Máscaras e 'beijo corona' mudam look e trato de fashionistas em Paris
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A atriz Claudia Raia até tentou dar dois beijinhos cariocas numa mulher a quem foi apresentada no desfile de Isabel Marant, na última quinta-feira (27). Não daria nem o paulista, de um lado só, porque ouviu um educado “non”. “Agora é só ‘corona kiss'”, rebateu a moça, explicando à brasileira o nome que os fashionistas da Semana de Moda de Paris deram aos beijinhos no ar que não tocam o rosto.
Instalou-se, nos corredores dos salões de edifícios históricos onde ocorrem os desfiles, no metrô apinhado de fotógrafos e no aperto dos banquinhos das apresentações, uma tensão típica de quem não vê a hora de poder voltar para casa.
Espirros de rinite alérgica, como os que acometem este repórter, são suficientes para a passarela perder o centro das atenções e os olhares críticos se voltarem para o possível incubador do covid-19. É um estado de atenção constante, que, para quem trabalha nesta temporada, faz algum sentido.
Parte dos presentes veio da Semana de Milão, no domingo passado, quando cidades do norte da Itália foram isoladas e começaram os cancelamentos das reservas na capital francesa. Três hotéis no lado esquerdo do rio Sena, que costumam receber profissionais de moda, reportam baixas consideráveis. O Derby Eiffel, próximo à torre que lhe batiza, teve metade das reservas canceladas nesta semana.
O movimento é estranhamente baixo na Louis Vuitton da avenida Champs-Élysees, a mais movimentada da cidade nesta época de desfiles, e os pontos de luxo da avenida Montaigne, onde se amontoam medalhões como Dior e Celine, estão às moscas. Na Nina Ricci, o vendedor fica na porta, de braços cruzados, como se esperasse algo acontecer.
Vem acontecendo. Enquanto o vaivém de modelos acontecia no início da semana, o grupo Bernstein and Boston Consulting publicou um estudo cujos números cravam perdas de US$ 43 bilhões (R$ 188,8 bilhões) nas vendas das grifes devido à prostração do consumidor assustado com o vírus. O banho de água fria fez as ações mergulharem em pleno “mês da moda”, como é chamado o período bianual de desfiles.
Eventos importantes foram cancelados, como a cerimônia de entrega do prêmio LVMH, destinado a jovens estilistas, assim como reapresentações privadas das coleções, os chamados “re-see”, e parte da agenda de jantares para a imprensa estrangeira. O do designer brasileiro Alexadre Birman, marcado para a sexta-feira (28), foi desmarcado na manhã do mesmo dia.
Os cancelamentos seguem a lógica do “beijo corona”, ou seja, quanto menos contato, toque e aglomeração, melhor.
A realidade pegou em cheio a indústria dos relógios de luxo. Na quinta, a Fundação de Alta Relojoaria, baseada em Genebra, na Suíça, cancelou a feira anual de lançamentos marcada para abril. A “decepção”, como definiram os organizadores no comunicado, é maior porque o salão teria sua primeira edição renovada, a Watch & Wonders, que tomaria a cidade com eventos em parceria com o governo e centros culturais.
Comunicados também estão sendo disparados pelas marcas, a exemplo da Valentino, instruindo suas representações globais a não enviarem profissionais para a semana de moda. Só viajará a Paris quem já estiver na Europa.
Para quem já está, as opções disponíveis são ou lavar as mãos como quem troca de roupa -e, nestes dias, muitos trocam mais vezes do que comem- ou aderir à máscara sanitária, o acessório “must have” (ou, tem que ter, no jargão fashionista) desta temporada.
O estilista Dries van Noten furou o estado de atenção para sinalizar o de emergência quando distribuiu aos convidados de seu desfile máscaras e tubos de álcool em gel em vez de lencinhos de seda, copos ou qualquer outra bugiganga assinada, os famosos jabás de desfile.
Mesma ideia que teve a Loewe, na abertura dos trabalhos da sexta, quando aderiu ao baile de máscaras fora de época ao oferecê-las aos convidados. Ainda há bom senso, porém. Nenhuma delas carimbou logos ou desenhos fofos para transformar o acessório em item colecionável.
Claro, há fashionistas dispostos a isso. Nas portas dos desfiles, alguns convidados fazem a paradinha para os fotógrafos registrarem sua dissimulada preocupação com a saúde, ainda que as TVs locais expliquem a baixa eficácia da máscara nos boletins sobre a disseminação do vírus.
Farmácias chiques mantêm estoques da máscara mais simples, descartável, vendida por incríveis seis euros, algo perto de R$ 30. As mais luxuosas, pretas e de tecido grosso, podem custar o triplo. São essas as mais fotografáveis.
Talvez porque na cabeça de uma parcela dessa bolha cheia de não me toques -pelo menos, por ora, ela pode assumir o melindre com razão-, dá para espirrar, mas um espirro fashion. Preto, afinal, deve mesmo combinar com tudo.
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