Crise entre Rússia e Turquia se agrava na guerra civil da Síria
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A crise entre Rússia e Turquia devido à etapa final da guerra civil na Síria aumentou nesta quinta (27). Rebeldes apoiados por Ancara recapturaram uma importante cidade no noroeste do país e o presidente russo, Vladimir Putin, recusou encontrar-se com seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan.
As forças apoiadas pelo Exército turco, constituídas pelos defensores do último grande bastião contrário ao governo de Damasco no país, a província de Idlib, entraram em Saraqeb.
A cidade havia sido retomada pelo governo sírio, do ditador Bashar al-Assad, no começo do mês, com apoio da Força Aérea da Rússia. Ela é vista como a antessala estratégica para a captura da capital homônima da província.
No processo, ao menos três soldados turcos foram mortos, segundo Erdogan anunciou em discurso. Assim, são 21 mortes desde que a Turquia começou a enviar reforços para Idlib no começo do mês, para tentar conter a ofensiva do regime de Damasco.
A operação síria, apoiada pelos russos, havia começado em dezembro, e tem sido vista como a etapa final da guerra civil que destroça o país desde 2011 e já fez de 360 mil a 580 mil mortos, a depender da estimativa.
A perda de Saraqeb foi compensada, para Damasco, pelo anúncio de que outras 20 cidadezinhas ou vilas de Idlib foram reocupadas pelo regime nesta mesma quinta.
Esse ímpeto parece ter influenciado o desenvolvimento diplomático do dia: a recusa de Putin em encontrar Erdogan, a convite do turco, no dia 5 de março. Segundo o Kremlin anunciou, o russo estará numa “agenda de trabalho” e não terá tempo para a reunião.
A esnobada parece embutir o cálculo de que o bolsão rebelde/turco está sendo crescentemente sob cerco. Isso faz aumentar o temor de um embate direto entre a Rússia e a Turquia, uma integrante da Otan (aliança militar ocidental), pela divergência de interesses na Síria.
Para tentar evitar isso, uma delegação de Moscou está em Ancara para novas rodadas de negociações.
Desde 2018 os dois países tratam Idlib como uma zona de distensão militar, mas no fim de 2019 Ancara a invadiu para tentar formar um encrave destinado a receber alguns dos 3,3 milhões de refugiados sírios que abriga no seu território.
A ação foi paralela a uma invasão combinada com Moscou que estabeleceu uma faixa separando os curdos da Síria daqueles do sul da Turquia, que são separatistas, e azedou as cada vez mais próximas relações entre Putin e Erdogan.
Embora uma guerra seja improvável entre os dois países, há sinais preocupantes. Uma TV estatal russa, a Rossia 24, acusou militares turcos de dispararem mísseis portáteis contra a aviação russa sobre Idlib -uma escalada bastante grave, se confirmada.
Os russos consideram o apoio militar turco a rebeldes ilegal, apesar dos diversos acordos tácitos entre Moscou e Ancara. A mesma crítica é feita contra a residual presença americana na região, que lá estava para combater um dos beligerantes do conflito, o Estado Islâmico.
Para o Kremlin, sua presença com direito a uma base aérea e um porto na Síria é legal, já que o governo de Assad os convidou -a intervenção, iniciada em 2015 com apoio terrestre de Irã e do Hizbullah libanês, salvou a ditadura da derrota.
Enquanto as batalhas se desenrolam, cresce o drama humano. A ONU já contabiliza quase 1 milhão de deslocados internos, além de 400 civis mortos, desde o começo da ofensiva síria em dezembro.
Os relatos de crianças congelando devido ao frio intenso em campos improvisados são constantes.
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