Empática e eficaz, Jacinda conduz Nova Zelândia à fase mais branda de restrições
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Depois de um mês de restrições para tentar conter o avanço do novo coronavírus, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, disse que o país “continua em um caminho de sucesso”.
“Nós fizemos isso juntos. Não há transmissão local generalizada e não detectada na Nova Zelândia. Nós vencemos essa batalha. Mas devemos permanecer vigilantes se quisermos continuar assim”, disse ela em um pronunciamento nesta segunda-feira (27).
Pedindo que a população dirija seus pensamentos aos amigos e familiares dos 19 neozelandeses mortos pelo coronavírus, a premiê anunciou a redução do nível do estado de alerta em vigor no país.
O nível 4, em que a Nova Zelândia estava desde o final de março, incluía o fechamento das fronteiras e do comércio, a obrigação de permanecer em casa e a suspensão de todas as atividades não essenciais.
No nível 3, em vigor a partir desta terça-feira (28), algumas empresas, estabelecimentos que entregam comida e escolas foram autorizadas a reabrir. Medidas de distanciamento social serão mantidas, inclusive sob fiscalização policial.
“O que eventualmente muda no alerta nível 3 é que uma parte maior da economia pode voltar ao normal, mas nossa vida social, infelizmente, não vai”, explicou Jacinda em entrevista coletiva para anunciar as novas medidas.
A postura, ao mesmo tempo otimista e cautelosa, aliada a ações como o corte de 20% no próprio salário e no de outras autoridades públicas por seis meses, colocou a primeira-ministra em uma posição de destaque internacional entre outras lideranças femininas no enfrentamento à pandemia de coronavírus.
O jornal americano The Washington Post elogiou a Nova Zelândia, dizendo que o país está “esmagando” a curva em vez de simplesmente achatá-la, em referência à tentativa de impedir uma grande quantidade de casos em curto período de tempo.
A revista americana The Atlantic se referiu à neozelandesa como “possivelmente a líder mais eficaz do planeta”. O Financial Times a chamou de “Santa Jacinda”.
Em editorial publicado nesta segunda-feira (27), o principal jornal neozelandês, The New Zealand Herald, faz ressalvas pontuais em relação ao trabalho da primeira-ministra.
Considerou confusas algumas regras de fechamento do país, mas atribui à “ação decisiva do governo” e à “comunicação e empatia claras e consistentes de Ardern” o fato de os neozelandeses terem permanecido “calmos, confortados e confiantes em meio à crise”.
“Independentemente de suas filiações políticas, a maioria certamente concordaria que tivemos a líder certa na hora certa”, diz o texto.
Pesa a favor de Jacinda, por exemplo, o pronunciamento feito antes do início da quarentena, no qual recomendou que as pessoas fossem gentis umas com as outras.
“Vão para casa hoje à noite e chequem como estão seus vizinhos, organizem os contatos telefônicos da sua rua e planejem como manterão o contato. Vamos superar isso juntos, mas somente se continuarmos juntos. Então, por favor, sejam fortes e sejam gentis.”
A líder da Nova Zelândia também expressou preocupação com as crianças em confinamento ao dar status de “trabalhadores essenciais” a personagens do imaginário infantil, como o coelho da Páscoa e a fada do dente.
“Digo às crianças da Nova Zelândia que, se o coelho da Páscoa não chegar até sua casa, precisamos entender que é um momento difícil para que ele chegue a todos os lugares”, disse em pronunciamento especial que antecedeu o feriado.
Os elogios à conduta da premiê neozelandesa, contudo, não são unânimes. Apesar de pesquisas de opinião no país registrarem índices de aprovação que beiram os 90%, há quem enxergue excessos nas medidas adotadas.
“Não queremos esmagar uma pulga com uma marreta e derrubar a casa toda”, disse o epidemiologista da Universidade de Auckland, Simon Thornley, em entrevista ao jornal australiano The Sidney Morning Herald.
Thornley assina, com outros especialistas em saúde pública e economia, um documento intitulado “Plano B”, em que aponta aspectos onde as restrições impostas na Nova Zelândia poderiam ter sido mais brandas.
O grupo de acadêmicos afirma que a rigidez das medidas traz o risco de criar problemas maiores do que os que se pretendia solucionar, gerando dificuldades na economia, desemprego, miséria e questões de saúde mental.
Apesar dos números que colocam a Nova Zelândia como um dos países em que o coronavírus teve a menor letalidade até agora –são 19 mortes e 1.469 casos registrados entre os 4,8 milhões de habitantes -, a pandemia revelou problemas sérios no sistema de saúde neozelandês.
O número de leitos de UTI por 100 mil pessoas na Nova Zelândia é de 5,14. Na vizinha Austrália, em comparação, a cifra é de 8,92. No Brasil, a razão é de 7,1 no SUS.
Além disso, os 20 Conselhos Distritais de Saúde, responsáveis pela administração do sistema, foram alvos de críticas por não saberem quantos ventiladores tinham e por administrarem mal a distribuição de equipamentos de proteção para profissionais de saúde.
O relatório de uma investigação do auditor-geral da Nova Zelândia divulgado sem alarde na semana passada revelou que o sistema ficou sobrecarregado já nos primeiros dias da pandemia.
O déficit na saúde pública do país pode ter sido, inclusive, uma das principais motivações para que a primeira-ministra adotasse medidas mais rígidas de contenção do coronavírus.
Mesmo diante das críticas, o prestígio internacional e os altos índices de sua aprovação na gestão na pandemia renderam a Jacinda um capital político que seu governo não vai querer desperdiçar nas eleições de setembro na Nova Zelândia.
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