Historiador Fernando Novais morre aos 93 anos em São Paulo

Fernando Novais - Foto: Reprodução/FFLCH

Fernando Novais - Foto: Reprodução/FFLCH

Fernando Antonio Novais, referência na historiografia nacional, faleceu aos 93 anos nesta quinta-feira (30) em São Paulo. Professor emérito da Universidade de São Paulo, ele redefiniu a compreensão sobre o sistema colonial português e sua relação com o Brasil, deixando legado que marcou gerações de pesquisadores e alunos.

Trajetória acadêmica que revolucionou a historiografia

Novais ingressou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP em 1961 como docente na cadeira de História Moderna e Contemporânea, permanecendo até 1986. Doutor em História pela instituição desde 1973, construiu carreira baseada em método rigoroso e reflexão conceitual profunda sobre as experiências humanas no passado.

Seu trabalho mais influente, “Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial”, apresentado como tese de doutorado, transformou-se em livro clássico da historiografia brasileira. A obra une análise econômica e política de forma inovadora, examinando as fases finais da política colonial portuguesa e oferecendo interpretação abrangente da dinâmica e crise do sistema colonial.

Em 14 de dezembro de 2006, foi reconhecido como o 38º Professor Emérito da FFLCH, consolidando sua posição entre os maiores nomes da história brasileira.

Produções intelectuais e contribuições metodológicas

Além de sua obra central, Novais coordenou a coleção “História da Vida Privada no Brasil” durante os anos 1990. Em 2005, lançou “Aproximações: estudos de história e historiografia”, trabalho que sintetizava sua experiência intelectual de décadas. Com colaborador Rogério Forastieri da Silva, publicou os volumes de “Nova História em perspectiva” (2011 e 2013), mantendo abordagem crítica sobre historiografia moderna.

Sua produção intelectual caracterizava-se por rigor metodológico e busca constante de compreensão ampla dos fenômenos históricos. Novais defendia que a história deveria aspirar à totalidade, ainda que reconhecesse essa aspiração como aproximação contínua.

Influência na formação de pesquisadores e na academia

Dedicou-se intensamente à formação de gerações de alunos e pesquisadores na USP. Conforme avaliação de Pedro Puntoni, também professor da instituição, Novais entendia a história como ofício guiado por rigor metodológico e reflexão conceitual, articulando dimensões emocionais e intelectuais das ações humanas no passado.

“Para ele a história deve ser total, mas isso é sempre uma aproximação. Ela nunca ‘é’ total, ela quer ser e procura, desta forma, articular e mediar as várias dimensões das ações dos homens e das mulheres no passado”, observa Puntoni.

Colaboração constante com a USP marcou sua vida profissional após aposentadoria. Lecionou no Instituto de Economia da Unicamp entre 1986 e 2003, expandindo influência para outras instituições. Mais recentemente, trabalhou na Facamp.

Papel na renovação do pensamento marxista brasileiro

No final dos anos 1950, Novais foi um dos articuladores do influente “Grupo do Capital”, também conhecido como Seminário Marx. Movimento que incluía intelectuais como José Arthur Giannotti e Fernando Henrique Cardoso inovava a leitura da obra de Karl Marx no Brasil, trazendo novas perspectivas para análise crítica e historiografia.

Essa atuação posicionou Novais entre os intelectuais que moldaram o pensamento acadêmico brasileiro do século XX, contribuindo para renovação teórica em múltiplas dimensões:

  • Redefinição da interpretação sobre o sistema colonial português
  • Inovação metodológica unindo análise econômica e política
  • Formação de espaços de reflexão crítica através de seminários e grupos de estudo
  • Publicações que se tornaram referência obrigatória na historiografia nacional
  • Expansão da história como campo de saber integrado às ciências humanas

Legado reconhecido pela instituição

A direção da FFLCH manifestou em nota oficial “imenso pesar e sentimento de solidariedade às e aos familiares e colegas”. Pedro Puntoni resumiu a importância de Novais além de sua produção bibliográfica: “Fará falta pela sua lucidez e contribuição à historiografia, mas sobretudo pela sua gentileza e generosidade”.

Novais deixa dois filhos, netos e bisnetos. Sua morte marca o encerramento de uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à pesquisa, ensino e construção de novo paradigma na compreensão da história brasileira.