ANPD abre fiscalização contra Discord por suspeitas de falhas graves na proteção digital de jovens e crianças

ANPD vai fiscalizar Discord para apurar falhas na proteção de crianças e adolescentes

ANPD vai fiscalizar Discord para apurar falhas na proteção de crianças e adolescentes Crédito: ANPD vai fiscalizar Discord para apurar falhas na proteção de crianças e adolescentes

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) iniciou um processo de fiscalização formal contra a plataforma de comunicação Discord, buscando apurar possíveis descumprimentos de uma série de deveres estabelecidos pelo Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital). A legislação, que entrou em vigor em março de 2026, impõe novas obrigações às empresas de tecnologia para garantir um ambiente online mais seguro para os menores de 18 anos. A medida da ANPD sublinha a crescente preocupação das autoridades com a segurança digital de crianças e adolescentes no Brasil.

Foco da investigação e o ECA Digital

A apuração da ANPD se concentra em diversas áreas críticas onde o Discord pode ter falhado em proteger seus usuários mais jovens. Entre os pontos centrais está a implementação de mecanismos eficazes para prevenir a exposição, recomendação ou facilitação de contato de menores com conteúdos que incitem ou auxiliem a automutilação e o suicídio, uma exigência explícita do Artigo 6º, inciso III, do ECA Digital. A lei busca criar barreiras robustas contra esse tipo de material sensível, que pode ter consequências devastadoras para a saúde mental dos jovens.

Além disso, a agência investiga a ausência ou ineficácia de sistemas de aferição de idade, fundamentais para a aplicação de restrições adequadas a cada faixa etária, conforme previsto nos Artigos 10 e 17 da mesma legislação. A capacidade de uma plataforma de verificar a idade de seus usuários é crucial para impedir que crianças e adolescentes acessem conteúdos impróprios ou sejam expostos a riscos não condizentes com sua maturidade.

Medidas exigidas e possíveis infrações

O processo de fiscalização da ANPD aborda um conjunto abrangente de obrigações que as plataformas digitais devem cumprir para salvaguardar crianças e adolescentes. As infrações sob investigação não se limitam apenas à prevenção de conteúdos nocivos e à verificação de idade, mas também se estendem à resposta da plataforma diante de violações já ocorridas. A conformidade com o ECA Digital é vital para o funcionamento de qualquer serviço digital que tenha usuários menores de idade.

A agência busca esclarecer se o Discord cumpriu os deveres de remoção de conteúdo violador, conforme determinado pelo Artigo 29 do estatuto, e se comunicou adequadamente às autoridades competentes sobre as infrações graves detectadas, uma obrigação estabelecida no Artigo 28. A agilidade e a eficácia na remoção de materiais inadequados e na notificação às autoridades são elementos essenciais para mitigar danos e permitir a atuação dos órgãos de proteção. A ANPD espera que as plataformas demonstrem proatividade e responsabilidade na gestão de seus ambientes.

Os pontos específicos sob análise incluem:

  • Falhas na prevenção e mitigação de riscos de exposição a conteúdos de indução, incitação, instigação ou auxílio à automutilação e ao suicídio.
  • Inexistência ou deficiência de mecanismos efetivos para aferição da idade dos usuários.
  • Descumprimento dos deveres de remoção de conteúdo que viole os direitos de crianças e adolescentes.
  • Ausência de comunicação às autoridades competentes sobre violações graves identificadas na plataforma.

Prazos e sanções administrativas

No âmbito do processo administrativo instaurado, o Discord terá um prazo de cinco dias úteis para apresentar à ANPD todas as informações e detalhes sobre os mecanismos que possui para prevenir e combater violações graves contra crianças e adolescentes em sua plataforma. Esta etapa é crucial para que a agência avalie a conformidade das ações da empresa com as exigências legais. A transparência e a cooperação da plataforma são fundamentais para o andamento da investigação e para a tomada de decisões futuras.

Caso a fiscalização constate irregularidades ou falhas no cumprimento das obrigações, a ANPD tem autonomia para determinar uma série de medidas corretivas, visando adequar a plataforma às normas do ECA Digital. Além das exigências de correção, a agência poderá aplicar sanções administrativas severas, conforme previsto no Artigo 35 da nova legislação. As penalidades incluem multas que podem atingir até R$ 50 milhões por infração constatada, evidenciando a seriedade com que o governo brasileiro trata a proteção de dados e a segurança digital dos jovens.

Atuação conjunta com outras autoridades

A fiscalização administrativa conduzida pela ANPD complementa a atuação de outros órgãos públicos que já investigam o uso da plataforma Discord para atividades criminosas. A Polícia Civil e o Ciberlab da Secretaria Nacional de Segurança Pública, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), estão investigando um grupo criminoso suspeito de instigar o suicídio e a automutilação por meio da plataforma. Esta investigação criminal ganhou urgência após o trágico falecimento de uma adolescente, ocorrido em 22 de julho, que teria sido vítima de tais instigações.

A coordenação entre a ANPD e as forças de segurança demonstra a abordagem multifacetada do Estado para combater crimes e violações no ambiente digital. Enquanto a ANPD foca na responsabilidade das plataformas em termos de proteção de dados e cumprimento da legislação, as autoridades policiais atuam na identificação e punição dos criminosos. O caso ressalta a importância de um ecossistema digital seguro e a necessidade de que as plataformas colaborem ativamente com as investigações para proteger seus usuários e prevenir futuras tragédias.