O conflito entre EUA, Israel e Irã que eclodiu no fim de fevereiro abriu uma fenda nos mercados de câmbio globais. Enquanto alguns investidores buscavam segurança no dólar americano, as moedas de países emergentes sofreram pressão significativa. O real, a rupia indiana e a rupia indonésia despencaram em valor à medida que o petróleo subiu e a aversão ao risco tomou conta dos mercados.
Não foi apenas a escassez de combustível que afetou esses países. A interrupção do transporte comercial no Estreito de Ormuz elevou os preços do petróleo, amplificou a inflação e forçou saídas de capital dos mercados emergentes. Economistas apontam que essas flutuações cambiais podem tanto amplificar quanto amortecer o impacto do encarecimento do barril.
Queda acentuada no Brasil, Índia e Indonésia
Países importadores de energia sofreram os maiores impactos. Índia, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Egito viram suas moedas perderem valor rapidamente. Na Índia, a rupia caiu cerca de 5% em relação ao dólar desde o início da guerra, atingindo mínimas recordes. A moeda indiana já enfraquecia antes do conflito; o confronto apenas intensificou a tendência.
A razão é simples: quando investidores transferem dinheiro para dólares, a demanda por moedas locais cai. Isso encarece as importações, afeta o custo de pagamento de dívidas externas e pressiona os preços de alimentos e itens cotidianos. O fenômeno se agrava porque o petróleo e outras commodities são cotados em dólares.
Bancos centrais responderam com ações de emergência. O Banco da Indonésia vendeu repetidas vezes suas reservas de dólares para comprar a rupia e aumentar a demanda pela moeda. Elevou também as taxas de juros, o que aumenta retornos sobre economias, mas onera empréstimos e prestações imobiliárias.
Volatilidade extrema em África do Sul, Colômbia, Chile e México
Um segundo grupo de moedas experimentou oscilações selvagens. Esses países reagem com intensidade ao humor do mercado global: enfraquecem quando investidores fogem para portos seguros, mas se recuperam rapidamente quando os preços das commodities sobem ou o apetite por risco retorna.
Alguns exportadores de energia, porém, se saíram melhor. Brasil e Malásia se beneficiaram parcialmente dos preços mais altos do petróleo, que aumentaram receitas de exportação e sustentaram o interesse de investidores. Bancos como Goldman Sachs e Bank of America destacaram forte demanda por títulos do governo brasileiro e ações de empresas em abril.
O Goldman Sachs apontou o Brasil como sua principal escolha de mercado emergente naquele período. Porém, a economia brasileira enfrenta desafios complexos. A subida do petróleo pode aumentar a inflação, atrasando cortes nas taxas de juros e afetando fluxos de capital. O Brasil importa produtos refinados como gasolina e diesel, elevando custos internos. Somado a isto, a incerteza política antes da eleição presidencial de outubro afeta a confiança cambial.
Moedas que resistiram: china, Rússia e o porto seguro do dólar
Nem todas as moedas caíram. O yuan chinês permaneceu relativamente estável, sustentado por controles de capital rigorosos e intervenções do banco central que limitam flutuações bruscas. Restrições à entrada e saída de dinheiro do país e administração direta da taxa de câmbio amorteceram choques externos.
O rublo russo emergiu como uma das moedas de melhor desempenho frente ao dólar. Altas receitas de energia, combinadas com controles de capital rígidos, protegeram a moeda. A Rússia exige que exportadores convertam lucros estrangeiros em rublos e restringe fluxos de capital para fora.
Moedas tradicionalmente consideradas portos seguros se fortaleceram no início da crise. O dólar americano e o franco suíço atingiram picos antes de recuarem. O iene japonês, porém, não se comportou como refúgio: enfraqueceu porque o Japão depende muito de energia importada.
Os dólares canadense e australiano se beneficiaram de preços mais fortes de commodities que seus países exportam — petróleo bruto, gás, metais, minério de ferro e carvão. O dólar australiano manteve menor volatilidade por ser economias desarrolladas com exportações diversificadas. Euro e libra esterlina sofreram surtos de volatilidade impulsionados por preocupações com custos de energia, inflação persistente e desaceleração do crescimento europeu.
Cenários para os próximos meses
Economistas destacam que o dólar enfraqueceu desde os ataques aéreos iniciais ao Irã. Um dólar mais fraco normalmente significa condições monetárias mais fáceis, maior espaço para cortes nas taxas de juros em países em desenvolvimento e menor aversão ao risco — tudo favorável aos mercados emergentes.
Contudo, o FMI alertou em abril que interrupções contínuas estão empurrando a economia global para um cenário “adverso” combinando crescimento fraco com inflação mais alta. Nesse quadro, o crescimento global pode cair para 2,5% com inflação de 5,4%, em comparação com a previsão de 3,1% com 4,4%.
O fundo prevê também um cenário mais severo onde o crescimento cai para 2% e a inflação ultrapassa 6%. Atualizações nas projeções do FMI estão previstas para julho.
- Países mais atingidos: Índia (rupia caiu 5%), Indonésia, Filipinas, Tailândia, Egito
- Moedas com melhor desempenho: Yuan chinês, rublo russo, dólar canadense, dólar australiano
- Impactos diretos: Encarecimento de importações, aumento de inflação, pressão em dívidas externas, custos maiores de energia
- Respostas de bancos centrais: Elevação de taxas de juros, venda de reservas em dólar, intervenção direta no câmbio
- Cenários de risco do FMI: Crescimento de 2,5% a 2% com inflação de 5,4% a 6%+

