Pintura achada em bazar pode atingir US$ 250 mil em leilão

Dólar, dinheiro

Dólar, dinheiro - Ruslan Lytvyn/shutterstock.com

A pintura a óleo Alderman Merriam’s Shells, criada em 1951 pela artista norte-americana Gertrude Abercrombie e comprada por US$ 30 em um bazar beneficente no estado de Michigan, vai a leilão em 1º de outubro com lance estimado em até US$ 250 mil. O valor inicial pago pela peça equivale a cerca de R$ 165 na cotação atual, enquanto a projeção máxima de arremate atinge aproximadamente R$ 1,37 milhão. A obra estava desaparecida dos registros públicos havia décadas antes do resgate fortuito na loja de itens usados.

A descoberta mobilizou o mercado internacional de colecionadores.

O comprador adquiriu o quadro sem conhecer a relevância histórica do objeto, atraído apenas pela composição figurativa que retrata conchas marinhas sobre uma superfície rígida. Ao notar traços característicos do surrealismo do Meio-Oeste americano e uma assinatura discreta no canto inferior, o adquirente encaminhou o material para avaliação especializada.

O trajeto da tela esquecida em Michigan

Gertrude Abercrombie viveu entre 1909 e 1977 em Chicago, onde liderou círculos artísticos boêmios e desenvolveu um estilo marcado por paisagens desoladas, interiores austeros, conchas, corujas e gatos pretos. Alderman Merriam’s Shells pertence a essa fase madura da pintora, momento em que mantinha contato com músicos de jazz e intelectuais norte-americanos. Registros indicam que a tela foi vendida pela própria artista na década de 1950 a conhecidos locais antes de sumir do inventário oficial. O paradeiro permaneceu ignorado até a recente doação anônima recebida pelo estabelecimento de caridade em Michigan.

A recuperação de trabalhos esquecidos em bazares ocorre com frequência reduzida nos Estados Unidos. Apenas itens sem catalogação prévia conseguem passar despercebidos por triagens iniciais de voluntários e avaliadores de pequenas cidades.

Os métodos para autenticar uma pintura histórica

Confirmar que o painel de 1951 saiu de fato das mãos de Gertrude Abercrombie exigiu exames comparativos detalhados, uma vez que a valorização tardia da pintora aumentou a circulação de falsificações e cópias não autorizadas no mercado secundário de arte. Historiadores e peritos confrontaram a assinatura original, o craquelamento da camada pictórica e as etiquetas antigas coladas na moldura de madeira. O trabalho de verificação documental reconstruiu a cronologia do quadro desde as primeiras menções em cadernos da pintora até o leilão anunciado.

A perícia constatou autenticidade total.

Laboratórios independentes realizaram análises físico-químicas de pigmentos para atestar que os compostos presentes na tinta branca e nos tons terrosos pertencem à formulação utilizada na década de 1950. Nenhuma substância sintética criada após meados do século vinte surgiu nos testes de espectrometria, o que eliminou qualquer suspeita de falsificação moderna. Consultores especializados na produção artística de Chicago compararam a pincelada meticulosa com outras peças catalogadas do mesmo ciclo criativo.

O papel da proveniência na valorização de leilões

A procedência documentada transformou um achado modesto de bazar em um dos lotes centrais da sessão pública de 1º de outubro, atraindo ofertas prévias de galerias particulares e museus. Quadros da pintora alcançaram patamares expressivos nos últimos anos, impulsionados pela redescoberta do movimento surrealista americano produzido fora dos circuitos tradicionais de Nova York. A cotação prévia reflete o interesse crescente de fundações culturais em recompor o acervo de mulheres artistas do século passado.

Compradores internacionais já formalizaram lances remotos para a data do pregão.

O catálogo do evento posiciona o trabalho entre as composições mais representativas da produção de naturezas-mortas concebidas por Gertrude Abercrombie no pós-guerra. O preço de reserva de US$ 250 mil estabelece uma das maiores proporções de valorização registradas em transações recentes originadas em lojas de caridade. A casa leiloeira mantém a peça sob custódia monitorada até a batida final do martelo.