Mineradora de terras raras em Goiás é adquirida por companhia americana em negócio de US$ 2,8 bilhões

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Dólar, notas - Volodymyr TVERDOKHLIB/shutterstock.com

A mineradora americana USA Rare Earth anunciou nesta segunda-feira (20) a aquisição da brasileira Serra Verde por um valor aproximado de US$ 2,8 bilhões. A operação, que se desenrola com grande expectativa no mercado global de insumos críticos, promete reconfigurar o panorama do fornecimento de terras raras. Esses elementos são vitais para o funcionamento de uma gama extensa de tecnologias modernas, abrangendo desde veículos elétricos e turbinas eólicas até os sofisticados sistemas de defesa.

O acordo representa um movimento estratégico significativo, alinhado aos esforços dos Estados Unidos para diminuir a dependência da China no abastecimento desses minerais essenciais. A transação envolve um investimento substancial e um compromisso de longo prazo para garantir a oferta de materiais que sustentam indústrias de alta tecnologia e setores considerados sensíveis para a segurança nacional e econômica.

Detalhes da aquisição e valores envolvidos

A operação anunciada pela USA Rare Earth prevê a compra de 100% das ações da Serra Verde. A empresa brasileira, agora sob controle americano, é a proprietária da mina e da planta de processamento Pela Ema, localizada no estado de Goiás. Este ativo é reconhecido globalmente por sua singularidade e capacidade produtiva, sendo considerado de importância estratégica no cenário da mineração.

O pagamento pela aquisição está estruturado em duas partes. Serão desembolsados US$ 300 milhões em dinheiro, proporcionando liquidez imediata aos atuais acionistas da Serra Verde. Adicionalmente, a operação incluirá a emissão de 126,849 milhões de novas ações da USA Rare Earth, que serão transferidas aos vendedores. Este componente acionário eleva o valor total da transação para os cerca de US$ 2,8 bilhões mencionados. A combinação de dinheiro e ações visa alinhar os interesses dos antigos proprietários com o futuro da nova entidade.

O fechamento oficial da operação está agendado para o terceiro trimestre de 2026. Este prazo está sujeito à obtenção das aprovações regulatórias necessárias em ambos os países, bem como ao cumprimento de outras condições usuais para transações de grande porte no setor de mineração. A Serra Verde, até então, era controlada por um grupo de investidores privados e fundos, incluindo nomes como Denham Capital, Vision Blue Resources e Energy & Minerals Group.

Estratégia de redução da dependência chinesa

A transação é um reflexo direto da intensificação dos esforços dos Estados Unidos e de seus aliados para criar cadeias de suprimento mais resilientes. A China tem dominado o mercado global de terras raras por décadas, controlando grande parte da mineração, processamento e produção de ímãs. A busca por fontes alternativas é, portanto, uma prioridade geopolítica e econômica.

A própria USA Rare Earth tem destaque por contar com apoio explícito do governo americano. Este respaldo é fundamental para viabilizar projetos de grande escala e para mitigar riscos inerentes a um mercado volátil. A empresa tem como objetivo a construção de uma cadeia de valor integrada. Esta se estenderá desde a extração do mineral bruto até a fabricação de ímãs permanentes. A ideia é estabelecer uma produção inteiramente fora do continente asiático.

    O acordo com a Serra Verde inclui um contrato de venda de longo prazo, com duração de 15 anos. Este contrato prevê a comercialização de 100% da produção inicial de elementos críticos, como:
  • Neodímio
  • Praseodímio
  • Disprósio
  • Térbio

Estes minerais são cruciais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Eles são empregados em uma variedade de setores estratégicos, que abrangem desde a indústria de defesa e a produção de semicondutores até a área de energia renovável e a crescente mobilidade elétrica. A inclusão de pisos de preço definidos no contrato oferece uma proteção importante contra as flutuações do mercado de commodities.

O ativo estratégico da Serra Verde em Goiás

A mina Pela Ema, detida pela Serra Verde em Goiás, é considerada um ativo de valor excepcional. Ela é atualmente o único produtor em escala comercial fora da Ásia com capacidade comprovada para fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras. Esta característica confere à mina uma posição de destaque no cenário internacional, reforçando a importância do Brasil no mapa global de recursos minerais estratégicos.

A relevância da operação é ampliada pelas projeções da USA Rare Earth. A companhia estima que a Serra Verde poderá ser responsável por mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China até o ano de 2027. Este dado sublinha o impacto potencial da aquisição na diversificação das fontes globais e na redução da concentração de mercado em um único país. A capacidade de produção e o potencial de expansão da mina goiana são fatores-chave neste cenário.

A Serra Verde deu início à sua produção comercial em 2024, após receber mais de US$ 1,1 bilhão em investimentos ao longo dos anos. A expectativa é que a mina atinja sua capacidade plena de produção até 2027, contribuindo significativamente para o fornecimento global desses materiais. Há ainda um potencial considerável para expansão nos anos subsequentes, o que pode solidificar ainda mais a posição da mina como um player estratégico.

Impactos para o Brasil e projeções de mercado

Para o Brasil, este negócio reforça a importância de seus recursos minerais no contexto global, atraindo investimentos estrangeiros e destacando o país como fornecedor de matérias-primas essenciais. A aquisição, no entanto, também levanta questões sobre o nível de agregação de valor que permanece no país. Historicamente, as etapas industriais mais avançadas, que geram maior valor agregado, tendem a ser concentradas no exterior, onde as empresas compradoras têm suas bases de manufatura.

A USA Rare Earth projeta que a operação combinada, integrando a mineração da Serra Verde com suas próprias operações, pode gerar um EBITDA (Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) anual de até US$ 1,8 bilhão até 2030. É importante ressaltar que essas projeções financeiras dependem diretamente das condições de mercado futuras e da execução bem-sucedida dos projetos de integração e expansão.

Em janeiro, a USA Rare Earth já havia assinado uma carta de intenções não vinculante com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Este documento sinalizava a possibilidade de acesso a um apoio financeiro do governo americano de até US$ 1,6 bilhão. Desse montante, até US$ 277 milhões seriam provenientes de recursos federais diretos, enquanto até US$ 1,3 bilhão poderiam ser concedidos sob a forma de um empréstimo sênior garantido pelo governo. Embora a carta não represente uma liberação imediata de fundos, ela demonstra a visão de Washington de que a empresa é uma peça estratégica. O governo americano busca, com esse apoio, montar uma cadeia robusta de terras raras, metais e ímãs fora da China. O foco está nos setores considerados sensíveis para a economia e a segurança dos Estados Unidos, como os semicondutores, a defesa e as novas tecnologias de energia.