Nora Krug investiga o passado da sua família em busca da sua identidade
O que é uma Heimat, a palavra em alemão usada no título do novo livro da escritora e ilustradora Nora Krug? Segundo a enciclopédia Brockhaus, citada em Heimat: Ponderações de uma Alemã Sobre Sua Terra e História (lançado agora pela Quadrinhos na Cia.), Heimat é um “termo que define o conceito de uma paisagem ou localidade real, imaginária ou construída, à qual uma pessoa associa uma sensação imediata de familiaridade”. No uso comum, o termo se refere ao lugar em que a pessoa nasceu, cresceu e viveu as experiências que influenciaram de maneira definitiva a formação do seu caráter, personalidade e visões de mundo. Os nazistas, por sua vez, utilizavam o termo para definir um local de afastamento.
O tema rende uma exploração e tanto para uma artista alemã que cresceu no país nos anos 1980 e recebeu, como todos os colegas da sua idade, muita educação formal sobre a história da guerra e do Holocausto. O problema é que ela chegou à conclusão que as formalidades da historiografia comum não eram suficientes para encontrar sua própria identidade – e decidiu investigar o passado de sua família, assunto tabu entre seus pais, como para muitos adultos da geração anterior à sua.
Foram então anos de pesquisas em arquivos alemães e americanos, viagens frequentes para sua cidade natal (Karlsruhe, no sudoeste da Alemanha, próxima a Stuttgart), visitas a museus, cartórios e mercados de pulgas – e conversas com familiares cujo contato ela e seus pais tinham perdido há décadas. O objetivo era tentar entender as consequências do regime nazista na formação da sua identidade – e, ao contar uma história particular, tentar arranhar o processo coletivo e histórico.
O modo que ela escolheu para montar o livro foi uma mistura entre romance gráfico, memórias, quadrinhos e colagens – a edição em formato grande auxilia a obra a ganhar um aspecto de caderno de anotações, embora exista ali uma trama não raro surpreendente e emocionante, com descobertas sobre sua família e sobre a sua própria Heimat.
Para a surpresa de Krug, porém, o trabalho encontrou ressonância forte no presente. “Enquanto eu fazia o livro, o panorama político na Alemanha mudou. Não apenas ali, mas em muitos outros lugares. E mudou de um jeito muito problemático. É difícil para mim, enquanto alemã, ver que o antissemitismo pode novamente ser professado abertamente na Alemanha”, explica, em uma ligação desde Nova York, onde vive. “Estou satisfeita porque o livro permite me engajar no diálogo sobre essas mudanças, e acho que todos precisamos estar cientes de que nossas democracias estão ameaçadas. Explorar histórias pessoais do passado nos ajuda a entender e evitar que erros como aqueles aconteçam novamente.”
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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