Casa das Máquinas, pioneira do rock brasileiro, prepara disco após 44 anos
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Pioneira banda do rock setentista brasileiro, a Casa das Máquinas se prepara para lançar um novo trabalho 44 anos depois de seu terceiro disco de estúdio. Trata-se de “Brilho nos Olhos” (nome provável), que traz dois integrantes da formação clássica e mais três recém-chegados.
O primeiro single, “A Rua”, sai nesta sexta (27) nas plataformas de streaming, e a sonoridade segue sendo aquela mesma de quase meio século atrás, com um passeio entre o rock mais puro do primeiro álbum, “Casas das Máquinas” (1974), e o som mais viajandão progressivo dos dois seguintes, “Lar de Maravilhas” (1975) e “Casa de Rock” (1976).
“A preocupação nessa volta aos estúdios era a de não perder a identidade”, conta o tecladista Mario Testoni, 65, tecladista do grupo desde o segundo álbum. “Nosso som era psicodélico, lisérgico, falávamos de amor e natureza. Ainda temos isso. Não temos canções de nove minutos, mas vou confessar que algumas têm uns seis.”
Uma mudança clara é no tipo de vocal. Antes eram mais agudos e dobrados, ou seja, cantados duas ou três vezes a cada trecho pelo mesmo vocalista e depois reunidos na mixagem como se fosse um coro. “A única coisa que não conseguimos fazer bem foi a dobra da voz; não ficou agradável para os dias atuais”, diz Testoni.
“Os anos 1970 foram de experimentação. Ir ao estúdio, na verdade, era pura diversão.” O grupo fez parte de um momento em que o rock brasileiro mergulhou fundo no som progressivo ditado por Pink Floyd, Emerson Lake & Palmer, Yes, Genesis e King Crimson. Além da Casa das Máquinas, a década ouviu Os Mutantes (comandado por Sérgio Dias, já sem Rita Lee e Arnaldo Baptista), O Terço, Pholhas, O Som Nosso de Cada Dia e Vímana, entre outros.
Apesar de não fugir das letras lisérgicas, o single da volta traz uma preocupação mais urbana. “É uma canção escrita há 25 anos pelo Aroldo Binda, ex-guitarrista da banda. Fala das crianças de rua, algo que começou ainda lá nos anos 1960. E piorou muito”.
O disco completo, lançado em uma parceria com a Monstro Discos, tinha data de lançamento no dia 13 de junho, mas a quarentena adiou os planos. “O show no Sesc Pompeia ainda está marcado, mas deve ser cancelado nos próximos dias”, acredita Testoni. “Não há nem possibilidade de prensagem agora, tudo parou.” O álbum, é claro, sairá também em vinil.
Entre as dez novas canções, uma delas foi lançada no início desse projeto, ainda em 2018. Trata-se de “Nova Casa”, que pode ser ouvida nas plataformas de streaming. Mas como os integrantes mudaram de lá para cá, a banda resolveu regravar a canção para o disco.
Os dois grandes hits do grupo nos anos 1970 também serão regravados, como faixas bônus. São “Vou Morar no Ar” e “Casa de Rock”, duas favoritas dos fãs, sempre requisitadas nos shows. Aos curiosos, vale dizer que os três álbuns clássicos estão disponíveis nas plataformas de streaming.
Além de Testoni, o baterista Mario Thomaz é sobrevivente da formação setentista. Aos dois, juntam-se agora Cadu Moreira (guitarra), Geraldo Vieira (baixo) e Ivan Gonçalves (vocal).
A parceria com a Monstro Discos revela um novo modelo de negócio. A banda não é simplesmente contratada, como antigamente. Neste caso, a Casa das Máquinas produziu o disco por conta própria, arcando com os custos de estúdio e mixagem. A empresa, por sua vez, banca a prensagem, a divulgação e o trato com as plataformas, entre outros.
“Foi muito surpreendente que eles tenham se interessado na gente. Ficaram sabendo que estávamos gravando de novo e nos procuraram. Essa parceira foi como ganhar na loto”, come mora Testoni.
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