Segunda temporada de ‘Filhos da Pátria’ tem paneladas, ‘mamata’ e bordões da política atual
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quando revisitamos o passado é inevitável compararmos as épocas e notarmos a evolução de tecnologias e costumes. Mas em “Filhos da Pátria”, série da Globo dirigida por Henrique Sauer, o mais interessante é perceber que talvez nem tanta coisa assim tenha mudado dos últimos anos para cá.
A produção, que teve sua primeira temporada sobre a pós-independência do Brasil (1822), volta nesta terça-feira (8) para uma segunda leva de episódios, desta vez na era Getúlio Vargas (1930-1945), marcada por avanços tecnológicos e promessas de modernidade após a hegemonia da elite do café-com-leite.
Mesmo com o salto temporal, o elenco permanece o mesmo: o pai, Geraldo (Alexandre Nero), a mãe, Maria Teresa (Fernanda Torres), o filho, Geraldinho (Johnny Massaro), e a filha, Catarina (Lara Tremouroux), que formam a família Bulhosa. “Revisitamos papéis que já fizemos e estou mais seguro com o resultado dessa temporada”, diz Massaro, que descreve a temporada como “mais direta e madura”.
“São as mesmas questões da primeira temporada, mas na República, com o Estado Novo, com a questão da propaganda política e das leis trabalhistas”, acrescenta Torres. Segundo a atriz, os novos episódios mostram a formação das primeiras favelas, o assédio no emprego e a ascensão do feminismo -este último, através do papel de Lara Tremouroux.
“Ela ajuda a trazer novos olhares para essa família, que vive uma cegueira e uma manipulação da mãe”, diz Tremouroux. “Eu me identifico muito com ela por ela ter voz, se colocar e não aceitar essas assimetrias de gênero.”
Tremouroux conta que a segunda temporada é retratada como uma crônica cheia de humor e atualidade sobre os ciclos repetitivos do Brasil, com questões antigas que permanecem atuais. Segundo ela, existem trechos escritos pelo roteirista Bruno Mazzeo, que chegaram a acontecer na vida real após terem sido gravados, como se fossem previstos.
Mazzeo confirma. “A brincadeira do programa é justamente fazer um diálogo entre o que a gente vive no presente e o nosso passado, que na verdade nada mais é do que o nosso DNA. Na primeira temporada, a ideia era falar um pouco da gente: por que a gente é assim? Por que a nossa história se repete? Por que sempre estamos no ‘agora vai’, elegendo heróis?”
O escritor garante que a nova história se relaciona com a política de hoje, mas não só com ela, uma vez que seus personagens não representam um político, mas sim um pensamento. Ele diz que a nova temporada serve como um convite à reflexão, e busca gerar identificação pelo riso com bordões e falas que marcaram épocas políticas, como “acabou a mamata”, “tchau querido” e “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”; além das “paneladas” e a falta de entendimento sobre os conceitos de “revolução” e “democracia” tanto por parte de jovens, quanto por adultos.
A exemplo disso, Mazzeo cita os rádios, que aparecem na segunda temporada da série como meio de divulgação das “fake news”, hoje propagadas pelo WhatsApp. “Getúlio deu um golpe com uma ‘fake news'”, diz o autor ao mencionar o momento político em que o general Eurico Gaspar Dutra inventou o Plano Coehn, uma suposta conspiração comunista para tomar o poder, acatada por Vargas. “Essa paranoia do comunismo, uma coisa que nunca foi forte no Brasil, continua até hoje, e foi motivo de todos os golpes”, completa.
Outro assunto explorado na série é o da escravidão, relacionado ao racismo. Se na primeira temporada a atriz Jéssica Ellen interpretou a escrava Isaura, agora ela é a empregada doméstica da família principal, mostrando que as configurações familiares se mantêm.
Segundo Mazzeo, isso acontece porque o Brasil é um país atrasado, que demorou para se livrar da escravidão, e que tem “sempre as mesmas pessoas no poder”. Fernanda Torres acrescenta que o país é baseado no patriarcalismo e patrimonialismo, mazelas que fizeram o Brasil chegar ao que é hoje, onde “o que é pecado para um, é liberdade para o outro”.
A atriz afirma que sua personagem é “tão ingênua que você gosta dela, embora ela seja um monstro”, e que todo mundo tem “uma dessas” na família. “É uma pessoa que você quase tem pena, e por outro lado ela é terrível”, diz.
“O cuidado é só que a gente não faça rir quem não deve rir”, alerta Nero. “O personagem de Fernanda [Torres] especialmente, é o personagem típico que saiu da armário brasileiro, que a gente achava que não existia, e está aí assustadoramente exposto e orgulhoso da sua ignorância. A gente tem que contar piadas, mas não fazer eles rirem. Isso é para mostrar como eles são patéticos. E isso não tem nada a ver com direita e esquerda. Tem a ver com civilidade e barbárie”.
3ª TEMPORADA
Uma terceira temporada da série ainda não foi confirmada, mas se acontecer, deve se passar no período da construção de Brasília, que ocorreu entre os anos de 1956 a 1960. “O que não falta é golpe, e cada golpe significa um ‘agora vai’ e a eterna busca do herói”, diz Mazzeo.
“Seria legal se chegássemos até agora [2019]. Se depender da corrupção, a gente vai até 3000”, acrescenta Nero. Torres ainda aponta que o Brasil está sempre “zerando para começar de novo”, “destruindo o que já foi construído”, e que por isso nunca aprende com os acontecimentos anteriores.
Mas Johnny Massaro prefere acreditar em um futuro positivo: “Se eu não acreditar que dias melhores virão, isso nunca vai acontecer. E é claro que acreditar sozinho não muda muita coisa”.
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