Deposto e preso, Mubarak assistiu a uma nova ditadura surgir no Egito pós-Primavera
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Esta não é a primeira vez que Hosni Mubarak, ex-ditador do Egito, morre. Há oito anos, em meados de 2012, circularam boatos de que ele tinha tido a morte clínica declarada. Era “fake news”.
Desta vez, a notícia é verdadeira. Mubarak morreu. Ao que parece, sem volta. Tinha 91 anos. Os dois momentos -sua falsa morte e a real- são bastante distintos.
O Egito de 2012 ainda vivia algum clima de euforia. A população tinha ido às ruas em 2011 e destronado Mubarak depois de três décadas de ditadura. Acreditavam poder moldar o futuro.
O país havia herdado uma economia em frangalhos, mas tudo parecia ter conserto. O poder das massas.
O Egito de 2020, no entanto, é de outra estirpe. O presidente eleito para substituir Mubarak, o islamita Mohamed Mursi, foi deposto pelo Exército em 2013. O general Abdel Fattah al-Sisi tomou o poder, esmagou protestos, prendeu opositores –e virou mais um ditador, como Mubarak.
Não há nenhuma perspectiva, hoje, de que o Egito volte a ter eleições democráticas.
Quando manifestantes voltaram às ruas em 2013, em oposição a Sisi, eles foram massacrados. O protesto na mesquita de Rabaa, em agosto daquele ano, terminou na morte de quase mil manifestantes.
No Cairo, centenas de cadáveres empilhados numa mesquita e uma população atordoada.
Tamanha foi a violência naquela e em outras ocasiões que, com o tempo, as ruas do país foram se esvaziando. Há medo de tentar, mais uma vez, derrubar um governante.
Com temor de estarem sob vigilância, os descontentes apenas sussurram. A geração de jovens revolucionários de 2011, ademais, foi detida, morreu ou deixou o país.
Mesmo as tímidas tentativas de criar um novo movimento político, no ano passado, terminaram mal. Em junho, o regime prendeu um grupo de pessoas que tentava formar uma coalização apelidada de Esperança para concorrer nas eleições parlamentares de 2020.
Eles foram acusados de planejar “a derrubada do Estado” e de se envolver com grupos terroristas. É difícil imaginar como os egípcios podem ter, hoje, algum otimismo. Mubarak foi removido do poder e detido, sim. Chegou a ser condenado.
Em 2017, porém, ele saiu da prisão e foi morar em uma mansão nos subúrbios do Cairo, como se nada tivesse acontecido. Pior –surgiram movimentos pedindo, com nostalgia, que ele voltasse ao poder. Afinal, em comparação com o atual ditador, alguns disseram, Mubarak não era tão ruim assim.
O fato de que Mubarak sobreviveu para testemunhar todo esse processo é de uma amarga ironia. Ele parece ter feito valer seu apelido, “a vaca que ri”, motivado pela marca francesa de queijos que tem uma vaca sorridente como mascote.
Nas sombras, como o fantasma de uma ditadura passada, ele assistiu aos fracassos dos protestos que o retiraram do palácio que ocupava.
A injúria à população foi tamanha que, com o anúncio da morte de Mubarak nesta terça-feira (25), a gabinete do governo egípcio emitiu um comunicado oficial elogiando o ex-ditador.
Foi um herói de guerra, diz o texto, que devolveu a dignidade e o orgulho ao país. Oxalá esse fosse o “fake news”.
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