O Fundo Monetário Internacional apresentou na quarta-feira seu relatório Fiscal Monitor durante as reuniões de primavera em Washington. A dívida pública global deve alcançar 99% do PIB mundial até 2028. Esse patamar chega mais cedo que o previsto em edições anteriores.
O diretor do Departamento de Assuntos Fiscais do FMI, Rodrigo Valdés, falou com jornalistas sobre o cenário. Ele destacou que o mundo enfrenta novas pressões da guerra no Oriente Médio em um momento de finanças públicas já esticadas em muitos países. Os governos têm menos espaço para manobras.
Dívida global avança para patamar recorde
A dívida bruta dos governos no mundo inteiro subiu para cerca de 94% do PIB em 2025. A trajetória atual aponta para 100% por volta de 2029. Em cenários de estresse mais severo, que representam o percentil 95 das possibilidades, o indicador pode saltar para 121% em apenas três anos.
Esses números mostram uma deterioração gradual. O hiato fiscal — diferença entre o saldo primário atual e o necessário para estabilizar a dívida — piorou em um ponto percentual em relação aos cinco anos anteriores à pandemia. Valdés afirmou que não se trata apenas de um problema cíclico. Ele reflete escolhas de política com gastos permanentemente mais altos e receitas menores.
As taxas de juros reais subiram. Esse movimento soma cerca de seis pontos percentuais acima dos níveis pré-pandemia e encarece o custo de cada real de dívida existente. Cada ano de adiamento torna o ajuste futuro mais difícil.
Situação nos Estados Unidos chama atenção
A dívida nacional americana alcançou US$ 39 trilhões. O déficit fiscal dos EUA encolheu levemente no ano passado, de perto de 8% para abaixo de 7% do PIB. Parte dessa melhora veio de receitas com tarifas.
A projeção do FMI indica, porém, que o déficit deve voltar a rondar 7,5% e se manter nesse patamar no curto prazo. Com isso, a dívida dos EUA deve superar 125% do PIB ainda este ano e chegar potencialmente a 142% em 2031.
Para apenas estabilizar essa trajetória — sem reduzi-la —, seria necessário um aperto fiscal de aproximadamente quatro pontos percentuais do PIB. Valdés classificou o tamanho do ajuste como significativo. Ele lembraria os maiores esforços de consolidação em tempos de paz na história moderna americana.
Sinais já aparecem nos mercados de títulos. O prêmio que os Treasuries americanos ofereciam em relação a outras dívidas de economias avançadas diminui. Isso indica que os investidores mostram menos tolerância que no passado.
Conflito no Oriente Médio agrava pressões
O confronto em andamento no Oriente Médio eleva preços de combustíveis e alimentos. Muitos governos respondem com subsídios amplos de energia ou cortes em impostos sobre o consumo.
O FMI avalia que essas medidas distorcem os sinais de preço. Elas custam caro aos cofres públicos, são regressivas e difíceis de retirar depois. Quando metade do mundo protege seus consumidores, a outra metade absorve todo o ajuste de demanda. Políticas domésticas acabam influenciando preços globais.
Modelos do fundo sugerem que o efeito transbordamento pode dobrar o impacto inicial do choque de preços para os países que não adotam subsídios. A vice-diretora Era Dabla-Norris observou que as respostas desta vez foram mais contidas que na crise de energia de 2022. Mesmo assim, o espaço fiscal mais apertado torna perigoso voltar aos hábitos antigos.
O recomendável é proteger as pessoas, e não os preços. Apoio temporário e focalizado aos mais vulneráveis funciona melhor que alívio geral.
- Subsídios gerais de energia distorcem sinais de mercado
- Medidas amplas geram custos fiscais elevados
- Benefícios tendem a ser regressivos
- Dificuldade de reversão após implementação
- Efeito em preços globais afeta quem não subsidia
Inteligência artificial surge como possível ferramenta
Em meio aos números duros, a inteligência artificial apareceu como um elemento que pode mudar o jogo. Dabla-Norris explicou que a tecnologia tem potencial para elevar a produtividade, melhorar a administração tributária e tornar mais eficientes os serviços de saúde e educação.
Governantes poderiam repensar completamente a forma como operam. Ao mesmo tempo, surgem riscos. A IA concentra riqueza, altera mercados de trabalho e pode reduzir as bases de impostos sobre renda e folha de pagamento que sustentam os sistemas sociais atuais.
A pergunta que governos precisam responder com urgência é se seus sistemas tributários e de proteção social estão preparados para esse novo cenário. Há muita incerteza sobre o impacto real da tecnologia no emprego e na desigualdade.
Ajustes fiscais não podem ser adiados indefinidamente
Valdés enviou uma mensagem clara aos legisladores americanos. O problema não pode esperar para sempre. Os Estados Unidos ainda têm tempo, mas o atraso aumenta as pressões que podem surgir no caminho.
O quadro global mostra finanças públicas mais vulneráveis em diversos países. A combinação de dívida alta, juros reais elevados e choques geopolíticos reduz o grau de liberdade para políticas econômicas.
O relatório do FMI reforça que estabilizar as contas exige escolhas difíceis. A demora só torna o esforço mais pesado no futuro.

