Estudo da biologia de Maria Branyas aos 117 anos revela dualidade entre envelhecimento e saúde

Maria Branyas com o Dr. Manel Esteller - Instituto de Pesquisa da Leucemia Josep Carreras

Maria Branyas com o Dr. Manel Esteller - Instituto de Pesquisa da Leucemia Josep Carreras

Um estudo inédito sobre a pessoa mais velha do mundo com idade comprovada, Maria Branyas, foi publicado detalhando sua biologia de forma incomum. Cientistas analisaram diversas amostras da supercentenária para compreender como ela atingiu os 117 anos e 168 dias. A pesquisa sugere que o envelhecimento extremo e a saúde precária nem sempre são inseparáveis em nível molecular, desafiando concepções tradicionais sobre a velhice.

Maria Branyas vivenciou eventos históricos significativos como duas guerras mundiais, a pandemia de gripe de 1918, a Guerra Civil Espanhola e a COVID-19. Ela faleceu em 2024 como a supercentenária com a idade mais longa já verificada, um marco para a ciência da longevidade. O trabalho, liderado pelo Dr. Manel Esteller, chefe do Grupo de Epigenética do Câncer do Instituto de Pesquisa em Leucemia Josep Carreras, representa o estudo mais abrangente já realizado em um indivíduo de idade tão avançada, fornecendo dados cruciais para a área.

Análise multiômica detalha aspectos da longevidade

A equipe de cientistas utilizou amostras minimamente invasivas de sangue, saliva, urina e fezes de Maria Branyas para o estudo. Foram analisados seis aspectos biológicos: genoma, proteoma, epigenoma, metaboloma, transcriptoma e microbioma. Esta abordagem multiômica permitiu uma visão sem precedentes da complexa biologia de uma pessoa com longevidade extrema, oferecendo dados concretos para a compreensão aprofundada do processo de envelhecimento.

O estudo, coordenado por Esteller e liderado por Eloy Santos, foi publicado na prestigiada revista Cell Reports Medicine, alcançando a comunidade científica global. Sua principal descoberta apontou para uma “dualidade fascinante” na biologia de Branyas, conforme afirmou o Dr. Manel Esteller. Ela apresentava sinais de envelhecimento extremo e, ao mesmo tempo, características de longevidade saudável, uma combinação rara. Essa coexistência desafia concepções anteriores sobre o declínio inevitável da saúde em idades avançadas, propondo que mecanismos de resiliência podem operar simultaneamente com os processos de senescência.

A pesquisa fornece uma base sólida para futuras investigações sobre os mecanismos moleculares da longevidade humana. A profundidade da análise permitiu identificar biomarcadores e padrões que podem ser cruciais para o desenvolvimento de estratégias para um envelhecimento mais saudável e ativo. Isso inclui a possibilidade de novas terapias ou intervenções que visem replicar as características protetoras observadas, contribuindo para aumentar a expectativa de vida com qualidade.

Sinais de envelhecimento avançado e resiliência

Maria Branyas exibia telômeros muito curtos, estruturas protetoras nas extremidades dos cromossomos, frequentemente associadas ao envelhecimento celular. Seu sistema imunológico mostrava características pró-inflamatórias, um marcador comum em idades avançadas. Além disso, uma população envelhecida de linfócitos B e hematopoiese clonal foram identificadas, condições relacionadas à idade nas quais as células-tronco sanguíneas adquirem mutações. Essas alterações são frequentemente associadas a riscos aumentados de leucemia, síndromes mielodisplásicas, doenças cardiovasculares e outras patologias graves, indicando um envelhecimento biológico pronunciado.

Contudo, apesar desses marcadores claros de idade avançada, Maria Branyas não desenvolveu câncer, demência ou doenças cardiovasculares graves. Este contraste marcante sugere que o envelhecimento e a manifestação de doenças graves podem, por vezes, ser dissociados em nível molecular, oferecendo uma nova perspectiva. Os pesquisadores destacam essa dissociação como uma das mensagens mais significativas do estudo, sublinhando a capacidade do corpo de mitigar ou evitar as consequências mais deletérias do envelhecimento.

As análises revelaram que, apesar dos marcadores de idade avançada, seu corpo possuía mecanismos de proteção internos. Esses mecanismos podem ter conferido uma resiliência excepcional contra as patologias comuns da velhice, permitindo-lhe viver com uma qualidade de vida surpreendente para sua idade. A compreensão desses fatores protetores é fundamental para avançar na pesquisa sobre o envelhecimento saudável e na busca por intervenções que possam estender a vida de forma plena.

Características biológicas protetoras e o papel da dieta

Cientistas identificaram variantes genéticas raras no genoma de Maria Branyas. Essas variantes estavam ligadas à saúde imunológica, à saúde cerebral e à proteção cardíaca. Elas também estavam associadas à função mitocondrial eficiente, componentes cruciais para a vitalidade celular e sistêmica.

O perfil sanguíneo de Branyas indicou um metabolismo lipídico excepcionalmente eficiente. Foram observados níveis muito baixos de colesterol VLDL e triglicerídeos, indicadores de risco cardiovascular. Seus níveis de colesterol HDL, conhecido como colesterol “bom”, estavam elevados, um fator protetor.

A supercentenária também apresentava níveis excepcionalmente baixos de inflamação em seu organismo. A inflamação crônica é amplamente considerada um fator determinante de diversas doenças relacionadas à idade, desde problemas cardíacos a neurodegenerativos.

  • O microbioma intestinal de Branyas revelou altos níveis da bactéria benéfica Bifidobacterium.
  • Bifidobacterium é associada a efeitos anti-inflamatórios e metabolismo saudável.
  • Essas bactérias geralmente diminuem com a idade, mas foram encontradas em níveis elevados em alguns centenários e supercentenários estudados.
  • Maria Branyas consumia aproximadamente três iogurtes por dia nos últimos 20 anos de sua vida.
  • Este hábito alimentar pode ter contribuído para a notável saúde de sua microbiota intestinal, embora o estudo não possa comprovar uma relação direta de causa e efeito.

Idade biológica inferior à cronológica surpreende cientistas

O resultado mais surpreendente do estudo veio da análise aprofundada do epigenoma de Branyas. O epigenoma é uma camada química que ajuda a regular a atividade dos genes, influenciando como o DNA é expresso. Relógios epigenéticos utilizam padrões de metilação do DNA para estimar a idade biológica de uma pessoa, que frequentemente difere da idade cronológica.

Em diversos tecidos e utilizando vários métodos de análise do relógio biológico, a idade biológica de Maria Branyas pareceu ser significativamente menor que sua idade cronológica. Uma análise específica encontrou uma diferença de mais de 23 anos, um achado notável para a ciência. Isso sugere que suas células “sentiam” ou “se comportavam” como células mais jovens do que o esperado para sua idade real, conforme apontado pelos autores do estudo.

Essa descoberta reforça a ideia de que a idade cronológica não define completamente o estado de saúde e envelhecimento de um indivíduo. A pesquisa abre novos caminhos para entender como certas pessoas podem manter a vitalidade celular e a funcionalidade orgânica por mais tempo. O epigenoma surge como um campo promissor para identificar os mecanismos que promovem um envelhecimento saudável, com potencial para o desenvolvimento de intervenções terapêuticas.

Implicações e futuras pesquisas sobre longevidade

Os pesquisadores alertam que a biologia de uma única pessoa não pode oferecer uma fórmula universal para viver mais de 110 anos. A longevidade extrema provavelmente depende de uma combinação rara e complexa de fatores genéticos, escolhas de estilo de vida, ambiente e puro acaso. No entanto, Maria Branyas oferece um exemplo excepcionalmente claro de um corpo que, apesar de apresentar as marcas do envelhecimento extremo, conseguiu evitar muitas de suas consequências mais danosas, servindo como um modelo de estudo.

As descobertas do estudo sugerem novos biomarcadores para um envelhecimento saudável, que podem ser identificados e monitorados em outros indivíduos. Elas também apontam para potenciais estratégias e alvos moleculares para aumentar a expectativa de vida humana com qualidade. O estudo é um passo importante na compreensão da complexa biologia do envelhecimento, publicado como “O modelo multiômico do indivíduo com a expectativa de vida mais extrema” por Eloy Santos-Pujol e outros, em 24 de setembro de 2025, na Cell Reports Medicine.

A pesquisa não apenas documenta um caso excepcional, mas também estabelece uma base para a identificação de mecanismos subjacentes à resiliência na velhice. Futuros estudos poderão aprofundar esses achados, explorando intervenções que possam replicar algumas dessas características protetoras em outros indivíduos, visando uma vida mais longa e com maior qualidade. A análise multiômica de supercentenários oferece uma janela única para os segredos da longevidade extrema.

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