Apagão em Portugal e Espanha: Por que a atividade solar foi descartada como causa em 2025
Um blecaute de proporções históricas deixou Portugal e Espanha no escuro na segunda-feira, 28 de abril de 2025, afetando dezenas de milhões de pessoas e paralisando serviços essenciais. O colapso energético, que começou por volta das 12h30 no horário local, gerou caos em transportes, comunicações e atividades econômicas, com impactos sentidos também em partes da França e Andorra. A interrupção abrupta de energia elétrica trouxe à tona vulnerabilidades na infraestrutura energética europeia, levantando debates sobre a dependência de fontes renováveis e a estabilidade das redes elétricas. Embora especulações iniciais apontassem para fenômenos naturais, como uma tempestade solar, ou até ciberataques, investigações iniciais descartaram essas hipóteses, direcionando o foco para falhas técnicas no sistema elétrico espanhol.
O apagão, descrito como um dos mais graves da história recente da Europa, interrompeu o funcionamento de trens, metrôs e semáforos, além de causar cancelamentos de voos e engarrafamentos em grandes cidades como Lisboa, Madri e Barcelona. Hospitais recorreram a geradores de emergência, enquanto comércios fecharam as portas e cidadãos enfrentaram dificuldades para acessar caixas eletrônicos, água engarrafada e alimentos enlatados. A crise expôs a fragilidade de sistemas interconectados e reacendeu discussões sobre a transição energética, especialmente em um momento em que a Espanha depende fortemente de energia solar, que representava cerca de 59% da geração elétrica no momento do colapso.
Autoridades de ambos os países mobilizaram esforços imediatos para restabelecer a energia, com a operadora espanhola Red Eléctrica reportando a recuperação parcial em regiões como Catalunha, Andaluzia e País Basco ainda na noite de segunda-feira. No entanto, a normalização completa pode levar até uma semana, segundo a operadora portuguesa REN, devido à complexidade de reequilibrar os fluxos elétricos internacionais. A Comissão Europeia anunciou uma investigação detalhada para apurar as causas, enquanto líderes políticos, como o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e o português Luís Montenegro, pediram calma à população e descartaram, por ora, a possibilidade de um ataque cibernético.
- Impactos imediatos do blecaute:
- Suspensão de trens e metrôs, com cerca de 35 mil passageiros presos em composições na Espanha.
- Cancelamento de mais de 500 voos em aeroportos como Madri, Barcelona e Lisboa.
- Falhas em telecomunicações, com operadoras como Meo e Vodafone limitando serviços de dados.
- Escassez de bens essenciais, como água e enlatados, em supermercados de Lisboa e Madri.
Contexto do blecaute e primeiras hipóteses
O colapso energético em Portugal e Espanha pegou as autoridades de surpresa, especialmente por ocorrer em um dia sem condições climáticas extremas ou alertas prévios de instabilidade na rede. A operadora portuguesa REN inicialmente sugeriu que um fenômeno atmosférico raro, conhecido como vibração atmosférica induzida, poderia ter desencadeado oscilações em linhas de alta tensão na Espanha, afetando a sincronização da rede elétrica europeia. Essa hipótese, no entanto, foi recebida com ceticismo por especialistas ibéricos, que apontaram a ausência de evidências concretas e a improbabilidade de um evento atmosférico localizado causar um impacto tão generalizado.
Outra teoria que ganhou tração nas primeiras horas foi a possibilidade de uma tempestade solar, alimentada por especulações nas redes sociais. Tempestades geomagnéticas, causadas por ejeções de massa coronal do Sol, podem gerar correntes induzidas no solo, danificando transformadores e redes elétricas. O precedente mais notório ocorreu em 1989, quando uma tempestade solar deixou seis milhões de pessoas sem energia no Canadá. Contudo, análises da atividade geomagnética no dia do apagão mostraram índices extremamente baixos, com o índice Kp, que mede a intensidade de tempestades solares, variando entre 0 e 1, na faixa verde da escala da NOAA. Em contraste, a tempestade solar de maio de 2024, que gerou auroras visíveis até no Caribe, registrou Kp 9, indicando uma severidade muito superior.
A ausência de condições para uma tempestade solar levou as autoridades a focarem em falhas internas no sistema elétrico, particularmente na Espanha, onde duas desconexões consecutivas de usinas solares no sudoeste do país são apontadas como o gatilho do colapso. A dependência da energia solar, que gerava cerca de 70% da demanda espanhola no momento do apagão, trouxe à tona os desafios de integrar fontes renováveis intermitentes em grande escala. A Red Eléctrica já havia alertado, em relatórios anteriores, sobre o risco de instabilidade devido ao excesso de energia fotovoltaica em horários de pico solar, um problema que exige ajustes na gestão da rede para evitar colapsos semelhantes.
- Hipóteses iniciais levantadas:
- Vibração atmosférica induzida, sugerida pela REN, mas descartada por especialistas.
- Tempestade solar, especulada nas redes, mas refutada por dados geomagnéticos.
- Ciberataque, negado pelos governos português e espanhol, mas sob investigação pela Suprema Corte da Espanha.
- Falha técnica em usinas solares, apontada como a causa mais provável pelas operadoras.
Impactos generalizados na vida cotidiana
O blecaute transformou a rotina de milhões de pessoas em Portugal e Espanha, evidenciando a dependência moderna da eletricidade. Em Lisboa, o metrô parou, deixando passageiros caminhando por túneis escuros, enquanto em Madri o trânsito colapsou devido à falta de semáforos. A polícia foi mobilizada para organizar o tráfego, mas engarrafamentos se formaram em cruzamentos cruciais. Aeroportos como Barajas, em Madri, e El Prat, em Barcelona, enfrentaram atrasos e cancelamentos, com controladores de tráfego aéreo restringindo voos em Lisboa. A operadora ferroviária espanhola Renfe suspendeu todos os serviços, afetando milhares de passageiros, muitos dos quais passaram horas presos em trens sem acesso a banheiros.
Hospitais ativaram planos de contingência, recorrendo a geradores a diesel para manter áreas críticas operacionais. O Hospital La Paz, em Madri, um dos maiores da capital espanhola, desligou luzes não essenciais e suspendeu atendimentos não urgentes, garantindo combustível para seus geradores por até 12 horas. Em Portugal, o Instituto Nacional de Emergência Médica orientou a população a ligar para o 112 apenas em casos graves, evitando a sobrecarga do sistema. Unidades de saúde privadas também priorizaram emergências, cancelando consultas e cirurgias eletivas.
No setor comercial, o impacto foi igualmente devastador. Supermercados em Lisboa e Madri enfrentaram uma corrida por produtos básicos, como água engarrafada e enlatados, com filas de até uma hora. Muitos estabelecimentos fecharam por falta de sistemas de pagamento eletrônico, enquanto outros, que utilizavam gás para cozinhar, conseguiram operar normalmente durante o almoço. À noite, porém, a ausência de luz solar agravou a situação, forçando restaurantes a suspender o jantar. Bancos e caixas eletrônicos ficaram inoperantes, gerando longas filas e frustração entre clientes em busca de dinheiro.
- Setores mais afetados:
- Transporte: Trens, metrôs e voos paralisados, com engarrafamentos em grandes cidades.
- Saúde: Hospitais em modo de emergência, com geradores sustentando operações críticas.
- Comércio: Lojas fechadas e escassez de produtos básicos em supermercados.
- Telecomunicações: Falhas em redes móveis e lentidão em serviços como WhatsApp.

Resposta das autoridades e esforços de recuperação
A resposta ao apagão envolveu uma mobilização imediata de governos, operadoras de energia e instituições europeias. O governo espanhol, liderado por Pedro Sánchez, declarou estado de emergência em regiões como Madri, Andaluzia e Extremadura, assumindo funções de ordem pública. Em Portugal, o Conselho de Ministros criou um grupo de acompanhamento para monitorar a crise, enquanto o presidente Marcelo Rebelo de Sousa manteve contato constante com o governo. A Comissão Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen, prometeu apoio técnico e coordenação para restabelecer a rede elétrica, trabalhando em conjunto com a Rede Europeia dos Operadores das Redes de Transporte de Eletricidade.
A Red Eléctrica, operadora espanhola, ativou planos de restauração conhecidos como “black start”, um processo gradual de reconexão de usinas elétricas à rede. Até o final de segunda-feira, mais de 35% da capacidade energética espanhola havia sido restaurada, com prioridade para regiões como Catalunha, Galícia e País Basco. A operadora portuguesa REN estimou que a normalização completa em Portugal pode levar até sete dias, devido à necessidade de sincronizar os fluxos elétricos com a rede europeia, que opera a 50 Hertz para garantir estabilidade. Para acelerar a recuperação, a Espanha aumentou a operação de usinas a gás e hidrelétricas e retomou importações de energia da França e do Marrocos.
A investigação sobre as causas do blecaute ganhou prioridade, com a União Europeia anunciando uma análise completa liderada pelo Comissário de Energia, Dan Jorgensen. Embora a hipótese de ciberataque tenha sido descartada pelos primeiros-ministros de Portugal e Espanha, a Suprema Corte espanhola abriu um inquérito para avaliar possíveis atos de terrorismo ou sabotagem. A operadora espanhola negou que eventos climáticos ou erros humanos tenham causado o colapso, reforçando a tese de uma falha técnica ligada à desconexão abrupta de usinas solares.
- Medidas de resposta:
- Declaração de estado de emergência em regiões espanholas afetadas.
- Ativação de planos de “black start” para restauração gradual da energia.
- Mobilização de policiais para gerenciar o trânsito e evitar saques.
- Coordenação com a Comissão Europeia para investigação e suporte técnico.
Vulnerabilidades da transição energética
O apagão de 2025 expôs os desafios da transição energética na Europa, particularmente na Espanha, que é um dos líderes em energia renovável, com 43% de sua eletricidade proveniente de fontes eólica e solar. No momento do colapso, a energia solar fotovoltaica respondia por 59% da geração espanhola, com uma produção de 17 a 18 gigawatts. Entre 12h30 e 12h35, porém, a geração solar caiu mais de 50%, de 18 para 8 gigawatts, em apenas cinco minutos, desencadeando a instabilidade que derrubou a rede. Esse evento revelou a dificuldade de gerenciar fontes intermitentes, como a solar, que dependem de condições climáticas e não oferecem a mesma estabilidade de usinas nucleares ou a gás.
A Espanha, que planeja desativar suas usinas nucleares (responsáveis por 20% da matriz energética) e encerrar a geração a carvão até o final de 2025, enfrenta agora questionamentos sobre sua estratégia energética. Relatórios da Red Eléctrica, divulgados em fevereiro de 2025, já alertavam para o risco de “desconexões” devido ao excesso de energia renovável em horários de alta incidência solar, quando a demanda é baixa. Esses períodos podem levar a preços de eletricidade no atacado próximos de zero ou até negativos, forçando parques solares a reduzirem a produção. A crise de abril sugere que a rede elétrica espanhola não estava preparada para lidar com uma queda tão abrupta na geração solar, especialmente em um momento de exportação de energia para França e Portugal.
Especialistas apontam que a solução envolve investimentos em tecnologias de armazenamento, como baterias de grande escala, e fontes de energia de suporte, como hidrelétricas e usinas a gás, para compensar a intermitência das renováveis. Além disso, a integração de sistemas de inteligência artificial para prever e gerenciar picos de produção pode reduzir o risco de colapsos. A crise também reacendeu o debate sobre a necessidade de manter usinas nucleares como respaldo, uma questão politicamente sensível na Espanha, onde o governo prioriza a descarbonização.
- Desafios da energia renovável:
- Intermitência da geração solar e eólica, que varia com condições climáticas.
- Falta de capacidade de armazenamento para lidar com picos de produção.
- Necessidade de fontes de energia firme, como nuclear ou gás, para estabilidade.
- Riscos de preços negativos no mercado de eletricidade devido ao excesso de renováveis.
Lições do passado e riscos globais
A história recente oferece exemplos de como falhas na infraestrutura elétrica podem causar impactos devastadores. O apagão de 1989 no Canadá, causado por uma tempestade solar, permanece como um marco na vulnerabilidade das redes elétricas a eventos naturais extremos. Na Europa, o blecaute de 2003 na Itália, que afetou quase todo o país devido a falhas em linhas de transmissão internacionais, é outro lembrete da fragilidade de sistemas interconectados. Mais recentemente, apagões na Ucrânia em 2015 e 2016, atribuídos a ciberataques russos, destacaram os riscos de segurança cibernética, embora essa hipótese tenha sido descartada no caso ibérico de 2025.
No Brasil, o apagão de agosto de 2023, que deixou 29 milhões de pessoas sem energia, oferece paralelos com a crise europeia. O Operador Nacional do Sistema Elétrico brasileiro identificou falhas em usinas eólicas e solares no Ceará como a causa principal, apontando deficiências nos controles de suporte dinâmico de potência. O crescimento acelerado da energia solar no Brasil, que representa 22% da capacidade instalada, levanta preocupações semelhantes às da Espanha, com estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia em risco de instabilidade nos próximos anos. Esses exemplos sublinham a necessidade de planejamento robusto para integrar fontes renováveis sem comprometer a confiabilidade da rede.
A crise ibérica também destaca a importância de protocolos de emergência e comunicação com a população. Em Portugal e Espanha, a falta de informações claras nas primeiras horas do apagão alimentou especulações e teorias conspiratórias, de tempestades solares a ataques hackers. Governos e operadoras precisam investir em sistemas de alerta e campanhas educativas para preparar os cidadãos para eventos semelhantes, especialmente em um contexto de crescente dependência de energia renovável e mudanças climáticas que podem agravar a instabilidade das redes.
- Casos históricos de apagões:
- 1989, Canadá: Tempestade solar causa blecaute para 6 milhões de pessoas.
- 2003, Itália: Falha em linhas internacionais afeta quase todo o país.
- 2015-2016, Ucrânia: Ciberataques russos interrompem energia para milhares.
- 2023, Brasil: Falha em usinas renováveis deixa 29 milhões sem luz.
Perspectivas para o futuro
A recuperação do apagão de 2025 será apenas o primeiro passo para Portugal e Espanha, que agora enfrentam o desafio de fortalecer suas redes elétricas contra futuras crises. A investigação liderada pela União Europeia deve esclarecer as causas exatas do colapso, mas já está claro que a transição para uma matriz energética dominada por fontes renováveis exige ajustes urgentes. A Espanha, que exportava energia para a França e Portugal no momento do blecaute, precisa reavaliar sua capacidade de gerenciar picos de produção solar e garantir a estabilidade da rede em momentos críticos.
Em Portugal, onde a normalização pode levar uma semana, o governo enfrenta pressão para melhorar a resiliência da infraestrutura elétrica e diversificar suas fontes de energia. A dependência da interconexão com a rede espanhola expôs vulnerabilidades que exigem soluções regionais, como o fortalecimento de usinas locais e a modernização de linhas de transmissão. A crise também pode influenciar políticas energéticas em outros países europeus, onde a transição para renováveis avança rapidamente, mas sem a infraestrutura necessária para lidar com imprevistos.
O impacto econômico do blecaute ainda é difícil de mensurar, mas os prejuízos no comércio, transporte e turismo já são evidentes. O cancelamento do torneio Madrid Open, por exemplo, gerou perdas significativas para patrocinadores e organizadores, enquanto o setor aéreo enfrenta custos com reembolsos e realocações de voos. Para os cidadãos, a experiência serviu como um alerta sobre a importância de planos de contingência individuais, como estoques de alimentos e lanternas, em um mundo cada vez mais dependente da eletricidade.
- Próximos passos para prevenção:
- Investimento em tecnologias de armazenamento de energia, como baterias de grande escala.
- Modernização de linhas de transmissão para suportar picos de produção renovável.
- Desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial para prever falhas na rede.
- Campanhas educativas para preparar a população para crises energéticas.
Cronograma dos eventos do apagão
O blecaute de 28 de abril de 2025 seguiu uma sequência de eventos que ilustra a rapidez e a escala do colapso. Abaixo, um resumo dos principais momentos, com base em relatos das operadoras e autoridades:
- 12h30 (horário local): Início do apagão, com desconexão abrupta de usinas solares no sudoeste da Espanha.
- 12h35: Colapso total da rede elétrica espanhola, afetando Portugal e partes da França.
- 13h00: Mobilização de policiais para gerenciar o trânsito em Lisboa e Madri.
- 14h00: Hospitais ativam geradores; REN sugere vibração atmosférica como causa.
- 17h00: Red Eléctrica restaura 35% da energia em regiões espanholas.
- 18h00: Comissão Europeia anuncia investigação; ciberataque é descartado.
- Noite de 28/04: Energia parcialmente restabelecida em Catalunha, Andaluzia e País Basco.
- 29/04: Suprema Corte espanhola abre inquérito; normalização pode levar uma semana.



