O Brasil registrou 24 casos de sarampo em 7 de agosto de 2026, com 23 ocorrências no Estado de São Paulo, conforme dados da Secretaria Estadual da Saúde. O aumento representa sete diagnósticos a mais em apenas quatro dias, somando-se a um caso também confirmado no Rio de Janeiro.
A secretaria informou que duas dessas infecções tiveram origem fora do país, enquanto as restantes estão vinculadas à entrada do vírus no território nacional. No entanto, a origem exata da contaminação para todos os pacientes ainda não foi completamente identificada.
Esse cenário de elevação de casos no Brasil coincide com um crescimento da doença em diversas nações das Américas. As autoridades de saúde dos Estados Unidos, por exemplo, reportaram o maior surto da enfermidade em 35 anos.
Especialistas atribuem essa retomada da circulação do vírus à diminuição nas taxas de vacinação, um problema agravado pelo avanço de movimentos anti-vacina e pela disseminação de notícias falsas. Como o sarampo pode ser reintroduzido por pessoas que viajam, regiões com baixa imunização populacional tornam-se suscetíveis a novas ocorrências.
Diante desse quadro, o governo brasileiro intensificou as campanhas de imunização. Nos municípios de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, a recomendação atual é disponibilizar a vacina contra o sarampo para indivíduos entre seis meses e 59 anos, sem considerar o histórico de doses prévias, visando frear possíveis focos de contágio.
Embora o alerta esteja ativo, especialistas indicam que a condição no Brasil difere significativamente de outras nações que registram milhares de infectados.
Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirmou que “quatro dígitos de casos é bem diferente”. Ela complementou que o país “ainda neste momento, não estamos em risco de perder o certificado” de eliminação do sarampo.
Conforme a especialista, a capacidade de identificar e rastrear as novas ocorrências demonstra a eficácia da vigilância epidemiológica.
“Os casos foram identificados, rastreados, feito o bloqueio. Mas é um sinal de alerta”, disse Flávia Bravo.
O Brasil havia reconquistado em 2024 o reconhecimento de nação sem circulação endêmica do sarampo.
Para Bravo, a conjuntura demanda cautela, já que o vírus segue ativo em nações como Estados Unidos, México e Canadá, e a elevação das viagens internacionais contribui para a introdução de novos casos.
A diretora acrescentou que é “um sinal de alerta, sobretudo quando a gente tem exatamente essa situação: retorno de férias e retorno dos brasileiros que foram para a Copa do Mundo, que aconteceu exatamente nos países onde a gente tem mais número de casos”.
Ela observou que os casos registrados foram rastreados e estão sob contenção, mas enfatizou a necessidade de o Brasil aproveitar esta fase para ampliar as taxas de cobertura vacinal.
“A única maneira de bloquear o sarampo é com alta cobertura. É com vacinação”, concluiu Bravo.
Entenda por que a infecção por sarampo apresenta riscos graves à saúde
O sarampo é uma doença causada por vírus e tem alto poder de contágio.
De acordo com o Ministério da Saúde, um indivíduo infectado é capaz de transmitir o vírus para até 90% das pessoas ao seu redor que não possuem imunidade.
A proliferação ocorre por via aérea, quando uma pessoa portadora do vírus tosse, espirra, conversa ou simplesmente respira.
Adicionalmente, a transmissão pode ocorrer antes mesmo do surgimento das manchas típicas da doença. O período de contágio se estende desde seis dias antes até quatro dias após as lesões cutâneas aparecerem.
Os sinais mais comuns da enfermidade incluem febre elevada e erupções vermelhas na pele. Tosse seca, irritação ocular e sensação de mal-estar intenso também podem se manifestar.
As manchas tipicamente surgem inicialmente no rosto e atrás das orelhas, espalhando-se posteriormente para o restante do corpo.
No entanto, Flávia Bravo enfatiza que o sarampo não é uma doença branda, que se limita a causar febre e manchas.
A infecção normalmente se inicia com sintomas como dor de cabeça, olhos lacrimejantes, secreção nasal e febre alta. Contudo, o vírus pode não se restringir apenas às vias respiratórias e à pele.
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“Ele tem potencial para atingir o sistema nervoso e causar danos também ao pulmão e a outros órgãos”, explicou a diretora da SBIm.
Entre as complicações potenciais da doença estão a pneumonia e a encefalite, que é uma inflamação do cérebro.
O Ministério da Saúde calcula que aproximadamente uma a cada 20 crianças diagnosticadas com sarampo desenvolva pneumonia. A encefalite aguda pode surgir em uma a cada mil, a quatro a cada mil casos.
Outro aspecto da infecção que gera preocupação entre os especialistas é o efeito temporário nas defesas do corpo, resultando em uma supressão do sistema imunológico.
Durante e após a manifestação do sarampo, o indivíduo torna-se mais suscetível a contrair outras infecções.
“Não são incomuns complicações como pneumonia bacteriana junto com o sarampo, por exemplo. É uma doença de criança, mas não é uma doença boba. Pode levar para a cama por muitos dias, com muitos dias de febre e risco de complicações. A complicação é mais frequente nas crianças, mas pode atingir qualquer idade”, pontuou Bravo.
A necessidade de uma nova vacinação contra o sarampo
A determinação de doses adicionais da vacina é influenciada pela idade, pelo histórico de imunização e pela localização geográfica do indivíduo.
No esquema vacinal convencional, a proteção é administrada em duas etapas: a primeira dose aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de vida.
A imunização mais empregada é a vacina tríplice viral, que confere proteção contra sarampo, caxumba e rubéola.
Para adolescentes e adultos que não foram imunizados ou possuem o esquema incompleto, a recomendação é iniciar ou finalizar as duas doses, seguindo a orientação de um profissional de saúde.
Contudo, devido aos casos recentes, as cidades de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo implementaram, de forma temporária, uma estratégia mais abrangente. Nesses locais, a população entre seis meses e 59 anos está sendo convocada para a vacinação, sem levar em conta o histórico de doses anteriores.
O objetivo é aumentar rapidamente o percentual de pessoas protegidas e, assim, dificultar a continuidade da transmissão do vírus.
Flávia Bravo esclareceu que ações de imunização como essa operam sob uma lógica distinta da vacinação habitual.
“Quando a gente implanta uma vacinação independentemente de histórico vacinal para toda a população-alvo definida, você facilita o cumprimento dessa campanha e aumenta as coberturas vacinais num período curto de tempo”, afirmou a diretora.
Isso significa que, nas áreas e grupos estabelecidos pela campanha, não é preciso interromper o processo para verificar quantas doses cada indivíduo recebeu anteriormente.
“Campanha é campanha. É todo mundo vacinando num curto período de tempo”, disse.
Nas demais localidades, a recomendação permanece sendo a de verificar se o esquema vacinal previsto no Calendário Nacional de Vacinação está completo.
Dúvidas sobre a vacinação: o que fazer se não souber seu histórico
A orientação de Flávia Bravo é que as pessoas busquem um posto de vacinação.
“Não sabe se vacinou, não tem comprovação, acha que vacinou, mas não tem certeza? Procura uma sala de vacinação”, aconselhou a especialista.
Segundo a médica, é fundamental analisar não apenas se houve alguma imunização anterior, mas também se as doses aplicadas são válidas de acordo com o protocolo vigente.
As estratégias de saúde pública para combater o sarampo no Brasil passaram por diversas alterações ao longo das décadas.
Antigamente, com a alta incidência da doença em bebês, a vacina chegava a ser administrada antes do primeiro ano de vida.
Após o controle da enfermidade, a primeira dose foi estabelecida para os 12 meses, período em que a eficácia da vacina é superior.
Por essa razão, Bravo esclarece que alguns adultos podem ter um registro de imunização, mas terem recebido a dose antes de completar um ano de vida.
Conforme a diretora, para que um indivíduo seja considerado protegido por duas doses, elas devem ter sido aplicadas a partir de um ano de idade e respeitar o intervalo mínimo recomendado.
“Temos adultos que podem até estar vacinados e ter a comprovação, mas foram vacinados antes de um ano de idade”, detalhou.
A recomendação de imunização pode mudar conforme a idade e o cenário epidemiológico, por isso o Ministério da Saúde aconselha levar a caderneta de vacinação ou outro comprovante a uma unidade de saúde para avaliação.
Imunização para bebês abaixo de um ano
Geralmente, a primeira dose da vacina contra o sarampo é aplicada aos 12 meses de idade, de acordo com o calendário padrão.
Contudo, em situações de risco elevado, crianças com idade entre seis e 11 meses podem receber uma dose extra, conhecida como “dose zero”.
Essa medida está sendo implementada atualmente nas cidades de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo.
A “dose zero” é um reforço e não substitui as doses regulares que a criança deve receber aos 12 e aos 15 meses.
Flávia Bravo explicou que essa estratégia é crucial devido ao registro de casos de sarampo em bebês que ainda não haviam atingido a idade para a primeira dose do calendário regular.
Quem já se vacinou ainda pode contrair sarampo?
Nenhuma vacina oferece proteção total, mas a imunização diminui consideravelmente o risco individual e, com uma alta cobertura, impede que o vírus encontre indivíduos vulneráveis para se espalhar.
Nos casos recentes examinados pela especialista, a maioria dos pacientes com dados acessíveis não havia sido vacinada ou possuía o esquema vacinal incompleto.
Entre as crianças que contraíram a doença, havia também bebês que ainda não tinham idade para receber a imunização de rotina.
Por essa razão, uma cobertura vacinal ampla é vital não só para quem recebe a dose, mas também para aqueles que não podem ser imunizados ou apresentam maior risco de desenvolver complicações.
“Toda a população vacinada vai proteger também aqueles que têm contraindicação para a vacina ou são mais frágeis, os imunodeprimidos, os pacientes com doenças graves que podem evoluir mal se a gente transmitir sarampo para eles”, declarou Flávia Bravo.
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Fatores por trás do ressurgimento do sarampo
Para que o vírus mantenha uma transmissão contínua, ele precisa encontrar indivíduos sem imunidade.
Desse modo, a taxa de cobertura vacinal é vista como essencial para prevenir o retorno da doença.
Flávia Bravo informou que as taxas de imunização no Brasil iniciaram um declínio por volta de 2015 e 2016, piorando significativamente durante a pandemia de covid-19.
A especialista relacionou essa queda tanto à dificuldade de acesso aos serviços de saúde quanto à diminuição da confiança nas vacinas e à disseminação de informações incorretas.
No entanto, nos anos recentes, as coberturas vacinais apresentaram uma recuperação gradual.
O Ministério da Saúde também reportou uma melhora nos índices de vacinação infantil. Informações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Unicef, divulgadas em julho, indicam que o total de crianças brasileiras que não receberam a primeira dose da vacina pentavalente diminuiu de 360 mil em 2023 para 50 mil em 2025.
Para Bravo, contudo, considerar apenas a média nacional pode mascarar a questão central. A especialista considera que a falta de uniformidade é o mais preocupante, pois há municípios com alta cobertura e outros com percentuais reduzidos de pessoas imunizadas.
Esse aspecto é relevante para o sarampo, visto que, para evitar a propagação de um vírus introduzido, é imprescindível atingir uma alta cobertura em todas as regiões.
As autoridades de saúde estabelecem uma meta de, no mínimo, 95% de cobertura para o sarampo.
Adicionalmente, uma boa cobertura da primeira dose não é suficiente se um grande número de pessoas não finalizar o esquema vacinal.
“Para garantir realmente esse efeito de proteção de rebanho, para que, se o vírus chegar, ele não consiga se espalhar, a gente tem que ter o esquema completo”, explicou Bravo.
A reintrodução do vírus do sarampo no território brasileiro
A reintrodução do sarampo no país ocorre por meio de indivíduos infectados no exterior.
Embora haja distinções genéticas mínimas entre os vírus isolados em diferentes partes do globo — as quais auxiliam epidemiologistas a traçar sua origem —, Flávia Bravo observa que o sarampo não é um vírus que necessita de mutações constantes para driblar a imunização, como acontece com outros patógenos.
“O vírus tem diferenças genéticas, e o estudo genético permite observar de onde eles vieram. Mas não tem mudança. É diferente da covid, é diferente de gripe”, afirmou.
Em certas situações, é possível estabelecer uma conexão direta com viagens internacionais. No entanto, em outras, a fonte original da infecção permanece desconhecida.
A problemática surge quando um indivíduo infectado chega a uma comunidade onde existem pessoas com imunidade insuficiente.
“Ele veio de fora, mas está disseminando ali no círculo dele”, exemplificou a especialista.
Por essa razão, ocorrências importadas podem ser registradas mesmo em nações que erradicaram a circulação endêmica do sarampo.
O que define se a situação será contida rapidamente ou se resultará em uma nova cadeia de transmissão é, predominantemente, a quantidade de pessoas imunizadas que o vírus encontra em seu percurso.
Risco de o Brasil perder novamente a certificação de país sem sarampo
Os 23 casos registrados em São Paulo não implicam que o Brasil tenha perdido ou esteja prestes a perder sua certificação.
A questão principal reside em determinar se o vírus começará a circular de maneira sustentada dentro do território nacional.
Flávia Bravo esclarece que casos identificados, com vínculos epidemiológicos e controlados pelas equipes de vigilância, indicam um estado de alerta, mas não resultam na perda automática do status de eliminação.
A preocupação se intensificaria se surgissem diversas ocorrências sem conexão epidemiológica conhecida, o que apontaria para a circulação comunitária do vírus sem a possibilidade de rastrear suas cadeias de contágio.
“Um caso, por exemplo, que apareça em algum lugar onde não teve contato com essas pessoas já adoecidas e que transmite para outras pessoas. Essas são situações de circulação autóctone”, detalhou.
Foi esse padrão de circulação que levou o Brasil a perder sua certificação anteriormente.
“Começaram a aparecer vários casos sem link epidemiológico, com transmissão nas comunidades. E aí a gente perdeu”, lembrou.
Atualmente, conforme a especialista, a situação é distinta.
“É alerta: olha lá, você pode perder. Contenha a sua situação específica epidemiológica. E vamos torcer para que a gente consiga. O trabalho está sendo feito”, disse Bravo.
O sarampo como uma doença que parecia restrita a relatos históricos
Gabriele Rodrigues Oliveira, residente de Porto Alegre com 49 anos, foi diagnosticada com sarampo aos 21, em um caso que surpreendeu até mesmo a equipe médica.
O ano era 1998 e o Brasil vivenciava uma fase de significativa diminuição dos casos, impulsionada por campanhas de vacinação que visavam eliminar a circulação endêmica do vírus. Apesar de surtos pontuais em algumas áreas, Gabriele sentia que a doença estava longe de seu dia a dia.
“Tudo que se conhecia sobre o sarampo na época vinha dos livros de ciência na escola e de histórias das pessoas mais velhas das famílias. Não se conhecia na prática, praticamente não se convivia com pessoas com esse tipo de doença”, relatou Gabriele.
O ano de 1998 também foi marcado por um evento que impactou a confiança nas vacinas. Naquele período, a revista The Lancet veiculou um estudo do médico britânico Andrew Wakefield, que insinuava uma ligação entre a vacina tríplice viral — que protege contra sarampo, caxumba e rubéola — e o autismo.
A pesquisa foi posteriormente desmascarada como fraudulenta. O artigo foi retirado da revista, Wakefield teve seu registro profissional cassado no Reino Unido, e diversas análises realizadas desde então não identificaram qualquer conexão entre a vacina e o autismo.
Contudo, o episódio é visto como um marco que impulsionou o movimento antivacina em várias nações e ainda é usado por grupos que espalham desinformação sobre imunizantes.
O quadro de Gabriele não apresentou complicações sérias ou sequelas. Após o diagnóstico, a principal recomendação foi o isolamento, tanto para impedir a disseminação do vírus quanto para reduzir o risco de outras infecções durante a convalescença.
Cerca de três décadas mais tarde, o ressurgimento do sarampo nas manchetes atraiu sua atenção.
“As pessoas com certeza ainda subestimam o sarampo, tanto por não terem acompanhado ninguém contaminado de perto como por não terem a real dimensão de como a doença pode evoluir para manifestações mais graves”, observou.
Campanha nacional de multivacinação segue até setembro
O Ministério da Saúde lançou em 7 de agosto de 2026 uma campanha nacional de multivacinação direcionada a crianças e adolescentes com menos de 15 anos.
A iniciativa se estenderá até 1º de setembro e incluirá um “Dia D” nacional em 22 de agosto.
No total, 20 tipos de imunizantes previstos no Calendário Nacional de Vacinação estarão disponíveis durante a campanha, variando conforme a idade e o histórico vacinal de cada pessoa.
O ministério informou que 1,5 milhão de doses foram enviadas aos Estados especificamente para esta campanha. Em todo o ano de 2026, mais de 177 milhões de doses de diversas vacinas já haviam sido distribuídas para os Estados e o Distrito Federal.
Em relação ao sarampo, mais de 7,2 milhões de doses da tríplice viral foram distribuídas em 2026, com aproximadamente 2,9 milhões já aplicadas até o momento do anúncio da campanha.
O Estado de São Paulo recebeu 3,2 milhões de doses para intensificar seu abastecimento.
“Estamos recuperando a cobertura vacinal, mas sempre temos que manter isso atualizado”, disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao divulgar a campanha.
Para Flávia Bravo, as novas ocorrências ilustram o que acontece quando uma doença sai do dia a dia e a população reduz a atenção dedicada à vacinação.
“Essa é a comprovação viva do que acontece quando a gente se desarma, deixa de se preocupar e deixa de seguir as recomendações de vacinação”, ela comentou.
O alerta, conforme Bravo, não deve se restringir apenas aos municípios que registraram casos.
“Em relação ao sarampo, é um apelo para o Brasil todo. Não é só para onde estão acontecendo esses casos. Todo brasileiro tem que se preocupar com isso”, finalizou.

