Uma expedição científica registrou dezenas de espécies potencialmente desconhecidas pela ciência no planalto de Lisima, no leste de Angola. O levantamento ocorreu em fevereiro e foi liderado pelo The Wilderness Project. Uma aranha-caranguejo-coroada que fluoresce em azul sob luz ultravioleta chamou atenção especial. Os motivos da fluorescência ainda são desconhecidos.
O planalto de Lisima integra as terras altas angolanas e alimenta as nascentes de grandes sistemas fluviais como Congo, Okavango, Zambeze e Cuanza. A região permaneceu pouco explorada por causa de sua geografia de difícil acesso e do impacto de uma guerra civil que durou até 2002. O trabalho recente complementa esforços anteriores do National Geographic Okavango Wilderness Project.
Aranha fluorescente intriga cientistas
A aranha-caranguejo-coroada destaca-se entre os achados. Ela emite brilho azul sob luz ultravioleta, mas os pesquisadores ainda não identificaram a função dessa característica. A espécie integra um grupo de invertebrados documentados durante o levantamento. Outra aranha tecedeira imita a aparência de uma joaninha tóxica para afastar predadores.
Especialistas da equipe de 16 pessoas trabalharam em condições desafiadoras na estação chuvosa. Veículos atolaram na lama e a equipe lidou com avarias mecânicas e casos de malária. Mesmo assim, os cientistas aproveitaram os atrasos para explorar áreas úmidas próximas.
- Aranha-caranguejo-coroada com fluorescência azul
- Aranha tecedeira que imita joaninha
- Solífugo diurno que também fluoresce
- Grilo capaz de auto-hemorragia para defesa
- Percevejo com patas que simulam folhas
Levantamento registra libélulas e gafanhotos inéditos
A expedição documentou 103 espécies de libélulas e libelúrias, com oito consideradas inéditas para a ciência. Três espécies de gafanhotos, esperanças e grilos também aparecem como potenciais novidades. Cerca de 60 traças e borboletas somam-se ao total de achados.
O Atlas da Vida em Cassai produziu a imagem mais detalhada já obtida do planalto. Rob Taylor, líder da expedição, descreveu o trabalho como um privilégio. Ele destacou a dificuldade logística, mas ressaltou o aproveitamento científico mesmo durante os contratempos.
Cobra-verde e víbora-gabão entre registros notáveis
A cobra-verde-de-olhos-grandes, rara em Angola, recebeu novo registro fora do norte do país. Quando ameaçada, ela infla a garganta para intimidar. A víbora-gabão, com presas de até cinco centímetros, também foi encontrada. É a espécie com as presas mais longas entre serpentes venenosas.
Uma mosca-morcego parasita, que vive na pelagem de morcegos e se alimenta de sangue, integrou os registros. Lagartas do gênero Erikssonia, que mantêm relação simbiótica com formigas, chamaram atenção pela interação ecológica.
Escaravelhos e louva-a-deus mostram diversidade
Um escaravelho-da-fruta africano gigante, com chifres bifurcados, foi fotografado ao lado de um entomologista. A espécie pode alcançar o tamanho da palma da mão. Louva-a-deus gigante de cabeça cônica e outra flor-espinhosa reforçam a riqueza de insetos predadores no local.
O planalto abriga pastagens, pântanos e bosques. Esses habitats sustentam interações complexas entre espécies. Alguns organismos usam camuflagem extrema, enquanto outros exploram defesas químicas ou comportamentais.
Proteção da área ganha urgência
O isolamento geográfico ajudou a preservar Lisima até agora. No entanto, ameaças como mineração, incêndios e mudanças no uso do solo preocupam os pesquisadores. Em 2025, 5,4 milhões de hectares foram reconhecidos em iniciativas de conservação. A área recebeu designação Ramsar como zona úmida de importância internacional.
Especialistas indicam que espécies com distribuição restrita correm maior risco. Libélulas dependem da qualidade da água doce, enquanto algumas borboletas precisam de plantas hospedeiras específicas. A organização defende proteção mais forte para manter os habitats intactos.
O processo de descrição formal das espécies pode levar meses ou anos. Enquanto isso, o material coletado alimenta bancos de dados e estudos futuros sobre biodiversidade africana.
Contexto regional de biodiversidade
As terras altas de Angola formam um ponto cego histórico na cartografia científica do continente. Expedições anteriores já haviam registrado elefantes geneticamente distintos na região. O trabalho atual amplia o conhecimento sobre invertebrados, que representam a maior parte da diversidade animal.
A expedição reuniu especialistas africanos e internacionais. Nicky Bay, fotógrafo associado ao projeto, registrou as imagens que ilustram os achados. Os dados reforçam a importância de continuar os levantamentos em áreas remotas.
- Importância hídrica para quatro grandes bacias
- Histórico de subdocumentação científica
- Impacto da guerra civil no acesso
- Parcerias com projetos de conservação
- Potencial para mais descobertas

