Na Argélia, Aïnouz acha a alma de seu filme
De todas as sessões de filmes brasileiros, até agora, na Berlinale de 2020, a de Karim Aïnouz, em Panorama Dokumente, foi a mais festiva. O cearense Karim tem torcida em Berlim. A própria apresentadora, ao chamá-lo no palco, lembrou que ele já participou tantas vezes, em diferentes seções, que faz parte da família do festival. Karim, dessa vez, trouxe o documentário Nardjes A., que fez na Argélia, no ano passado.
Na sexta-feira, 21, os argelinos foram às ruas, como têm feito no último ano. Mas, agora, a comemoração foi especial – um ano dos protestos que começaram em 22 de fevereiro de 2019 e que levaram à renúncia do presidente, em abril. Nardjes A. tem o sugestivo subtítulo de Um Dia na Vida de Uma Ativista Argelina.
Nardjes foi uma das (centenas de) milhares de pessoas que saíram às ruas para protestar contra a candidatura do presidente Bouteflika para um quinto mandato. O governo caiu de podre. Após a renúncia de Abdelaziz Bouteflika, o poder foi transferido para o Legislativo, que organizou eleições. Um novo governo foi eleito, mas os protestos continuam.
Origens
A própria Nardjes veio para a exibição do filme do qual, segundo o diretor, é a alma. Tudo começou quando Karim recebeu o convite para fazer um filme. A câmera – um Iphone de última geração. Ele foi à Argélia em busca de suas origens, disposto a fazer um documentário sobre seu pai. Chegou, encontrou um país em convulsão.
O projeto mudou. Ele encontrou sua personagem – Nardjes A. Como muitos jovens, homens e mulheres, ela foi às ruas por uma nova Argélia. E foi como para uma festa – maquiada, resplandecente. Era uma festa. Como se depõe um governo com sorrisos?
Esse filme saiu meio por acaso, sem que Karim tivesse certeza de estar realmente fazendo um filme. Uma obra autoral. Os créditos, a personagem feminina. Nardjes atravessa o movimento nas ruas. Volta para casa. E tudo termina numa balada – em festa.
Karim 100%. Nardjes A. começa com um dos planos mais belos já filmados. A multidão, vista de cima. O preto e branco vira cor. A câmera mistura-se às pessoas.
A multidão passa a ser vista de dentro. É formada por indivíduos. As imagens são belas, o som é imersivo. Palavras de ordem, canções. A voz de Nardjes. Avós comunistas que lutaram pela libertação da Argélia e colocaram a Frente de Libertação Nacional no poder. A luta para tirar a FLN.
Comunistas, palestinos, unidos. O povo, na rua, é sempre uma massa suscetível de manobra. Karim sabe disso. Liberdade, democracia, inclusão. A sensação de euforia é inebriante. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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