Desde que o WhatsApp introduziu a função de mensagens de voz em 2013, a ferramenta se tornou um fenômeno polarizador globalmente. Enquanto países como Índia, México e Emirados Árabes Unidos adotaram áudios como forma principal de comunicação, o Reino Unido permanece entre os mais céticos. Uma pesquisa do YouGov realizada em abril envolvendo mais de 2,3 mil adultos britânicos revelou que apenas 15% se comunicam por áudio com regularidade, o menor índice entre 17 nações estudadas.
A mesma instituição descobriu que o Reino Unido é o país mais reticente quanto aos áudios em seu grupo de pesquisa. Entre os entrevistados, 83% preferem mensagens de texto, enquanto apenas 4% se declaram adeptos das mensagens de voz. Homens, mulheres e até a geração Z britânica apresentam a mesma resistência, tornando o Reino Unido um outlier global.
O poder emocional da voz
Pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison conduziram um estudo em 2011 que pode explicar parte da fascinação mundial pelos áudios. Ao analisar crianças recebendo ligações telefônicas dos pais em comparação com mensagens de texto, descobriram algo notável: os níveis de cortisol (hormônio do estresse) diminuíram quando elas ouviam a voz dos pais, enquanto a oxitocina (hormônio do vínculo afetivo) aumentava significativamente.
O psicólogo Seth Pollak, um dos autores do estudo, afirma que valeria a pena repetir a pesquisa focando especificamente em mensagens de voz. Sua hipótese é que uma gravação pré-gravada provavelmente “terá menos impacto” emocional que uma ligação ao vivo. Paralelamente, Martin Graff, psicólogo da Universidade do Sul do País de Gales, pesquisa comunicação online e defende que áudios oferecem maior carga emocional. Segundo ele, esse fenômeno se baseia na “teoria da riqueza dos meios de comunicação” quanto mais elementos multimídia, maior a transmissão de emoção e redução de incerteza.
A função tornou-se tão popular que aplicativos de encontros como Bumble, Happn e Grindr a incorporaram nos últimos anos. Mas essa tendência global não conquistou o público britânico.
Cultura e reserva: o caso britânico
Jessica Ringrose, professora de sociologia do University College de Londres, oferece uma explicação cultural. Ela sugere que o estilo de comunicação britânico é mais reservado comparado a outras culturas. Mensagens de voz são mais atraentes “se você realmente gostar de falar e tiver esse componente comunicativo e até performático nos seus relacionamentos” traços menos comuns na cultura britânica, historicamente associada à contenção emocional.
Os próprios britânicos entrevistados revelam essa aversão. Ramya, residente no Reino Unido, explica: “Odeio as mensagens de voz porque são muito desequilibradas. Para quem envia, é fácil — só pressiona o botão. Mas quem recebe precisa prestar total atenção a uma mensagem de seis minutos sem saber se é sobre algo urgente ou apenas como foi o dia.”
Gyasi, um estagiário da geração Z, considera áudios “um pouco chatos”, principalmente porque requerem fones de ouvido. Daniela, 30 anos, complementa: “Elas me estressam um pouco, pois depois que você abre, é obrigado a ouvir até o fim.” Há exceções, como Josh Parry, especialista em temas LGBT da BBC, que envia áudios de até 15 minutos e defende sua utilidade prática. Naomi, designer e empresária, as usa quando tem as mãos ocupadas com crianças ou múltiplas tarefas.
A Índia e o domínio das mensagens de voz
O contraste é dramático na Índia. A pesquisa de 2024 do YouGov revelou que 48% dos indianos preferem mensagens de voz ou as gostam tanto quanto de texto, contra apenas 18% dos britânicos. A plataforma indiana do WhatsApp lançou recentemente um anúncio de nove minutos narrando a história de um casal em zona rural que se apaixonou através de áudios, refletindo a importância cultural da função no país.
Shreya, estudante universitária em Pune, Maharashtra, explica o motivo: seu grupo de amigos usa principalmente mensagens de voz “porque falamos muitos idiomas”. Ela alterna entre marati (língua materna) e inglês. Testou o teclado marati, mas achou “muito complicado”, sua avó é a única pessoa que conhece capaz de usá-lo. Namratha, 29 anos, moradora de Khargar perto de Mumbai, corrobora: “Como as pessoas falam diversos idiomas mas não sabem ler e escrever em todos, áudios facilitam. Posso saber seu idioma, mas você pode não ter conhecimento suficiente do meu para escrever.”
Shreya adiciona outra dimensão: áudios “transmitem melhor a expressão… por isso, quando se trata de contar fofocas, esperamos uma mensagem de voz”. A professora de sociologia Kathryn Hardy, da Universidade Ashoka de Sonipat, acredita ser “muito plausível” que áudios sejam particularmente populares entre comunidades rurais e regiões com menor alfabetização. Tecnologias que não exigem leitura e escrita se implantam “quase instantaneamente” nessas comunidades.
Idioma e eficiência
Rory Sutherland, colunista da revista The Spectator, oferece perspectiva linguística diferente sobre a resistência britânica. “Na verdade, temos um idioma bastante eficiente. Em inglês, não é preciso digitar 16 letras para pedir desculpas, o que torna a comunicação escrita mais atraente.” A brevidade inerente ao inglês escrito reduz a vantagem dos áudios no Reino Unido. Sutherland também levanta questão de cortesia: “Gravar uma mensagem de cinco minutos é falta de cortesia em relação a quem recebe.” Sua posição reflete a etiqueta britânica tradicional.
A diáspora global
Um fator frequentemente ignorado é o papel das grandes comunidades de migrantes. A Índia possui a maior diáspora do mundo, mais de 35 milhões de indianos residindo no exterior, com cerca de 2,5 milhões saindo do país anualmente. Mensagens de voz oferecem possibilidade assincrônica superior às ligações telefônicas, mas mais pessoal que mensagens de texto, ideal para famílias em diferentes fusos horários.
No México, 53% da população gosta de receber áudios. O país também possui grande comunidade no exterior, principalmente nos Estados Unidos. Hardy, norte-americana vivendo na Índia há quase uma década, usa mensagens de voz entre 10 a 20 vezes por semana com os filhos mantendo contato com avós nos EUA: “Suspeito que pelo menos parte desse uso seja intergeracional ou se deva às longas distâncias e grandes diferenças de horário.”
Sucesso brasileiro
Diferentemente do Reino Unido, o Brasil não apenas adotou mensagens de voz, liderou globalmente. Em junho de 2024, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, declarou que “os brasileiros enviam mais figurinhas, participam mais de enquetes e enviam quatro vezes mais mensagens de voz no WhatsApp do que qualquer outro país”, conforme reportado pelo G1.
A polarização em torno dessa simples função revela como tecnologia e cultura se entrelaçam. Enquanto alguns veem áudios como conexão humana essencial que transmite nuances emocionais impossíveis em texto, outros os percebem como intrusão desrespeitosa em sua rotina. Não há resposta universal, apenas preferências profundamente enraizadas em linguagem, geografia, história migratória e valores culturais. Como reflexão final: talvez num mundo cada vez mais distante, pequenas gravações de amigos mereçam ser consideradas tesouros digitais, independentemente de quanto tempo levem.

