Defensor da hidroxicloroquina, militar anestesista ganha espaço junto a Bolsonaro
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Desde o início da crise do coronavírus, o médico anestesista Luciano Dias Azevedo ganhou lugar no seleto grupo de profissionais da saúde com quem o presidente Jair Bolsonaro tem se aconselhado.
Fazem parte também deste petit comité o ex-ministro da Cidadania Osmar Terra, a imunologista e oncologista Nise Yamaguchi e o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres.
Todos são críticos à atuação do ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e à sua estratégia de defender o isolamento social como principal medida para evitar a explosão de casos de Covid-19.
Deste clube, Azevedo é o mais discreto, mas nem por isso sua influência é modesta.
Na última segunda-feira (6), coube a ele e à doutora Yamaguchi tentar convencer Mandetta, numa reunião no Palácio do Planalto, a assinar um decreto liberando a hidroxicloroquina para tratamento de infectados com o coronavírus, inclusive em estágio inicial.
O ministro se recusou, citando a falta de estudos conclusivos sobre a efetividade e a confiabilidade do medicamento, que já existe no mercado e é usado para doenças como lúpus e malária.
A exemplo de praticamente de todo o entorno de Bolsonaro, Azevedo é um entusiasta da liberação do produto, como deixa claro sobretudo em suas redes sociais, onde é bastante ativo.
Numa rara participação em um debate recentemente na TV Cultura, o médico afirmou que a droga oferece uma saída para pacientes infectados.
A Itália começou a usar [hidroxicloroquina] como última saída. Estamos no meio de uma guerra, isso nos dá esperança, afirmou.
No mesmo programa, ele disse que o remédio está conseguindo fazer as pessoas retornarem rapidamente ao mercado de trabalho.
Durante um tempo, sem produtividade, a população [do Brasil] vai sofrer, ainda mais num país subdesenvolvido, que tem poucos recursos. Os dados que nós temos de fora do país, como na Itália, são de que as medicações que eles estão usando estão conseguindo abreviar o tempo de doença e colocar a pessoa logo no mercado de trabalho, afirmou.
Formado em Medicina pela Unicamp, ele se aproximou do presidente por meio da militância em organizações conservadoras.
Uma delas é a Cúpula Conservadora das Américas, entidade surgida a partir de um encontro da direita continental em Foz do Iguaçu (PR), organizado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no final de 2018.
Outra é a Docentes Pela Liberdade, movimento que reúne professores, sobretudo de universidades, com perfil de direita.
Com essas credenciais, Azevedo passou a ser recebido em gabinetes importantes do governo Bolsonaro. Teve audiências, por exemplo, com o próprio Terra (quando era ministro da Cidadania) e com Filipe Martins, um dos assessores internacionais da Presidência.
Além de Eduardo, ele é próximo também de diversos deputados federais e de Arthur Weintraub, assessor especial da Presidência e irmão do ministro da Educação, Abraham Weintraub.
Para ganhar a confiança de Bolsonaro, ajudou bastante seu currículo de médico concursado da Marinha, onde tem o posto de segundo tenente. Ele tem grande experiência trabalhando na Amazônia, dentro de navios-hospitais, atendendo a populações ribeirinhas da região.
Em seu Twitter, Azevedo define-se como cristão conservador e elenca, entre suas prioridades, Deus, família e triatlon, modalidade que pratica.
É apoiador ferrenho de Bolsonaro e alinhado às ideias do filósofo Olavo de Carvalho. São seus alvos favoritos a esquerda e a imprensa.
No começo do ano, como quase todo mundo do entorno do presidente, criticou pesadamente o médico Drauzio Varella, por ter abraçado uma presa trans num quadro do Fantástico, da Rede Globo.
Ele também não deixou de alfinetar pelo Twitter o atual ministro da Saúde por sua relutância em receitar a hidroxicloroquina. Ministro: se errar, erre tentando, empatando! Mas se acertar, acerte ganhando, salvando vidas!, afirmou.
É improvável que, se Mandetta deixar o ministério, Azevedo assuma a pasta. Bem maior é a chance de esse discreto anestesista passar a ter influência crescente nos rumos da Saúde brasileira num futuro próximo.
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