NYT enfrenta nova revolta ao publicar detalhes da identidade do denunciante
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Dia carregado para o Centro do Leitor do New York Times, eu suponho”, ironizou Margaret Sullivan, colunista de mídia do Washington Post e ex-ombudsman do NYT.
Referia-se ao esforço atabalhoado do concorrente para justificar a decisão de revelar detalhes da identidade do “whistleblower” que denunciou o telefonema de Donald Trump -e que pode levar ao impeachment do presidente americano.
O editor-executivo do NYT, Dean Baquet, falou ao Centro do Leitor operado pelo jornal que foi porque “o presidente e alguns de seus apoiadores atacaram a credibilidade do denunciador”. Ou seja, seriam informações, como o fato de pertencer à CIA, para mostrar sua “credibilidade”.
Um dos advogados do denunciador se revoltou, dizendo que isso “só vai levar à identificação”, colocando seu cliente em “situação muito mais perigosa, não só em seu mundo profissional, mas para sua segurança”. Outro chamou o jornal de negligente.
E um ex-chefe de gabinete da CIA falou anonimamente à NBC que “é horrível o New York Times pensar que isso serviria ao interesse público”. A NBC avisou que não reproduziria as informações do NYT, por respeitar o pedido de anonimato do denunciador.
De maneira generalizada, o questionamento da decisão do jornal enfatizou que ela vai desencorajar outros “whistleblowers”, expressão usada para descrever funcionários públicos que denunciam malfeitos.
O denunciador é uma figura essencial para o jornalismo americano, protagonista de escândalos históricos como Watergate e, mais recentemente, as revelações de Edward Snowden e Chelsea Manning.
A identidade da fonte do Washington Post no caso Watergate só veio a público após a sua morte. Já Snowden e Manning, identificados pelo governo Obama, não pelos veículos que noticiaram seus vazamentos, foram para o exílio e a cadeia, respectivamente.
Não foi só o Centro do Leitor que teve uma quinta (26) carregada. Noite avançada, o NYT acrescentou em reportagem que o governo Trump já sabia se tratar de um agente da CIA antes de o jornal divulgar, o que deve aliviar a pressão.
Ainda assim, sobreveio nova onda de cancelamentos, já observada em episódios como a contratação de um colunista que nega a mudança do clima e a manchete que deu a entender que Trump é contra o racismo -e não um racista.
O estrago, ao que parece, é cumulativo. E atinge, além de Baquet, o publisher A.G. Sulzberger, que assumiu o jornal em 2018. Um dos alvos da revolta de quinta-feira foi seu texto, publicado dias antes, criticando Trump por não defender jornalistas ameaçados. Alguns viram incoerência.
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