Copa do Mundo 2026 começa sob tensões geopolíticas e estreia de regras rígidas contra cera

Troféu da Copa do Mundo FIFA de 2026

Troféu da Copa do Mundo FIFA de 2026 - Djem/ shutterstock.com

A 23ª Copa do Mundo começa nesta quinta-feira consolidando marcos inéditos no futebol. O torneio apresenta um recorde absoluto no número de equipes participantes, quantidade de países anfitriões, volume de partidas e dias programados no calendário, além de implementar alterações na dinâmica de arbitragem e enfrentar um panorama de fortes fricções diplomáticas nos bastidores. A solenidade de abertura e o confronto inicial entre México e África do Sul contam com cobertura ao vivo a partir das 14h (horário de Brasília) no sportv, Globoplay e ge tv, enquanto a transmissão na TV Globo se inicia às 14h30.

Sediada de forma conjunta por Canadá, Estados Unidos e México, a competição internacional congrega 48 federações nacionais pela primeira vez. Os plantéis esportivos somam 1.248 atletas inscritos, considerando que cada uma das delegações pôde convocar até 26 jogadores para compor seus grupos.

Essa reestruturação é a mais profunda realizada pela Fifa desde a edição de 1998, período em que o torneio se fixou em 32 concorrentes. A ampliação do formato elevou a tabela para 104 confrontos — superando os 64 duelos vigentes até 2022 — e estendeu o calendário para 39 dias de atividades, ultrapassando o recorde anterior de 33 dias. O estágio eliminatório ganhou uma fase prévia às oitavas de final, na qual os dois líderes das 12 chaves originais e os oito melhores terceiros colocados gerais se classificam para os 16-avos de final.

A infraestrutura conta com 16 arenas esportivas distribuídas em 16 municípios da América do Norte. O planejamento logístico concentrou 11 praças esportivas em território norte-americano, três em solo mexicano e duas em estádios canadenses.

O protocolo de abertura e a primeira partida da tabela ocorrem no tradicional Estádio Azteca, que se isola na história como o único monumento do futebol a abrigar três aberturas de Copas do Mundo, repetindo os feitos de 1970 e 1986. A disputa que apontará o campeão mundial está agendada para o dia 19 de julho, no MetLife Stadium, situado em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

Cerimônias de abertura

O cronograma oficial indica que as festividades inaugurais começam às 14h30 (de Brasília), exatamente uma hora e meia antes de a bola rolar para México e África do Sul, cujo pontapé inicial ocorre às 16h.

O espetáculo musical terá como principais atrações Shakira e Burna Boy, encarregados de interpretar “Dai Dai”, declarada a canção oficial da Copa do Mundo de 2026. A programação no Estádio Azteca também projeta intervenções artísticas de Alejandro Fernández, Belinda, Danny Ocean e J Balvin.

Devido à pulverização territorial do evento, Canadá e Estados Unidos também organizaram shows inaugurais próprios para anteceder as respectivas estreias locais. Em Toronto, a lista de atrações reúne nomes como Michael Bublé e Alanis Morissette, enquanto a festa em Los Angeles será encabeçada por Katy Perry e terá uma performance da cantora brasileira Anitta.

No entanto, o clima na Cidade do México é de instabilidade devido a mobilizações populares agendadas. Movimentos sociais, associações sindicais e entidades ligadas aos direitos humanos organizam marchas rumo às imediações do Estádio Azteca para dar visibilidade a reivindicações internas. O bloco de maior peso é composto por professores da rede pública, que mantêm um impasse com a administração federal mexicana por mudanças no sistema de previdência e pela implementação de reformas educacionais.

Cálculos dos veículos de comunicação locais apontam que cerca de 5 mil manifestantes se deslocaram até a capital mexicana com o objetivo de realizar protestos no dia do início do torneio.

Tensões políticas

As divergências ideológicas ultrapassam as fronteiras mexicanas e atingem uma escala global com reflexos diretos na geopolítica internacional, impulsionados sobretudo por medidas adotadas em Washington. O torneio ocorre em meio a um cenário crítico: os Estados Unidos, um dos organizadores do evento, encontram-se em estado de conflito bélico ativo contra outra nação participante, após darem início, em parceria com Israel, a uma incursão militar contra o Irã em fevereiro deste ano.

A confirmação da equipe asiática na competição foi cercada de incertezas, potencializada por declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, que classificou a presença dos atletas iranianos como inadequada para a preservação de suas próprias vidas e segurança.

Por questões operacionais, a delegação do Irã montou sua base de treinamentos e hospedagem na cidade de Tijuana, no México, embora seus compromissos esportivos estejam agendados para os gramados dos Estados Unidos. O grupo só tem permissão para cruzar a fronteira terrestre na véspera de cada partida, necessitando retornar imediatamente ao território mexicano após o término dos jogos.

As restrições consulares impostas pelo governo americano resultaram na rejeição de vistos de entrada para 15 integrantes da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), incluindo o mandatário da entidade, Mehdi Taj, além dos responsáveis pelas diretorias executiva e técnica, e dos profissionais de análise estatística. A FFIRI também comunicou formalmente que os Estados Unidos invalidaram o lote de ingressos reservado aos torcedores iranianos. Diante disso, o Irã notificou a Fifa que ordenou seus atletas a abandonarem o campo caso ocorram manifestações políticas contra o país durante as partidas.

Embora o comitê iraniano concentre os maiores entraves, outros participantes têm enfrentado barreiras rigorosas nos postos de controle alfandegários norte-americanos.

A administração dos Estados Unidos barrou a entrada de Omar Abdulkadir Artan, da Somália, considerado o principal árbitro do continente africano; reteve o jogador iraquiano Aymen Hussein para um interrogatório de sete horas no desembarque internacional; e adotou protocolos de revista severos nas bagagens das delegações, com o emprego ostensivo de cães farejadores.

Novas regras

No âmbito desportivo, a Copa do Mundo serve como plataforma de lançamento para novas diretrizes do futebol internacional, promovendo a descentralização do árbitro de vídeo (VAR) e estipulando punições severas para condutas de antijogo.

O escopo de atuação do VAR foi ampliado e agora vai além de checagens de gols, penalidades, cartões vermelhos diretos ou equívocos na identificação de atletas. A partir desta edição, a tecnologia pode intervir para corrigir cartões amarelos aplicados de forma errônea que resultem em expulsão, bem como ajustar a marcação incorreta de escanteios que deveriam ser assinalados como tiros de meta.

Com o objetivo expresso de coibir a retenção deliberada do tempo e ampliar o período de bola em movimento, foram fixadas as seguintes determinações cronometradas:

  • Cobranças de arremesso lateral devem ocorrer em até 5 segundos, com contagem visual feita pelo árbitro; o descumprimento gera a reversão da posse para a equipe adversária.
  • Tiros de meta precisam ser executados no limite de 5 segundos, também monitorados pelo juiz; a infração resulta em escanteio a favor do time oponente.
  • Substituições de atletas têm teto de 10 segundos para acontecer, exceto em casos óbvios de lesões graves; se o tempo for estourado, o jogador sai, mas o substituto é retido na linha lateral por 60 segundos, deixando o time temporariamente com dez em campo.
  • Atendimentos médicos em campo geram afastamento obrigatório: o profissional que necessitar de suporte médico deve ser retirado e aguardar 1 minuto fora das quatro linhas antes de receber autorização de retorno.
  • Fica terminantemente proibida a aproximação de jogadores junto aos bancos de reservas durante o período de atendimento médico aos goleiros.

No plano disciplinar, o regulamento dita a aplicação direta de cartão vermelho para o jogador que ocultar a boca com as mãos, braços ou uniforme durante discussões com rivais, e para qualquer atleta ou membro do corpo técnico que se retire do gramado como forma de repúdio a resoluções da arbitragem.

Seleções participantes

  • América do Norte (Concacaf e sedes): Canadá, Estados Unidos, México, Curaçao, Haiti e Panamá;
  • América do Sul (Conmebol): Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Paraguay e Uruguai;
  • Europa (Uefa): Alemanha, Áustria, Bélgica, Bósnia, Croácia, Escócia, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Noruega, Portugal, República Tcheca, Suécia, Suíça e Turquia;
  • África (CAF): África do Sul, Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Egito, Gana, Marrocos, República Democrática do Congo, Senegal e Tunísia;
  • Ásia (AFC): Arábia Saudita, Austrália, Catar, Coreia do Sul, Irã, Iraque, Japão, Jordânia e Uzbequistão;
  • Oceania (OFC): Nova Zelândia.

Favoritas

Detentora do título de 2018 e finalista em 2022, a França desponta como uma das principais forças técnicas do torneio, sustentada por um grupo de atletas renomados sob o comando de Mbappé, Dembélé e Olise. A Espanha, impulsionada pelo talento precoce de Lamine Yamal, entra na disputa credenciada pelo título da Eurocopa de 2024 e pela vice-liderança do ranking mundial de seleções.

A Argentina inicia sua campanha posicionada no topo do ranking da Fifa, mantendo a estrutura tática que faturou a Copa do Mundo de 2022 e a Copa América de 2024, tendo como principal referência Messi, consolidado como um dos maiores expoentes do futebol daquele país.

A Seleção Brasileira não chega cotada na primeira linha de favoritismo devido a oscilações recentes em seu desempenho técnico. Contudo, na condição de única dona de cinco títulos mundiais, segue como uma força tradicional na disputa pelo troféu.

De olho no hexa

Sob a direção do técnico italiano Carlo Ancelotti, que faz sua estreia comandando uma equipe nacional, o Brasil tenta alcançar seu sexto título mundial, somando-se aos triunfos obtidos em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. A equipe nacional carrega um intervalo de 24 anos sem erguer a taça e figura atualmente na sexta colocação do ranking da Fifa, posicionada abaixo de Argentina, Espanha, França, Inglaterra e Portugal.

O Brasil integra o Grupo C e faz sua estreia diante de Marrocos neste sábado, às 19h (de Brasília). Na sequência da primeira fase, mede forças com o Haiti no dia 19, às 21h30, e encerra a etapa de grupos contra a Escócia no dia 24, às 19h.

Garantindo a classificação nas duas primeiras posições da chave, o elenco brasileiro cruzará com um classificado do Grupo F, que conta com Holanda, Japão, Suécia e Tunísia. Caso avance como um dos melhores terceiros colocados, o emparelhamento colocará o time diante do líder das chaves A, E ou I.

Despedidas

A Copa do Mundo de 2026 deve marcar o encerramento da trajetória em mundiais de duas figuras históricas do esporte contemporâneo: o português Cristiano Ronaldo e o argentino Messi.

Listado para sua quarta participação em Copas, Neymar também vivencia seu último ciclo no torneio, destino compartilhado pelo sul-coreano Son Heung-min, pelo arqueiro alemão Manuel Neuer, pelo goleiro mexicano Guillermo Ochoa e pelo meio-campista croata Luka Modrić.

Craques em ascensão

Em contrapartida ao encerramento de ciclos, o torneio abre espaço para o surgimento de novas promessas internacionais. O atacante espanhol Lamine Yamal, de 18 anos, desponta como a jovem estrela de maior projeção entre os estreantes.

O setor ofensivo da França apresenta Désiré Doué, de 20 anos, cercado de forte expectativa técnica, enquanto o Brasil aposta no atacante Endrick, de 19 anos, como sua principal joia nesta edição. O atleta de menor idade inscrito na competição pertence aos donos da casa: o meio-campista Gilberto Mora, de 17 anos, apontado como a principal revelação do México e alvo de monitoramento de agremiações do futebol europeu.

Preços dos ingressos

A organização do evento tem enfrentado contestações públicas em decorrência dos altos valores estipulados para as entradas, cenário que resultou em um ritmo de comercialização abaixo das projeções oficiais e deixou milhares de assentos disponíveis mesmo na data de abertura. O presidente americano, Donald Trump, manifestou-se criticamente sobre a precificação, afirmando que não desembolsaria os valores cobrados pelos bilhetes.

O valor médio estipulado para os ingressos do confronto final se aproxima de US$ 13 mil, o equivalente a cerca de R$ 65 mil na cotação atual.

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