Cultura se fortalece ‘debaixo do pau’, diz Fernanda Montenegro
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “A Vida Invisível”, longa escolhido pelo Brasil para tentar uma vaga no Oscar e exibido no Theatro Municipal nesta sexta (18), na Mostra de Cinema de São Paulo, repete um elemento central que havia em “Central do Brasil”, de Walter Salles, o último título nacional a chegar no páreo final, em 1999: Fernanda Montenegro.
Aos 90 anos recém-completados (ela fez aniversário no último dia 16), a atriz faz troça da idade. “Parece que em mais quatro ou cinco anos, faço cem”, brinca.
Continua, no entanto, na labuta, e depois de lançar uma autobiografia pela Companhia das Letras, ainda aparecerá em longas de Cláudio Assis e do genro, Andrucha Waddington.
Não é só no campo das artes que Fernanda segue ativa. Há duas semanas, ela arrebatou o Theatro Municipal paulista num evento do Festival Mário de Andrade ao dizer que “sistema nenhum vai nos calar”, em resposta a sucessivos episódios de censura recentes.
Prestes a celebrar 90 anos, Fernanda Montenegro comenta pela primeira vez seu livro de memórias ‘Prólogo, Ato, Epílogo’ (editora Companhia das Letras), em conversa com a jornalista Marta Góes, no Theatro Municipal Bruno Santos/Folhapress Prestes a celebrar 90 anos, Fernanda Montenegro comenta pela primeira vez seu livro de memórias ‘Prólogo, Ato, Epílogo’ (editora Companhia das Letras), em conversa com a jornalista Marta Góes, no Theatro Municipal A atriz diz que não é de hoje que a cultura se fortalece quando está “debaixo do pau”. “Apesar do camburão, da cavalaria, do gás lacrimogêneo, veja o que nós conseguimos”, diz.
Mas vê um componente diferente na censura praticada hoje em comparação com aquela que viveu na ditadura.
“Na época dos militares, tínhamos a ideologia, a política. Agora, ainda temos a moral, vista por um lado esquemático, fechado, medieval. E aí acho que é grave. Se não lutarmos, acabaremos nas fogueiras da Inquisição Espanhola.”
No Municipal, Fernanda passou ao largo da comoção que havia protagonizado dias antes, quando fora atacada nas redes sociais pelo diretor teatral da Funarte, Roberto Alvim.
Bolsonarista, ele tinha criticado um ensaio da revista Quatro Cinco Um em que a atriz posava de bruxa diante de uma fogueira de livros, chamando-a de “sórdida” e “mentirosa”.
Fernanda justifica que, se não respondeu as ofensas, foi porque não é o mesmo tipo de pessoa que Alvim, “um ser humano que agride”.
Um pouco mais velha que a personagem que interpreta em “A Vida Invisível”, a atriz diz que, apesar de seus pais a princípio não aceitarem sua profissão, sua trajetória foi diferente da de Eurídice. Mas que o longa não deixa de ser “uma visão e uma denúncia de como já avançamos hoje”. “Há uma outra luz em cima do ser mulher, esposa, mãe, filha.”
Dizendo-se grande admiradora do diretor Karim Aïnouz, conta que também adorou “Bacurau”, rival na primeira etapa da indicação ao Oscar. “Graças a Deus produzimos essa multiplicidade. Tudo serve à sobrevivência de uma arte no Brasil sempre tão sofrida.”
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