Um estudo recente aponta que uma tonelada de telefones celulares antigos armazena uma quantidade de ouro superior à encontrada na mesma massa de minério extraído de jazidas comerciais. Dentro de cada dispositivo, há vestígios de ouro, prata e cobre em concentrações tão elevadas que o processo de reciclagem desses itens descartados se mostra mais produtivo em termos de obtenção de metais preciosos por tonelada do que a mineração convencional.
De acordo com um levantamento conjunto divulgado em 2019 pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Fórum Econômico Mundial e a Coalizão de Lixo Eletrônico da ONU, o descarte global de eletrônicos possui aproximadamente cem vezes mais ouro por tonelada se comparado ao minério típico de uma mina moderna. Cerca de sete por cento do ouro em circulação no planeta está contido em aparelhos eletrônicos descartados, sugerindo que o “depósito mineral” mais valioso por perto pode não estar no subsolo, mas em uma gaveta comum, em um telefone esquecido por anos.
A métrica crucial para entender essa diferença é o teor de minério, que representa a quantidade de metal-alvo presente em cada tonelada de material bruto antes do processamento. Uma tonelada de resíduo eletrônico acumulado contém cerca de 140 gramas de ouro, conforme o relatório de 2019.
Em contraste, uma mina moderna, seguindo os padrões da indústria de produção mundial, produz entre cinco e vinte gramas de ouro por tonelada de minério. Qualquer teor acima de cinco gramas já é considerado economicamente viável. Essa disparidade é significativa: o lixo eletrônico supera em até 28 vezes a concentração de ouro encontrada em operações de mineração convencionais.
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Embora um celular moderno contenha apenas entre 25 e 50 miligramas de ouro, além de pequenas porções de prata, paládio, platina e cobre, concentrados principalmente nas placas de circuito impresso para garantir conexões elétricas duráveis, o valor do ouro de um único aparelho é mínimo, variando de um a dois dólares. Por essa razão, a extração individual não é viável.
O foco principal não está no valor por unidade, mas no valor por tonelada processada. Neste ponto, a perspectiva se inverte, e o que antes era chamado de reciclagem de lixo eletrônico agora é conhecido como mineração urbana pela indústria especializada. Este valioso “depósito” está em instalações na Bélgica ou centros de triagem na Suécia, e não a centenas de metros de profundidade em minas tradicionais.
Valor total de metais preciosos em equipamentos eletrônicos descartados
A edição de 2024 do Monitor Global de Lixo Eletrônico, resultado de uma colaboração entre o Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa e a União Internacional de Telecomunicações, apontou que aproximadamente 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos foram geradas em 2022. Os metais contidos nessa enorme massa foram avaliados em cerca de US$ 91 bilhões, considerando os preços daquele ano.
Do montante total, US$ 15 bilhões correspondiam exclusivamente ao ouro, com mais US$ 19 bilhões em cobre e US$ 16 bilhões em ferro. Em qualquer período do ano, o conjunto das gavetas em todo o mundo armazena um valor mineral puro equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) anual de uma pequena nação.
Esse grande estoque é composto por celulares, laptops, tablets, monitores e uma variedade de outros itens da vida moderna. A maioria desses dispositivos não funciona adequadamente para ser usada, não possui valor de revenda considerável, e frequentemente não são descartados de maneira apropriada.
Desafios para a mineração de lixo eletrônico no mundo
Cerca de 22% do lixo eletrônico global é coletado e processado formalmente a cada ano, segundo o relatório da ONU. Os 78% restantes acabam em aterros, são incinerados, processados em operações informais em regiões de baixa renda, enviados ilegalmente através de fronteiras, ou, na maioria das vezes, permanecem esquecidos em gavetas.
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O valor estimado de recursos naturais recuperáveis que não foram aproveitados apenas do fluxo de lixo eletrônico de 2022 alcançou aproximadamente US$ 62 bilhões. Dois fatores principais explicam por que esse valioso “depósito” não está sendo adequadamente explorado.
A primeira dificuldade reside na complexidade da coleta. Diferente do minério de ouro, que se concentra em um único local, o lixo eletrônico está espalhado em bilhões de residências, em inúmeros formatos físicos, e produzido por centenas de empresas com milhares de designs distintos. Para extrair o ouro de um telefone, ele precisa sair da gaveta e chegar a uma instalação de reciclagem, e cada fase dessa logística implica custos que uma mina tradicional não enfrenta, já que o minério não precisa ser “persuadido” a aparecer.
A segunda razão é a necessidade de processamento em escala industrial. Embora o processo químico seja bem conhecido, ele requer infraestrutura de grande porte que poucas empresas globalmente possuem. As operações formais de mineração urbana capazes de recuperar ouro comercialmente estão localizadas em centros especializados na Bélgica, Alemanha, Suécia, Japão e outras jurisdições, gerenciadas por empresas como Umicore, Aurubis e Boliden. Contudo, essas instalações conseguem processar apenas uma pequena parte do volume anual de lixo eletrônico global.
O restante é recuperado no setor informal, por meio de métodos prejudiciais ao meio ambiente e à saúde, como banhos de ácido e queima a céu aberto, principalmente na África Ocidental e no sul da Ásia, ou simplesmente não é recuperado.
O dilema dos recursos valiosos que não são reaproveitados
A partir dos dados coletados nas últimas duas décadas sobre o monitoramento de lixo eletrônico, surge um dos fenômenos mais intrigantes da economia global moderna. O “depósito” de ouro mais rico do planeta, medido pela concentração, é atualmente o estoque acumulado de eletrônicos sem uso guardados em residências e pequenos negócios em todos os países desenvolvidos.
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A indústria de recuperação de ouro é existente, funcional, quimicamente compreendida e lucrativa. No entanto, sua capacidade é insuficiente para processar mais do que uma fração mínima do material disponível. O volume de lixo eletrônico continua crescendo mais rápido do que a capacidade da indústria, já que as pessoas continuam comprando novos aparelhos, e os antigos permanecem em seus lugares, sem destino adequado.
A percepção, que pode parecer contraintuitiva, revelada por pesquisas recentes em ciência de materiais e gestão de resíduos, vale a pena ser refletida no cotidiano. Provavelmente, em sua própria casa, existe uma pilha de dispositivos eletrônicos sem uso que, se uma mineradora moderna pudesse processar, seria considerada um dos mais ricos depósitos de minério. A razão pela qual essa riqueza não é explorada não é a ausência de ouro, mas sim a “gaveta fechada”, a natureza anônima do depósito e a inércia coletiva em não resolver a situação, o que, conforme a ONU, representa um dos maiores e mais silenciosos problemas de má gestão de recursos do século XXI.

