Cientistas encontram Streptococcus pyogenes em múmia boliviana de sete séculos

Mumia

Mumia - Andrea Izzotti / Shutterstock.com

Uma múmia de cerca de 700 anos guardada em uma torre funerária nos Andes da Bolívia guardava um segredo inesperado. Pesquisadores extraíram DNA de um dente do jovem e identificaram material genético da bactéria Streptococcus pyogenes. O achado saiu publicado em 13 de abril de 2026 na revista Nature Communications. A equipe do Instituto Eurac Research não procurava esse patógeno. O foco inicial era o genoma humano preservado nos restos mumificados.

O resultado altera o entendimento sobre quando a bactéria circulava no continente. Até agora, a ciência considerava que doenças como a escarlatina só chegaram às Américas após o contato europeu. O registro na múmia do Período Intermediário Tardio mostra que o microrganismo já existia séculos antes.

Dente da múmia entregou DNA bacteriano preservado

Os pesquisadores trabalharam com restos depositados em chullpas, estruturas de torre típicas do Altiplano boliviano. O clima seco e frio da altitude ajudou a preservar os corpos de forma natural. O material vinha de um jovem que viveu entre 1283 e 1383 d.C., segundo datação calibrada.

A análise usou sequenciamento de DNA antigo. Fragmentos degradados permitiram reconstruir quase todo o genoma da bactéria. Frank Maixner, do Instituto Eurac Research, destacou a abordagem aberta da equipe. Eles examinaram tanto o DNA humano quanto o de microrganismos presentes nos restos.

  • A múmia pertencia a um indivíduo do sexo masculino
  • O dente analisado forneceu o material genético principal
  • A reconstrução alcançou alto grau de completude
  • O genoma antigo carrega vários genes de virulência vistos em cepas modernas
  • A descoberta é o primeiro registro arqueológico desse patógeno nas Américas

O achado ocorreu durante o Bolivian Mummy Project, que estuda coleções de múmias no Museu Nacional de Arqueologia de La Paz. A cooperação envolveu autoridades bolivianas e especialistas internacionais.

Condições de vida no Altiplano favoreciam transmissão

O Período Intermediário Tardio registrou alta densidade populacional e movimentos migratórios na região andina. Essas condições criam ambiente propício para a circulação de patógenos entre comunidades. O jovem mumificado apresentava sinais de subnutrição nos ossos analisados. Isso pode ter reduzido a resistência imunológica e facilitado infecções graves.

Cientistas ainda não confirmam se a bactéria causou a morte. O DNA detectado em quantidade suficiente indica que a infecção estava ativa ou recente na época do óbito. A presença em um único indivíduo sugere que o patógeno já circulava entre outras pessoas da mesma época.

Parágrafos longos como este permitem aprofundar o contexto histórico. O declínio da civilização Tiwanaku e a consolidação posterior do Império Inca marcam o intervalo em que o jovem viveu. Populações se deslocavam, trocavam bens e mantinham contatos próximos. Tais dinâmicas aumentam o risco de doenças respiratórias e de pele transmitidas por bactérias. Estudos futuros com mais múmias da mesma região podem mapear melhor a distribuição do microrganismo.

Escarlatina e infecções por Streptococcus pyogenes ganham nova linha do tempo

A Streptococcus pyogenes causa desde faringites até quadros graves como escarlatina, síndrome do choque tóxico e infecções invasivas. Antes dos antibióticos, a escarlatina respondia por alta mortalidade infantil em várias partes do mundo. A visão clássica colocava sua chegada às Américas junto com colonizadores europeus.

O genoma reconstruído da múmia boliviana empurra a presença confirmada da bactéria no continente para séculos antes de 1492. Isso abre a possibilidade de que o patógeno já circulasse de forma independente nas populações indígenas. Uma hipótese considera transmissão a partir de animais nativos dos Andes, embora mais dados sejam necessários para confirmar rotas.

A reconstrução também permite comparações com cepas antigas encontradas em outros continentes. A equipe identificou similaridades e diferenças em genes de virulência. O trabalho demonstra que métodos de montagem de novo, sem referência moderna, funcionam mesmo com DNA antigo altamente fragmentado.

Preservação andina abre janela para saúde de populações antigas

Múmias naturais dos Andes oferecem material de estudo raro. Diferente de práticas egípcias ou de elites, a mumificação ocorria com pessoas de vários níveis sociais nas chullpas. O frio e a secura mantiveram tecidos e DNA em condições que permitem análises modernas.

Pesquisadores combinam dados genéticos com evidências osteológicas. No caso do jovem, indicadores de nutrição complementam o quadro infeccioso. Estudos assim ajudam a reconstruir não só patógenos, mas também aspectos da dieta, migrações e condições de vida no passado.

A colaboração entre instituições italianas e bolivianas reforça a importância de parcerias internacionais na bioarqueologia. Resultados são compartilhados com as comunidades locais e autoridades culturais.

Mais múmias precisam ser analisadas para consolidar o quadro

Um único registro, por mais significativo, não fecha o debate sobre a história epidemiológica. Os autores do artigo na Nature Communications destacam a necessidade de examinar outros restos do mesmo período e região. Novos achados podem revelar se a bactéria era comum ou restrita a certos grupos.

Questões permanecem sobre a origem exata do patógeno nos Andes. Contato com reservatórios animais ou circulação via rotas humanas antigas são possibilidades em estudo. Cada amostra adicional contribui para montar o quebra-cabeça da saúde pré-colombiana.

A técnica refinada de análise de DNA antigo abre portas para investigações semelhantes em outras coleções de múmias. O campo da microbiologia arqueológica ganha um exemplo concreto de como surpresas surgem mesmo quando o foco inicial é diferente.