes do mercado de criptoativos, estabelecendo um canal direto para discussões. Recentemente, a equipe técnica da Receita Federal esteve reunida com a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto) e atendeu a pedidos de esclarecimento da Associação Brasileira de Tokenização e Ativos Digitais, para debater os avanços técnicos introduzidos pela nova regra.
Detalhes técnicos e manuais de orientação
Como parte desse esforço contínuo para facilitar o cumprimento das obrigações acessórias, a fiscalização já disponibilizou em seu portal oficial o manual de orientação e o leiaute atualizado para o DeCripto. Esses documentos são ferramentas essenciais para que contribuintes e desenvolvedores compreendam as especificações técnicas e preparem seus sistemas.
O manual de orientação detalha os procedimentos para a coleta e o envio das informações, enquanto o leiaute descreve a estrutura exata dos dados que devem ser reportados. A clareza e a acessibilidade dessas informações são fundamentais para garantir que as empresas possam implementar as mudanças de forma correta e eficiente, minimizando o risco de inconsistências.
Esses recursos visam desmistificar o processo de adequação, oferecendo um guia prático que cobre desde os aspectos conceituais até os detalhes mais técnicos da nova sistemática. A iniciativa reflete o compromisso da Receita Federal em apoiar o mercado na transição, promovendo a conformidade por meio da educação e do acesso à informação.
Alinhamento com padrões internacionais da OCDE
A adesão aos padrões da OCDE para troca de informações sobre criptoativos é um movimento estratégico que posiciona o sistema fiscal do país em patamar global. Essa harmonização visa coibir a utilização de criptoativos para fins ilícitos, como a lavagem de dinheiro e o financiamento de terrorismo, questões que transcendem fronteiras nacionais.
Fortalecimento da cooperação para segurança financeira
A cooperação entre as administrações tributárias de diferentes países é crucial para enfrentar os desafios impostos pela natureza global dos criptoativos. O DeCripto, alinhado aos padrões da OCDE, fortalece a capacidade do país de participar ativamente dessa troca de informações, tornando mais difícil para indivíduos e empresas ocultarem ativos em jurisdições diversas.
Essa colaboração internacional é um pilar fundamental para a construção de um ambiente financeiro mais transparente e seguro em escala mundial. Ao compartilhar dados e inteligência, as autoridades podem identificar padrões de evasão e lavagem de dinheiro que seriam impossíveis de detectar agindo isoladamente.
Esclarecimentos sobre a tributação de criptoativos
É importante ressaltar que a Instrução Normativa RFB nº 2.291 foca estritamente na captação de dados e nas obrigações acessórias relacionadas aos criptoativos. A autoridade tributária esclarece que este ato normativo não introduz qualquer alteração nos aspectos relativos à tributação de criptoativos, como alíquotas ou base de cálculo de impostos.
Portanto, as regras para o cálculo e recolhimento de impostos sobre operações com criptoativos permanecem inalteradas, continuando a ser regidas pelas legislações específicas já existentes. Os contribuintes devem estar atentos para não confundir as novas exigências de reporte de informações com eventuais mudanças na carga tributária, que não são o foco desta regulamentação.
Desafios globais no controle de operações ilícitas
A natureza descentralizada e muitas vezes pseudônima das transações com criptoativos representa um desafio significativo para as autoridades reguladoras em todo o mundo. A capacidade de movimentar grandes volumes de valor rapidamente e através de fronteiras com relativa facilidade, sem a necessidade de intermediários financeiros tradicionais, criou um novo terreno para a evasão fiscal e atividades criminosas. Nesse contexto, sistemas como o DeCripto e a cooperação internacional via OCDE tornam-se instrumentos indispensáveis para fechar as brechas e garantir que o avanço tecnológico não seja explorado para fins prejudiciais à sociedade e à economia global. A luta contra a lavagem de dinheiro e o financiamento de atos ilícitos é uma prioridade constante para governos e instituições financeiras, e a regulamentação do espaço cripto é uma peça central nessa estratégia, buscando um equilíbrio entre inovação e segurança. O monitoramento eficaz é um passo essencial para legitimar o uso da tecnologia blockchain em aplicações financeiras convencionais.