Artistas e visitantes fazem 'abraçaço' em defesa do Museu de Arte do Rio
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Se dependesse de amor, o Museu de Arte do Rio (MAR) estava feito. Na tarde desta terça (26), algumas centenas de artistas, funcionários e visitantes deram as mãos para envolver o sedutor edifício da Praça Mauá, no centro carioca, em um grande “abraçaço”.
“Essa mobilização é uma troca simbólica de amor entre a população e o museu. Eu digo que quando as pessoas vêm aqui na terça-feira gratuita elas saboreiam a arte. Hoje esse amor está todo aqui, não só pelo MAR, mas pela cidade”, dizia com um sorriso no rosto a artista plástica Rosana Palazyan.
Ela e outros artistas, curadores, educadores e produtores vêm se mobilizando desde o fim de outubro para resistir à crise financeira e de gestão pela qual o museu passa. Acabaram criando o movimento MAR Vive, hoje com cerca de 80 membros, e marcaram o ato.
Mas nem só de amor vive uma manifestação. Os gigantes cartazes colocados em frente ao prédio incluíam uma caricatura do rosto do prefeito Marcelo Crivella (PRB) em um corpo de cocô: “Tá todo mundo puto com essa merda!!!”. Outro representava o jogo da forca, com as palavras incompletas “C_ _ _ R A” (cultura) e “P _ EV _ D Ê _ C _ A” (previdência) e o bonequinho enforcado ao lado.
Entre os presentes estavam Marinete Silva, mãe da vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL), e Heloísa Buarque de Holanda, ensaísta, escritora, editora e crítica literária. “Eu nunca vi no mundo um museu onde o foco é a educação como aqui”, defendeu a artista.
Antes do abraço, ela participou de uma leitura conjunta (em certo desconjunto), de uma carta endereçada ao prefeito assinada virtualmente por mais de 38 mil pessoas: “A classe artística […] vem recorrer à Prefeitura do Rio de Janeiro, na figura de seu representante, Marcelo Crivella, para que não permita que o MAR feche suas portas um dia sequer e evite que a atual crise se torne ainda mais aguda”, pediram.
As críticas se referem a um atraso dos repasses municipais que começou há meses, culminando no atraso do pagamento das contas de manutenção do museu, segundo o Instituto Odeon, organização social que administra o local há sete anos.
Água, luz, segurança e salários do MAR vêm de verbas da prefeitura, enquanto exposições, eventos e programas educativos são mantidos por recursos de captação e leis de incentivo fiscal.
O valor que deveria ser repassado de abril a setembro só terminou de ser pago em 15 de novembro (em uma parcela de R$ 393 milhões). Nesse meio tempo, a folha de pagamento ficou ameaçada e o instituto decidiu colocar todos os funcionários em aviso prévio.
“É importante deixar claro que o salário nunca foi atrasado, colocamos em aviso prévio por precaução, para proteger os direitos trabalhistas dos funcionários”, disse o diretor do instituto, Carlos Gradim, em frente ao museu.
A crise levou o diretor cultural do MAR, Evandro Salles, a se demitir no início de novembro fazendo críticas à prefeitura. Nesta terça, ele era requisitado como celebridade pelos colegas. “O museu não está sendo priorizado nessa gestão como uma instituição fundamental para a cidade do Rio”, afirmou.
Agora a cidade ainda tem que arcar com mais R$ 2,1 milhões para o período de outubro a dezembro. Se esse valor for quitado, a situação se normaliza. Mas o ano que vem, quando o contrato acaba, ainda é uma incógnita.
Apesar dos protestos, o clima é de otimismo. O secretário municipal de Cultura, Adolfo Konder, marcou novas reuniões nesta semana com o movimento MAR Vive, dizendo que tinha “boas notícias”, e com o instituto Odeon.
À reportagem, a pasta informou que elabora, junto à Secretaria Municipal de Fazenda, um planejamento para pagar as próximas parcelas e que “se reuniu com representantes dos museus e do mercado para criar soluções estratégicas para solucionar os futuros problemas do MAR”.
Também afirmou, em nota, que estão sendo fechados R$ 3 milhões em patrocínio privado. A ideia é, no futuro, adotar o sistema de “endowments”, uma espécie de fundo permanente composto de doações privadas “largamente usado na Europa e Estados Unidos para financiamento de instituições culturais”.
Todo o imbróglio acontece em meio a uma disputa entre Crivella e a Fundação Roberto Marinho, parceira de seu antecessor Eduardo Paes (DEM) para a construção do museu em 2013, como parte do processo de revitalização da zona portuária do Rio.
Em julho, Crivella instaurou uma sindicância para analisar contratações sem licitação da fundação durante a gestão Paes. São ao menos 15 contratos, que renderam R$ 103,7 milhões à entidade. O maior deles é justamente para a construção do MAR.
Esse contrato já havia sido considerado irregular por auditoria do município durante a gestão do próprio Eduardo Paes. Na época, a fundação afirmou que todos os contratos “estão em perfeita conformidade com a legislação aplicável”.
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