Há 37 anos, em 1987, Elisa Lucinda chegava ao Rio de Janeiro vinda de Vitória, Espírito Santo, para iniciar uma trajetória artística marcada por poesia e atuação. Agora, a multiartista retorna aos palcos da cidade com um espetáculo que celebra não apenas sua arte, mas um reencontro amoroso surpreendente.
O show “Ensaio para uma ideia, o improviso da griô”, que aconteceu no domingo no Manouche, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, trouxe Elisa Lucinda ao lado de Glaucus Linx, músico e seu namorado, com quem teve um relacionamento breve há quatro décadas. A apresentação musical-poética rememorou os primeiros anos da artista na capital carioca, quando mostrava seu trabalho em diversos bares.
Reencontro após quatro décadas
O relacionamento de Elisa Lucinda com Glaucus Linx foi resgatado no ano passado, 40 anos depois do primeiro encontro no Rio de Janeiro. Segundo a artista, eles tiveram um breve, mas marcante, namoro na juventude, antes de Glaucus se mudar para a França e, posteriormente, retornar ao Brasil já casado. Elisa também havia construído sua vida e se envolvido em outros compromissos amorosos nesse ínterim.
Lucinda, de 68 anos, relata o reencontro como uma reconexão movida pelo amor. Ela menciona, em tom de brincadeira, que Glaucus é dois anos mais jovem que ela, um contraste com seu relacionamento anterior com o fotógrafo Jonathan Estrella, 31 anos mais novo. A atriz destaca a importância da autonomia emocional e a irrelevância do etarismo, afirmando que o tesão está ligado à disposição e à atenção ao “fogo da vida”, independentemente da idade. Seu atual companheiro, Glaucus, a acompanha no palco com seu saxofone, enriquecendo a performance poética-musical.
Carreira multifacetada de Elisa Lucinda
Formada em Jornalismo em Vitória, Elisa Lucinda mudou-se para o Rio com o objetivo de ser notícia, não de noticiar. Sua jornada artística começou de forma singular, declamando poemas de cor com um megafone na Praia de Ipanema, ainda em 1987, aos 28 anos. Esse dom de recitar poesia desde os 11 anos chamava a atenção e a diferenciava no cenário cultural carioca.
A poesia, conforme Lucinda, abriu as portas para sua carreira em diversas áreas, atuando como um “pistolão” para a televisão. Ela se apresentava em horários alternativos, conhecendo e fazendo amizades com grandes nomes da cultura brasileira. Sua trajetória profissional inclui inúmeras contribuições e reconhecimentos:
- 24 livros publicados
- 27 trabalhos no teatro
- 26 produções na TV
- 27 participações no cinema
- 5 prêmios no currículo
- Aproximadamente mil poemas decorados
Foi convidada pela diretora Tizuka Yamazaki para “Kananga do Japão” (1989) e por Manoel Carlos para “Mulheres apaixonadas” (2003), marcando sua entrada definitiva no cenário televisivo brasileiro, onde consolidou sua imagem como atriz e escritora de destaque.
“Ensaio para uma ideia” no Manouche
O espetáculo “Ensaio para uma ideia, o improviso da griô” é um retorno de Elisa Lucinda às suas origens artísticas no Rio de Janeiro. A apresentação no Manouche, conhecido por seu clima intimista, revisita os primeiros anos da artista na cidade, quando levava seus shows poético-musicais a bares e estabelecimentos culturais.
Este evento é uma celebração de sua jornada, mesclando memórias de suas apresentações de meia-noite — um horário que a conectou a figuras como Beth Carvalho, Martinho da Vila e Paulo José — com a poesia que a impulsionou. A presença de Glaucus Linx ao saxofone adiciona uma camada pessoal e musical à performance, reforçando a temática do reencontro e da continuidade do amor e da arte.
Amizades na ficção e na vida real
Atualmente, Elisa Lucinda está no ar na novela “Coração acelerado”, interpretando Zuleica Trindade, mais conhecida como Zuzu. Na trama das sete, Zuzu é melhor amiga e sócia de Janete, personagem de Leticia Spiller, e madrinha de Agrado, vivida por Isadora Cruz. A novela retrata um amor maduro para sua personagem, que engatou um relacionamento com o fazendeiro Alaor, interpretado por Marcos Caruso.
A amizade entre Elisa Lucinda e Leticia Spiller ultrapassou as telas da ficção. As duas atrizes cultivam uma relação próxima nos bastidores, onde conversam sobre diversos temas, incluindo amor e sexo. Elas, juntamente com Isadora Cruz, criaram um grupo de WhatsApp denominado “As Bruxas de Goiás”, que posteriormente teve a adesão de Cleo.
Visão sobre dignidade e amor maduro
Elisa Lucinda reflete sobre sua trajetória e os desafios enfrentados como “mulher preta, com bundão e olhos verdes”. Ela recorda as dificuldades e assédios sofridos ao chegar ao Rio com a ambição de ser atriz e poeta. Questionada sobre a viabilidade de ser reconhecida com poesia em um país que, segundo críticos, “não lê”, ela sempre respondeu: “Eu leio para o Brasil!”.
A artista expressa orgulho em sua trajetória, afirmando ter alcançado tudo por “caminhos muito dignos” e se autodenominando “Independente Futebol Clube”. Sua perspectiva sobre o amor maduro e o etarismo desafia convenções, defendendo que a paixão e o chamego são atemporais e não se limitam a padrões de idade, reforçando sua autonomia e vivacidade.

