Agachamento profundo: como dominar o movimento ancestral pode prevenir quedas e impulsionar a longevidade

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agachamento exercicio - T.Vyc / shutterstock.com

Em diversos países da Ásia, incluindo China e Japão, a posição de cócoras faz parte integrante da rotina diária das pessoas. Indivíduos confortavelmente mantêm essa postura com calcanhares firmes no chão enquanto esperam transportes, interagem com amigos ou até mesmo durante refeições.

Frequentemente, vídeos de turistas tentando replicar esse tipo de agachamento viralizam nas redes sociais, mostrando muitos deles perdendo o equilíbrio, caindo para trás ou para os lados, ou necessitando de apoio externo para se manterem de pé. Especialistas em movimento corporal enfatizam que o crescente interesse por essa posição está intrinsecamente ligado a uma questão de saúde mais ampla: a relevância de preservar a mobilidade à medida que envelhecemos.

Isso levanta uma indagação crucial: por que algumas pessoas executam o agachamento profundo com facilidade, enquanto outras encontram dificuldades até para se manterem nessa posição?

A importância do agachamento profundo para o bem-estar diário e a longevidade

O agachamento é universalmente reconhecido como um dos pilares do movimento humano. “É praticamente impossível viver um dia sem realizar alguma forma de agachamento”, explica Christopher Powers, professor da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, cuja pesquisa se concentra na relação entre padrões de movimento e lesões nos joelhos. Ele aponta que essa ação está presente em tarefas como sentar-se, sair de veículos, utilizar o sanitário ou simplesmente alcançar um objeto no chão.

Embora o agachamento convencional seja amplamente conhecido em ambientes de treino, onde se flexiona os joelhos até as coxas ficarem paralelas ao solo, existe uma variação mais profunda. O agachamento completo, muitas vezes denominado “asiático”, se distingue por levar o corpo a uma flexão máxima dos joelhos, que permanecem apontados para fora, com os pés ligeiramente afastados, o tronco alinhado e a parte posterior das coxas repousando sobre as panturrilhas.

Matt Hsu, treinador americano e fundador da Upright Health, especializada em mobilidade e força, alcançou milhões de visualizações com seus vídeos sobre o agachamento profundo, mas ressalta que o termo “asiático” pode ser um equívoco. “Pessoas da África, dos países eslavos e do Leste Europeu reivindicam essa posição como sua”, comenta Hsu, enfatizando que “na verdade, esse agachamento é um patrimônio universal”.

A postura de cócoras também possui relevância histórica no Brasil. O clássico da literatura “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, publicado em 1902, ilustra o agachamento como um hábito enraizado entre os habitantes do sertão. O autor descreve que, ao parar por qualquer motivo simples – seja para preparar um cigarro ou conversar –, o sertanejo “cai logo de cócoras”, mantendo-se por um tempo considerável em equilíbrio instável, com o peso do corpo sobre os calcanhares e apoiado nos dedos dos pés, em uma pose ao mesmo tempo peculiar e cativante.

Fisioterapeutas apontam que o agachamento completo demanda uma ampla mobilidade de quadris, joelhos e tornozelos, ativando um número maior de grupos musculares em comparação com a versão mais superficial. Pesquisas sugerem que essa amplitude de movimento contribui para o aumento da flexibilidade, alívio de dores lombares e a manutenção da autonomia nas atividades diárias por toda a vida.

Fatores que levam à perda da capacidade de agachar profundamente na vida adulta

Crianças frequentemente assumem essa postura de forma inata, com aparente facilidade. Tal habilidade deve-se, em parte, à maior maleabilidade das articulações e às distinções nas proporções corporais em comparação com os adultos. Contudo, as alterações anatômicas não são a única causa para a perda progressiva da capacidade de realizar um agachamento profundo na vida adulta.

Hábitos de vida majoritariamente sedentários, com o uso predominante de cadeiras e sanitários elevados, resultam em poucas oportunidades para a maioria dos adultos se agachar profundamente no cotidiano, levando, com o passar do tempo, à diminuição da mobilidade e da força física. “Aquilo que não é utilizado, é perdido”, adverte Powers, da Universidade do Sul da Califórnia, sobre a mobilidade.

Hábitos culturais que favorecem o agachamento profundo em algumas sociedades

Tais transformações nos padrões de vida são menos acentuadas em certas regiões da Ásia, como o Japão, onde ações rotineiras, como refeições em restaurantes, ainda demandam a postura agachada. “É necessário entrar, remover os sapatos, agachar-se até o tatame e só então sentar para comer”, detalha Hsu, da Upright Health.

Mesmo tarefas mais elementares da vida diária dependem diretamente da força nos quadris e pernas. Hsu acrescenta que “em certas localidades asiáticas, ainda se encontram sanitários que exigem a postura agachada, e o uso diário desse tipo de instalação garante a manutenção da capacidade de agachar”. Em uma entrevista de 40 minutos à BBC, Hsu demonstrou a posição de agachamento profundo por longos períodos, com poucas interrupções.

Para ele, a relevância de tais movimentos foi particularmente salientada por uma experiência pessoal de sua família. “Meu pai caiu e necessitou de uma ambulância para ser socorrido da calçada, pois não tinha mais a capacidade de se levantar por conta própria”, relata, destacando a importância da mobilidade para prevenir acidentes e preservar a autonomia, um ponto crucial para a saúde na terceira idade.

Apesar de sua origem asiática, Hsu revela que perdeu a capacidade de agachar profundamente na casa dos 20 anos, após períodos prolongados de sedentarismo durante a recuperação de lesões esportivas. “Eu não conseguia nem mesmo tocar meus tornozelos, de tão rígido que meu corpo havia ficado”, recorda. Ele precisou de um novo treinamento para readquirir o movimento, afirmando que a habilidade de realizar um agachamento profundo é, como qualquer outra aptidão física, passível de ser aprendida.

Práticas seguras para desenvolver o agachamento completo

Para aqueles interessados em aprender o agachamento profundo, Hsu aconselha cautela para não sobrecarregar o corpo. “É desaconselhável tentar descer rapidamente até o chão, pois isso pode levar a lesões”, alerta o especialista. Hsu sugere uma progressão gradual, utilizando apoios como cadeiras ou bancadas, e descendo apenas até um ponto confortável. “Com algumas repetições diárias ao longo de semanas, você notará uma melhora, ganhando confiança para avançar a cada tentativa”, prevê.

O processo de reaprendizagem do agachamento profundo, contudo, apresenta maiores desafios à medida que a idade avança. “Com o envelhecimento, ocorre uma redução da mobilidade nas articulações, na coluna, nos quadris e, notavelmente, nos tornozelos”, explica Powers, da Universidade do Sul da Califórnia, adicionando que “isso restringe ainda mais a capacidade de realizar esse tipo específico de agachamento”.

Pesquisadores confirmam que agachamentos, em qualquer grau de profundidade, proporcionam benefícios. Contudo, Powers adverte que o agachamento profundo não deve ser visto como um objetivo aplicável a todos, especialmente para indivíduos com dores preexistentes nos joelhos, quadris ou coluna. Em contextos clínicos, os exercícios de agachamento são usualmente personalizados, levando em consideração o biotipo, histórico de saúde, lesões e metas individuais de cada paciente.

“Embora muitos afirmem haver uma maneira perfeita de executar o movimento, a realidade é outra”, declara Powers, salientando que “cada indivíduo possui suas particularidades”. Indivíduos com fêmures mais extensos, mobilidade restrita nos tornozelos ou variações na estrutura do quadril podem enfrentar maiores desafios para manter o equilíbrio e alcançar um agachamento mais profundo, independentemente de seu nível de condicionamento. Para alguns fisioterapeutas, a verdadeira meta não reside em aproximar os quadris do solo, mas sim em assegurar a capacidade de movimento independente por toda a existência.

Atualmente, a ciência ainda carece de estudos conclusivos que atestem os efeitos e benefícios a longo prazo da prática diária e prolongada do agachamento profundo. Hsu esclarece que sua meta não é a perfeição, mas sim a reaquisição de um movimento que o modo de vida contemporâneo pode ter suprimido ao longo do tempo. “Minha própria experiência me ensina que é essencial ter domínio sobre o corpo, ser capaz de levantar-se e enfrentar a força da gravidade com autonomia”, conclui.

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