Retomada da economia pode destravar carteira de R$ 1 tri em ‘créditos podres’
A foto ao lado de uma Ferrari gerou muitos cliques no Instagram, mas também foi a pista que a Enforce, controlada pelo BTG Pactual, precisava para executar a cobrança de uma dívida milionária que esse devedor se recusava a pagar, alegando não ter condições financeiras. Empresas especializadas em recuperação de débitos em atraso, os chamados créditos podres, têm usado cada vez mais a inteligência artificial para levantar parte dessas dívidas consideradas já perdidas.
O tamanho do mercado de dívidas em aberto no Brasil – de pessoas físicas e empresas – é estimada em cerca de R$ 600 bilhões até o segundo trimestre deste ano, valor considerado recorde, segundo a Prime Yield, consultoria portuguesa de avaliação patrimonial. Mas, se considerado dos débitos acumulados nos últimos 15 anos, chega a quase R$ 1 trilhão: R$ 915 bilhões, sem correção da inflação, de acordo com levantamento da Ivix, especializada em reestruturação de empresas em crise, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo.
“Até há pouco tempo as negociações de créditos podres no Brasil não existiam, estavam mais restritas às carteiras de pessoas físicas. Esse mercado ganhou maior importância depois da recessão, quando as empresas passaram por um dos seus momentos mais críticos, engrossando os pedidos de recuperação judicial e falência”, disse Pedro Guizzo, sócio da Ivix.
“Com a expectativa do crescimento do PIB brasileiro, o mercado de inadimplência tornou-se atraente para agentes internacionais que buscam investimentos estruturados e podem contribuir para o saneamento de empresas e setores da economia”, destacou Nestor Rêgo, presidente da Prime Yield.
A carteira de inadimplência do mercado imobiliário, por exemplo, tornou-se mais valorizada para esses negociadores, uma vez que o setor ensaia uma retomada mais robusta.
Concentração
Os cinco maiores bancos concentram o bolo dessas dívidas, de acordo com Guizzo. No levantamento feito pela Ivix, o Itaú responde pelas maiores perdas (de cerca de R$ 250,4 bilhões no acumulado de 2004 até primeiro semestre deste ano), seguido pelo Banco do Brasil (R$ 218,5 bilhões), Bradesco (R$ 172,5 bilhões), Santander (R$ 141,7 bilhões) e Caixa Econômica Federal (R$ 131,6 bilhões).
Para Guizzo, o potencial é de recuperar entre R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões desse montante total. “As dívidas corporativas são mais recuperáveis (respondem por um pouco mais da metade dos quase R$ 1 trilhão). As chances são de recuperação de 30% desse montante corporativo entre 18 meses e 24 meses.”
Com uma carteira de inadimplência de R$ 35 bilhões, a Enforce, do BTG Pactual, vê um ambiente mais favorável para recuperação desses créditos daqui para frente, uma vez que o mercado brasileiro ganha maturidade nesse setor. “Os bancos têm dois caminhos: ou eles mesmos correm atrás desses créditos ou contratam empresas especializadas nisso”, afirmou Alexandre Câmara, presidente da Enforce.
A empresa do BTG foi criada no fim de 2016, um ano depois de o banco de André Esteves ter vendido a Recovery, especializada em recuperação de crédito, para o Itaú, que também aposta no crescimento desse mercado.
Fundada em 2010, a gestora de recursos Jive tem cerca de R$ 3,2 bilhões sob gestão, com cerca de 8 mil processos de cobrança nas ruas. “A digitalização aumentou a velocidade de andamento dos processos judiciários e melhora a perspectiva de recuperação de parte dessas carteiras”, afirmou Guilherme Ferreira, sócio da gestora.
Em agosto em 2015, no auge da recessão, a Jive levantou um fundo de R$ 500 milhões – que resultou em investimentos de R$ 1,16 bilhão até janeiro de 2018.
Crise.
“Durante a crise, entre 2015 e 2016, os bancos ainda não tinham informações suficientes sobre o potencial de recuperação da saúde financeira de seus clientes, nem espaço para otimizar essas vendas de créditos. Havia um risco de piora da crise. Eles preferiram aguardar. O momento atual é mais benéfico para que todos os agentes recupere parte desses créditos.”
Procurados, Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil não comentaram. A Caixa não retornou aos pedidos de entrevista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Mônica Scaramuzzo
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