Detroit inicia testes em quem não tem sintoma e pode ser laboratório para reabertura nos EUA
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Com um dos mais altos índices de morte per capita causada por Covid-19 nos EUA, Detroit se tornou a primeira cidade do país a iniciar um programa de testagem em pessoas sem sintomas da doença.
A medida, implementada no início da semana pelo prefeito democrata Mike Duggan, é a tentativa de preparar o município mais populoso de Michigan para uma reabertura econômica mais criteriosa a partir de maio.
Com cerca de 670 mil habitantes, Detroit registrava nesta sexta-feira (24) mais de 8.000 casos confirmados de Covid-19 e pouco mais de 700 mortes – média de 36 por dia -numa curva que já atingiu seu pico, de acordo com Duggan, mas ainda não interrompeu a transmissão da doença.
“O que estamos vendo é que subimos muito rápido, começamos a descer e agora estamos estabilizando”, disse o prefeito em entrevista coletiva na quarta-feira (22). “Não tenho dúvidas de que o modo como vamos derrubar o vírus abaixo desse nível é testando pessoas sem sintomas.”
Desde segunda-feira (20), trabalhadores de atividades consideradas essenciais têm prioridade para realizar em Detroit o teste rápido, sem necessidade de prescrição médica.
Se a pessoa deseja voltar ao trabalho e está sem sintomas, basta agendar o exame em um dos pontos que oferecem o serviço drive-thru na cidade para ter preferência na fila de espera.
Depois de realizado o teste, o resultado sai em aproximadamente 15 minutos.
De acordo com a prefeitura, cerca de 140 empresas já se inscreveram para fazer o teste em 5.000 funcionários. Metade desses trabalhadores pertence ao setor de alimentos, considerado prioritário pelas diretrizes do plano, mas também há pedidos de creches, consultórios médicos e do serviço postal.
A expectativa é que a cidade consiga realizar o teste em 1.500 pessoas por dia até o meio da próxima semana.
O programa de Detroit acontece no momento em que diversos estados americanos começam a ensaiar o afrouxamento das regras de distanciamento social, muitas vezes de forma precoce e sem o índice de testagem recomendado por especialistas, mesmo em pacientes sintomáticos.
Pesquisadores da Universidade Harvard, por exemplo, dizem que 500 mil testes diários seriam considerados um bom nível pré-reabertura, e os EUA hoje fazem cerca de 145 mil por dia.
Apesar das controvérsias, estados como Texas, Tennessee, Carolina do Sul e Geórgia, todos governados por políticos republicanos, do partido de Donald Trump, testarão, em graus diferentes, ações para suspender o isolamento até o início da próxima semana.
Michigan, onde fica Detroit, demorou para implementar medidas de distanciamento social contra o avanço da pandemia justamente porque a morosidade no processo dos testes deu a falsa impressão de que o novo vírus ainda não havia chegado ao estado.
O primeiro caso confirmado de Covid-19 em Michigan foi no meio de março, quase dois meses depois do paciente número zero nos EUA.
A curva, porém, subiu de maneira vigorosa e hoje o estado registra mais de 35,2 mil casos e 2.900 mortes.
Nesta sexta (24), a governadora de Michigan, a democrata Gretchen Whitmer, estendeu a ordem de quarentena até 15 de maio, mas relaxou algumas medidas.
Dessa forma, Detroit avança com seu programa de testagem amparada pelo estado, que passou a permitir a reabertura de alguns serviços, além de atividades externas para a população, como golfe e passeio de barco.
Whitmer insiste que o processo de retomada econômica será observado dia a dia e orientado pela ciência e por especialistas em saúde pública.
“Se começarmos a ver um pico, temos que ser ágeis o suficiente para recuar e, se percebermos que nossos números ainda estão em declínio, podemos dar o próximo passo conscientemente.”
Desde que a Casa Branca divulgou as diretrizes para a reabertura do país, em 16 de abril, Whitmer e outros governadores têm sido pressionados a suspender as medidas de isolamento.
Trump deixou a decisão sobre os prazos para os governadores, mas conta com os republicanos para tentar conferir um verniz de normalidade ao país a partir de maio.
O presidente está preocupado com o impacto que os danos econômicos da pandemia podem causar na sua campanha à reeleição – 26 milhões de americanos pediram acesso ao seguro-desemprego em cinco semanas.
Os EUA são recordistas em casos confirmados e mortes no mundo decorrentes do coronavírus, com mais de 870 mil diagnósticos e 50 mil vítimas.
O plano de retomada traçado por Trump tem caráter de orientação, já que os estados não são obrigados a seguir as medidas, mas estabelece critérios que vão desde capacidade hospitalar, diminuição sustentada dos casos de Covid-19 até o alto nível de testagem para a reabertura gradual das regiões.
A tendência é que o modelo adotado em Detroit seja seguido por outras cidades do país.
Ainda sem tratamento ou vacinas, a tentativa dos governantes é encontrar um nível de risco controlado durante a reabertura, evitando uma segunda onda de transmissão. E a chave para esse cenário, dizem especialistas, é a testagem em larga escala da população.
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