‘Bolsonaro fala a língua que o povo entende’, diz escritor Ferréz
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Chamada Comunicação e Hegemonia Cultural, a mesa que abriu esta quinta (17) no seminário Democracia em Colapso?, promovido pela editora Boitempo e pelo Sesc, tinha como proposta discutir a construção de formas de comunicação com todas as esferas da população e o impacto que ela tem na construção da democracia.
Participaram da conversa a socióloga Esther Solano, professora da Unifesp, o psicanalista Christian Dunker, professor da USP, e o escritor Ferréz, autor de “Os Ricos também Morrem” e “Deus Foi Almoçar” (Planeta).
Para Solano, que atualmente pesquisa o público bolsonarista moderado nas periferias –pessoas que votaram em Jair Bolsonaro, não por se identificar com seu discurso, mas por querer mudanças–, é possível observar alguns que alguns elementos da retórica bolsonarista são a moralização e a cristianização do espaço público.
Para disseminar a pauta, eles detêm canais de comunicação eficientes, como emissoras religiosas e algo que a socióloga chama de “datenização da TV”, os programas policiais. E avisa que a penetração do apresentador Luciano Huck, em articulação para ser presidenciável, é grande. “As pessoas falam como se conhecessem ele.”
O psicanalista Christian Dunker diz que vínhamos de uma sociedade com “estrutura de condomínio”, excludente em diversas esferas, que sofreu com um furo na lógica social nos anos Lula, quando pessoas começaram a ascender socialmente.
Com isso, ele desenvolve, espaços começaram a ser ocupados por gente que não deveria estar lá, ou que não deveria ser tão visível. Além disso, haveria uma sensação de culpa daqueles que ascenderam em relação aos que ficaram.
Dessa forma, teria surgido uma crise de identidade que foi contemplada pela retórica bolsonarista. Enquanto para a esquerda, “identidade” tem um significado, para a direita bolsonarista, ela teria ganhado o sentido de “família”, diz Dunker. E proteger a família como valor moral seria uma forma de restaurar a lógica de condomínio em uma nova potência.
Além disso, a acessibilidade digital incitou uma quantidade imensa de pessoas a expor suas opiniões, como forma de estabelecer uma identidade. “Assim, a cultura do medo e da inveja, mudou para esse afeto para o ódio”, conclui.
Ferréz argumenta que a percepção de que a democracia está em colapso é de uma classe média branca. “Nós [negros] estamos sendo massacrados há mais de 500 anos.”
“A gente [da esquerda] não se comunica como tem que comunicar. Fala de um jeito que a gente não compreende. Quando o Bolsonaro fala de cocô, o povo acha engraçado, entende o sarcasmo.”
Para o escritor, o pessoal da esquerda “se preocupa muito” com questões que podem ser pequenas ou que podem não ser urgentes para o povo –como a pauta identitária, por exemplo. “A gente quer explicar demais. A verdade é que a esquerda perdeu o contato com o povo. E não vai voltar assim não, papai.”
Ele cita como exemplos canais de YouTube. “Enquanto um canal de esquerda tem um cara que fica 40 minutos explicando teoria, um de direita vai lá e em 5 minutos destrói tudo o que o outro falou. É mais fácil.”
Ao discutir o conceito de cidadania, Solano diz que os bolsonaristas ricos com quem ela conversou para a sua pesquisa têm plena noção de que a cidadania deles depende do extermínio do outro. O bolsonarista da periferia também tem consciência do que é cidadania para eles: é não morrer.
Ela conta que ouviu de um entrevistado periférico que “nós não estamos preocupados com democracia. São vocês. A gente não quer morrer”.
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