Saúde

Brasil planeja terapia celular no SUS: tratamento promissor custa milhões

Terapia celular
Terapia celular - Foto: Vershinin89/shutterstock.com Terapia celular - Foto: Vershinin89/shutterstock.com

A terapia celular contra o câncer, anunciada pelo ministro da Saúde Alexandre Padilha como uma aposta do Brasil em parceria com os Brics, promete revolucionar o tratamento de doenças oncológicas, mas enfrenta desafios de custo e acessibilidade. Com valores que podem ultrapassar R$ 3 milhões por paciente, o governo busca nacionalizar a produção para viabilizar a oferta no SUS. A iniciativa, que foca em tratamentos como a terapia CAR-T, já usada em leucemias e linfomas, é vista como um marco na medicina personalizada. No entanto, a alta complexidade e a dependência de tecnologia estrangeira levantam questões sobre sua implementação em larga escala. O anúncio, feito em julho de 2025, destaca a ambição de tornar o Brasil um polo de inovação em saúde, mas especialistas alertam para obstáculos financeiros e logísticos. O tratamento, que utiliza células vivas modificadas, já transformou a vida de pacientes sem opções terapêuticas, mas sua inclusão no sistema público exige planejamento robusto.

O Ministério da Saúde informou que está em fase de apuração de detalhes sobre a parceria com os Brics, mas ainda não divulgou um cronograma ou orçamento específico. A iniciativa envolve instituições como a Fiocruz e o Instituto Butantan, que já conduzem pesquisas na área. A terapia celular, embora promissora, é um processo caro e tecnicamente complexo, o que torna a nacionalização um desafio estratégico.

  • Principais objetivos da parceria com os Brics:
    • Desenvolver tecnologia nacional para terapias celulares.
    • Reduzir custos de produção e importação.
    • Ampliar o acesso a tratamentos avançados no SUS.
    • Posicionar o Brasil como referência em medicina de precisão.

Como funciona a terapia celular
A terapia celular utiliza células vivas como ferramenta terapêutica, funcionando como um “remédio vivo” projetado para cada paciente. O método mais avançado, conhecido como CAR-T, envolve a retirada de células T do sangue do paciente, sua modificação genética em laboratório e a reinfusão no corpo para combater o câncer. Esse processo, que pode levar semanas, exige infraestrutura de ponta e equipes altamente especializadas.

No caso da CAR-T, as células são alteradas para reconhecer marcadores específicos nos tumores, como o CD-19, presente em alguns linfomas e leucemias. Após a reinfusão, elas se multiplicam e atacam as células cancerígenas. O procedimento, porém, exige que o paciente passe por quimioterapia prévia para preparar o sistema imunológico, o que aumenta a complexidade do tratamento.

O hematologista Renato Cunha, com experiência no National Cancer Institute, explica que a terapia é uma forma de imunoterapia personalizada. “As células são treinadas para identificar e destruir o câncer, algo que o sistema imunológico, por si só, muitas vezes não consegue fazer”, afirma. Apesar dos avanços, efeitos colaterais como inflamações graves e alterações neurológicas exigem monitoramento intensivo.

Quais cânceres podem ser tratados
Atualmente, a terapia CAR-T é aprovada para cânceres hematológicos, como leucemias linfoblásticas agudas, linfomas de células B e mieloma múltiplo. Esses tumores têm alvos moleculares claros, o que facilita a ação das células modificadas. Estudos apontam taxas de remissão de até 80% em alguns casos, especialmente em pacientes que já esgotaram outras opções de tratamento.

Para tumores sólidos, como os de pulmão, mama ou pâncreas, os resultados ainda são limitados. O microambiente desses tumores é mais complexo, dificultando a ação das células CAR-T. Pesquisadores brasileiros, no entanto, estão explorando novas abordagens para superar essas barreiras, com ensaios clínicos em andamento em centros como o A.C.Camargo Cancer Center.

  • Cânceres com terapia CAR-T aprovada:
    • Leucemia linfoblástica aguda.
    • Linfoma difuso de grandes células B.
    • Mieloma múltiplo.
    • Linfoma folicular.

Custo elevado: um obstáculo central
O custo de uma única terapia CAR-T pode variar entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões, dependendo do tipo de câncer e da infraestrutura necessária. Esse valor inclui a coleta das células, a modificação genética (geralmente feita no exterior), o transporte internacional e a internação do paciente. No Brasil, o SUS ainda não cobre o procedimento, e apenas alguns planos de saúde oferecem reembolso para terapias aprovadas pela Anvisa, como Tisa-cel e Axi-cel.

A dependência de laboratórios estrangeiros é um dos principais fatores que encarecem o tratamento. “Grande parte do custo vem do envio das células para os EUA ou Europa, além da logística de retorno”, explica Ana Rita Fonseca, do Hospital Sírio-Libanês. A nacionalização, proposta por Padilha, poderia reduzir significativamente esses gastos, mas exige investimentos pesados em tecnologia e capacitação.

Esforços para reduzir custos
A parceria com os Brics, anunciada pelo Ministério da Saúde, visa criar uma cadeia produtiva local para terapias celulares. Instituições como a Fiocruz e o Instituto Butantan já desenvolvem pesquisas para produzir células CAR-T no Brasil, com alguns pacientes participando de ensaios clínicos. Essas iniciativas buscam não apenas baratear o tratamento, mas também torná-lo mais acessível a um número maior de pessoas.

Além disso, modelos alternativos de pagamento estão sendo estudados. Em países como o Reino Unido, hospitais recebem reembolsos baseados na eficácia do tratamento, pagando menos se o paciente não responder à terapia. No Brasil, empresas privadas também exploram formas de reduzir custos, com terapias similares em desenvolvimento por valores mais baixos.

Laboratório
Laboratório – Foto: FOTOGRIN/Shutterstock.com

Avanços brasileiros na pesquisa
O Brasil tem se destacado em pesquisas sobre terapias celulares, com centros de referência como o Hospital das Clínicas de São Paulo e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) conduzindo estudos promissores. A Fiocruz, por exemplo, já conseguiu produzir células CAR-T em escala laboratorial, um passo importante para a autonomia tecnológica.

Jayr Schmidt Filho, do A.C.Camargo, destaca que o país tem potencial para se tornar um polo de inovação. “Temos pesquisadores de alto nível e uma demanda crescente por tratamentos avançados. O desafio é transformar essa expertise em um sistema escalável”, afirma. A colaboração com os Brics pode acelerar esse processo, trazendo know-how de países como China e Índia, que também investem em terapias avançadas.

Limitações e desafios técnicos
Apesar do entusiasmo, a terapia celular enfrenta barreiras significativas. O processo de produção é altamente individualizado, o que dificulta a padronização e a redução de custos. Além disso, a infraestrutura necessária — como salas limpas e equipamentos de ponta — exige investimentos vultosos.

Outro obstáculo é a capacitação de profissionais. A aplicação da terapia CAR-T exige equipes multidisciplinares, incluindo hematologistas, imunologistas e farmacêuticos, todos treinados para lidar com complicações graves. No Brasil, poucos centros têm essa expertise, o que limita a expansão do tratamento para além das grandes capitais.

  • Principais barreiras para a implementação:
    • Alto custo de produção e logística.
    • Dependência de tecnologia estrangeira.
    • Falta de infraestrutura em hospitais públicos.
    • Necessidade de treinamento especializado.

Expectativas para o SUS
A inclusão da terapia celular no SUS é vista como um objetivo de longo prazo. Especialistas estimam que, mesmo com a nacionalização, o tratamento só estará disponível em escala significativa em alguns anos. O Ministério da Saúde ainda não detalhou como financiará a iniciativa, mas a parceria com os Brics sugere um esforço para compartilhar custos e conhecimentos.

Pacientes que participaram de ensaios clínicos no Brasil, como os conduzidos pelo Instituto Butantan, relataram resultados promissores, com alguns em remissão por mais de um ano. Esses casos reforçam a esperança de que a terapia possa, no futuro, transformar o câncer em uma doença crônica, controlável com tratamento contínuo.

Próximos passos da parceria
O governo brasileiro planeja criar uma rede de centros especializados para a produção e aplicação de terapias celulares. A colaboração com os Brics deve incluir a troca de tecnologia e a formação de pesquisadores, com foco em doenças prevalentes na população brasileira. Embora os detalhes ainda sejam escassos, o Ministério da Saúde aposta na integração regional para superar as limitações atuais.

A iniciativa também prevê a participação de universidades e centros de pesquisa, que já trabalham em projetos paralelos. A longo prazo, o objetivo é não apenas tratar o câncer, mas também desenvolver terapias celulares para outras doenças, como as autoimunes.

Impacto na saúde pública
A chegada da terapia celular ao SUS poderia mudar o panorama do tratamento oncológico no Brasil, especialmente para pacientes de baixa renda que hoje não têm acesso a terapias avançadas. No entanto, o alto custo inicial e a necessidade de infraestrutura representam desafios que exigem planejamento cuidadoso.

Especialistas como Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, acreditam que o foco deve ser na escalabilidade. “Não basta trazer a tecnologia; é preciso criar um sistema que a sustente”, diz. A parceria com os Brics é um primeiro passo, mas sua viabilidade dependerá de investimentos consistentes e de uma visão estratégica para a saúde pública.

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